nouveau roman

Designa-se nouveau roman, ou novo romance, um conjunto de iniciativas diversas e com diferentes concretizações, nascidas, entre 1950 e 1962, da necessidade de renovar a forma romanesca, tendo como representantes autores como Michel Butor, Claude Simon, Alain Robbe-Grillet, Robert Pinget ou Nathalie Sarraute. Em 1962, Artur Portela Filho e Alfredo Margarido publicam O Novo Romance, simultaneamente manifesto e obra de divulgação das novas tendências do romance contemporâneo. A renovação da estrutura romanesca conjuga, na reflexão dos autores, determinados traços negativos comuns face ao romance tradicional, como a recusa de introduzir uma explicabilidade ou causalidade na ação, a preferência do objetivo e da perceção ótica sobre a omnisciência ou a desconstrução do romance. Romance de rutura, subordinado, segundo Alfredo Margarido (cf. O Novo Romance, Lisboa, 1962, cap. I), a um imperativo existencial pelo qual "o que importa no romance não é já o seu condicionamento aos valores aceites, mas antes a violência exercida sobre os modelos essencialistas do romance burguês que o leitor espera como uma validação do seu próprio mundo, onde os valores "são" imutáveis. (...) Recusando-se a ser o elemento redutor de uma consciência alienada, o romance ganha para si (e em si) uma forma muito peculiar, que decerto o torna impopular, pois o seu consumo não é já um 'divertimento', antes exige a revisão contínua dos processos intelectuais e das formas de alienação que pesam sobre a sociedade" (id. ibi., p. 27). O estranhamento é produzido pela transformação do leitor e do narrador em puros observadores de um espetáculo relatado com secura; pela apresentação das coisas em si, desprovidas de qualquer sentido que não seja a sua própria existência; pela "redução da distância entre o ato de escrever e a existência-afirmação do próprio objeto"; e por uma ausência de noções temporais e espaciais que situa as personagens num vácuo destituído de regras de comportamento social. "Varrendo do espaço romanesco os signos do romance burguês" (ibi., p. 92), é definido, por Bernard Pingaud (ibi., pp. 137-142), como uma "escola da recusa": recusa da personagem, quer pela relevância que o mundo exterior ganha, quer pela submissão do mundo exterior à consciência; recusa da intriga como eixo do discurso narrativo; recusa de submissão a uma preocupação psicológica, moral ou ideológica; recusa da cronologia como suporte dos acontecimentos. A ausência de referências precisas introduz no romance uma atmosfera enigmática e desconcertante, que beneficiou das aquisições do romance policial, para fazer adensar a suspeita de que "tudo é falso: a ordem da sociedade em que vivemos, a liberdade, a justiça, o nosso conhecimento psicológico dos seres, o poder da linguagem" (Nathalie Sarraute, ibi., p. 145). Postulando a desagregação do tempo e do indivíduo, desprovendo a intriga de uma lógica interna, subvertendo os princípios que regem o consumo da ficção tradicional, esta tentativa, de um modo geral, foi, no início dos anos 60, acolhida com antipatia pela crítica portuguesa, o que os "autores" do Novo Romance justificam por um condicionalismo extracultural que empurrara a literatura portuguesa para a oficialização de uma "ficção de emergência" (ibidem, p. 185), não deixando contudo lançar raízes, muitas das vezes inconfessadas, nos processos de renovação que marcaram a evolução da novelística portuguesa contemporânea.
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