Novas Correntes de Espiritualidade (sécs. XIII-XV)

O período que decorre do século XIII ao século XV é pleno de mutações no aspeto religioso com enormes repercussões a diferentes níveis, nomeadamente o político e o social. Destacam-se alguns momentos importantes que deram corpo à nova espiritualidade medieval: a fundação da ordem dominicana e da ordem franciscana, a luta contra a heresia, a criação da Inquisição, o incremento das universidades, o reavivar do ideal de cruzada, a crescente importância do papado e o Cisma do Ocidente.
Foram as ordens mendicantes e as universidades que estimularam a Igreja no Ocidente quando se concluiu a reforma pontifical. Surgem no contexto de uma nova espiritualidade que se destaca de forma mais evidente nos meios urbanos. O desenvolvimento das cidades trouxe consigo uma transformação acentuada nas formas de povoamento e surgiu uma sociedade burguesa, cada vez mais pujante, que demonstrava uma maior capacidade para compreender os problemas religiosos, tornando-se, por isso, mais exigente quanto aos ensinamentos divulgados pelo clero. Os meios urbanos passaram assim a ser um espaço privilegiado para os mendicantes colocarem em prática o seu apostolado e instalaram-se preferencialmente na periferia das cidades, respondendo assim, de forma eficaz, às necessidades espirituais dos seus habitantes. Foram considerados os verdadeiros apóstolos das cidades.
As duas ordens que surgiram no início do século XIII revestem-se de características muito especiais e inovadoras para a época. S. Domingos, fundador da Ordem Dominicana, fez da pregação e da imitação da vida dos Apóstolos uma atitude que assumiu as características da itinerância e da mendicidade. A grande novidade proposta por S. Domingos foi a feliz união entre o cenobitismo e vida apostólica. O convento funcionava na organização da sua ordem como a sede ou centro de formação dos pregadores - o studium. Era ali que os noviços faziam uma rigorosa aprendizagem da teologia e era uma espécie de refúgio para enriquecimento espiritual dos frades. Por ordem papal teriam que adotar uma regra já existente e por esse motivo passou a reger-se pela regra de Santo Agostinho. Com efeito, desde o seu início, a Ordem caracterizou-se pelo seu pendor fortemente clerical, apesar de todos os seus membros receberem as ordens maiores. A Ordem dos Pregadores distingue-se, sobretudo, por ser uma Ordem de doutores e de sábios em questões doutrinais. Citem-se como meros exemplos os santos Tomás de Aquino e Alberto Magno. Desde o seu nascimento a Ordem - confirmada por Honório III em 1216 - estruturou-se de uma forma muito hierarquizada, no entanto, sob um tipo muito democrático. Os Dominicanos dependiam do papado mas obedeciam a um Mestre Geral, membro da própria Ordem. Devido ao rápido crescimento da Ordem, foi necessário fazer agrupamentos de três ou mais conventos em províncias, cujos priores de cada convento, eleitos por três anos, se reuniam uma vez por ano em capítulo provincial. Da máxima importância para o bom resultado dos objetivos a que a Ordem se propunha era a eficácia da organização dos studia. Foi através dela que a Ordem Dominicana se tornou a instituição de ensino de vanguarda na época em que foi criada.
A pobreza era uma ideia inerente à itinerância e à pregação. Assim, o pregador quando em missão de pregação deveria mendigar o seu alimento e o seu abrigo. A sua conceção de pobreza dos dominicanos não gerou tantos conflitos como os que se verificaram no seio da ordem franciscana.
A outra Ordem Mendicante com grande impacto na espiritualidade ocidental do século XIII foi a Ordem Franciscana, fundada por uma das mais queridas figuras da Igreja - S. Francisco de Assis. O evangelismo e a formação de uma milícia ativa de frades menores alcançaram um sucesso sem paralelo. S. Francisco seguiu uma vida de oração, pregação e mendicidade e constituiu um grupo de irmãos que se dispunham a seguir um ideal de pobreza evangélica. Através da sua ação missionária desejou levar o Evangelho aos territórios islâmicos. São Francisco deu à comunidade uma regra aprovada por Honório III em 1223 e os Franciscanos passam a ser designados de Frades Menores.
Ao contrário dos Dominicanos, os Franciscanos desenvolveram uma atividade que não lhes exigia conhecimentos teológicos muito profundos, pois a sua pregação era mais moral que doutrinal. Embora distanciados dos dominicanos a nível da vocação possuem semelhanças no que diz respeito à organização.
A criação do ramo feminino verifica-se para as duas novas ordens, diferindo do ramo masculino pelo facto das mulheres serem obrigadas a obedecer a uma regra de clausura.
A Ordem Franciscana colocou um problema que se arrastou por largo período de tempo: a querela sobre a pobreza. Enquanto Elias de Cortona foi geral da ordem, estalou uma controvérsia interna sobre a natureza da pobreza entre os irmãos de S. Francisco e a forma como a Ordem estava a ser gerida. Era notória a oposição dos frades ao governo autoritário e centralizador do ministro geral e acusaram-no de deturpar as diretivas que herdaram do seu fundador - recebeu privilégios papais, suavizou a regra e mandou construir em Assis uma rica basílica em homenagem ao fundador. Em nome da pobreza doutrinada por S. Francisco os seus mais antigos seguidores manifestaram-se contra Elias de Cortona destituindo-o do cargo e fazendo prevalecer hábitos rigorosos.
Tanto Dominicanos como Franciscanos adaptaram o seu género de vida e a sua ação apostólica às necessidades sentidas pelos homens do seu tempo. Naturalmente que a grande adesãos dos laicos às novas doutrinas iriam provocar um certo mal-estar entre os curas e os párocos, que se viam relegados para segundo plano no que respeitava à obtenção de privilégios e prestígio, o que veio a constituir um problema que os mendicantes tiveram de combater. Foi através do Concílio realizado em Lyon (1274) que os Dominicanos e Franciscanos viram confirmados os direitos promulgados pelo anterior pontífice. Foi-lhes concedido novamente o direito de pregar e confessar nas paróquias, direito esse que era contestado pelos curas. Assim, o seu sucesso não teve paralelo na história das ordens religiosas, sendo, por isso, imitados com a criação de novas ordens, como foi o caso dos Carmelitas estabelecidos como ordem eremítica contemplativa desde 1185, imigrando posteriormente para o Ocidente a partir de 1238. Adaptaram depois a sua regra segundo o modelo das Ordens Mendicantes. Os Eremitas de Santo Agostinho criados em 1256 (que seguiram o modelo das Ordens Mendicantes) são o fruto do grande sucesso obtido por aquelas.
O século XIII foi marcado pelos conflitos que puseram em confronto alguns católicos descontentes e a Igreja. O estado de opulência em que vivia esta última motivou a contestação e o seguimento de uma linha radical por parte dos descontentes, defendendo uma pobreza primitiva. Muitas destas posições defendidas pelos laicos aproximavam-se perigosamente da heresia, que se encontrava já bastante difundida pela ação dos hereges do século XII. As duas seitas heréticas com ação mais relevante foram os Valdenses e os Cátaros ou Albigenses. É também com o propósito de lutar contra os movimentos heréticos, principalmente contra os Albigenses, que se enquadra a ação de São Domingos. É neste contexto que o IV Concílio Ecuménico de Latrão (1215), sob a presidência de Inocêncio III, desenvolve os seus trabalhos na tentativa de solucionar todos os problemas que atingiam a Igreja: a necessidade de uma reforma interna, a definição da relação entre temporal e espiritual, a luta contra a heresia e a realização da cruzada. S. Domingos participou neste concílio, que foi uma verdadeira reunião de toda a cristandade ocidental. Dele resultou um documento que contém 70 cânones disciplinares e dogmáticos e um decreto sobre a cruzada que se decidiu levar a cabo contra os heréticos Albigenses, cuja extinção foi a principal preocupação deste concílio. Esteve patente a ideia de que era necessária uma reforma profunda dos costumes do clero e da disciplina dos laicos, para que no futuro não surgissem novas heresias como a que se tentava combater naquele momento. Incrementou-se a veneração das relíquias de santos embora tendo o cuidado de controlar a proliferação de falsas relíquias, sendo sempre necessária a aprovação do Papa quando se tratava de uma nova descoberta. Reafirmaram-se os decretos anteriores sobre o nicolaísmo, a simonia, o luxo dos costumes e a acumulação de bens.
O cânone três do concílio criava um instrumento com vista à repressão dos movimentos heréticos - um tribunal que mais tarde passou a designar-se de Inquisição. Costuma fazer-se remontar ao Tratado de Paris de 1229 a origem da Inquisição. Através deste tribunal os heréticos eram julgados, excomungados, afastados dos cargos públicos e os seus bens confiscados. A Igreja tinha o direito exclusivo no que dizia respeito ao julgamento dos heréticos e confirmava as penas a aplicar através da constituição Excommunicamus, datada de 1231. Gregório IX estabelecia que a Inquisição ficaria entregue nas mãos da Ordem Dominicana, retirando essa responsabilidade aos bispos, o que inevitavelmente provocaria críticas por parte destes últimos. Os franciscanos também exerceram cargos de inquisidores sob mandato pontifical. Em 1252 o Papa Inocêncio IV autorizou a utilização da tortura para a obtenção da confissão dos heréticos.
A nova cruzada decretada pelo concílio, formada em 1217 na Sicília, recebeu os mesmos privilégios inerentes às que eram organizadas para combater os infiéis na Terra Santa.
Relativamente às cruzadas, verificou-se que foram um aspeto essencial da criação da consciência de um sentimento de unidade da cristandade, sob a bandeira de uma obra coletiva patrocinada pelo papado e pelos monarcas, tornando-se num dos empreendimentos mais importantes do cristianismo medieval. A primeira cruzada organizada com o propósito de libertar o Santo Sepulcro foi posta em marcha em 1095 e seguiram-se mais sete, tendo a última ocorrido em 1270. Portanto, o ideal de cruzada manteve-se durante quase dois séculos com consequências religiosas da máxima importância. A sua tarefa era unir a cristandade sob o comando do pontífice contra todas as crenças estranhas ao cristianismo: o islamismo, o judaísmo e o catarismo.
Outro fator de unidade religiosa foi a criação das universidades, facto que constituiu uma novidade para o século XIII. Pela primeira vez os professores e alunos que antes ensinavam e aprendiam nas escolas episcopais ou abaciais saíam agora desses meios e reuniam-se em locais específicos nas cidades, tendo sido constituídos centros de ensino autónomos. Embora relacionados com a Igreja, os intervenientes tornaram-se profissionais possuidores de um saber superior, podendo assim proporcionar um maior desenvolvimento quer a nível da ciência, quer no que diz respeito ao aumento dos conhecimentos entre o clero, proporcionando uma nítida divisão entre o clero instruído e o restante clero. Muitas das universidades que se contituíram sob a égide papal durante o século XIII seguiram o modelo parisiense. Serviram ao Papa como modo de unificação do governo, contando com fortes aliadas: as Ordens Mendicantes, com destaque para a ordem dominicana, cujos membros ocuparam a maioria das cátedras de teologia. Esta monopolização dos cargos universitários provocou o desagrado por parte do clero secular que assim via decair o seu prestígio.
Pode concluir-se que as ordens mendicantes, a universidade e a organização da cruzada constituíram poderosos instrumentos de unificação da fé cristã sob a alçada do poder papal.
Se o papado se mostrou poderoso durante todo o século XIII, já no seu ocaso as circunstâncias apontam para uma crescente perda de credibilidade e demonstram a sua impotência. A partir de 1294 começava a desenhar-se uma longa crise que iria culminar no Grande Cisma do Ocidente, prolongando-se até meados do século XV. Foi um tempo favorável ao aparecimento de novas heresias. A confluência de vários fatores - a insegurança vivida pelas populações mergulhadas na Guerra dos Cem Anos, vítimas da peste negra e desamparadas com a crise do papado - provocou inevitavelmente a desordem. Foi neste momento que as questões que se prendiam com a salvação da alma se exacerbaram e tomaram o carácter trágico que não conheceram durante todo o século XIII. Desencadearam-se sentimentos pessimistas confirmados pelo desequilíbrio vivido no seio da Igreja, o que daria lugar a novas devoções ou à procura desenfreada do prazer. Seria necessário um novo equilíbrio no qual a Igreja teria um papel fundamental, sendo obrigatória a apresentação de estruturas eclesiásticas renovadas.
A influência da França sobre o papado foi muito grande, o que acabaria por provocar a transferência da sede papal para Avinhão, que se tornou um território autónomo dos papas a partir de 1348. A transferência para Avinhão teve a duração do período decorrente entre 1309 e 1378. Após este exílio seguiu-se o Grande Cisma depois da morte de Gregório XI, que durante 40 anos caracterizou o período mais difícil da história da Igreja, acabando por ter consequências a nível político com a divisão da Europa consoante as simpatias pelo Papa de Avinhão ou pelo Papa de Roma. A Inglaterra, Irlanda, Flandres, Itália do Norte, Florença e Milão seguiam o Papa romano Urbano VI; a França, Escócia, Saboia, o reino de Aragão, o reino de Navarra, o reino de Nápoles, Castela e Portugal tomavam o partido do Papa de Avinhão Clemente VII. Foi um período de verdadeiro conflito para as consciências dos fiéis, proporcionado por um papado enfraquecido e sem capacidade para recuperar a antiga união, ocupado que estava em degladiações e excomunhões mútuas levadas à prática pelos próprios papas entre si, sendo extensivas às respetivas fações.
A tentativa de pôr fim ao conflito e à divisão através da reunião de um concílio em Pisa (1409) redundou num fracasso, pois o que conseguiram foi tornar a divisão ainda mais acentuada com a nomeação de um outro Papa, Alexandre V, que viria a morrer no ano seguinte, tendo sido substituído pelo Papa João XXIII. A cristandade era agora tricéfala, pois, embora este concílio tenha considerado os outros dois papas heréticos e inimigos da unidade, estes não se deixaram demitir.
A divisão e os conflitos só seriam resolvidos com a realização do Concílio que teve lugar em Constança (1414), por iniciativa de Sigismundo, rei da Germânia, adepto do Papa João XXIII com o consentimento desse mesmo Papa. A sua ideia era eleger-se Papa legítimo o que não se verificou. Ficou a ideia que só se conseguiria resolver a situação se os três papas abdicassem. João XXIII viu-se então em desvantagem devido à pressão das fações defensoras dos outros dois papas e fugiu de Constança; no entanto, fez tudo o que estava ao seu alcance para perturbar os trabalhos do Concílio, com o objetivo de o levar à dissolução. Acabou por ser demitido em maio de 1415. Posteriormente, em julho do mesmo ano, ocorreria a abdicação de Gregório XII e a deposição de Bento XIII (julho de 1417), respetivamente papas em Roma e Avinhão. Só com a deposição do Papa de Avinhão em 1417 é que, finalmente, o concílio resolveu o cisma. Inaugurava-se uma nova perspetiva do poder através da qual o Papa passaria a ser um mero instrumento consultivo no seio do concílio, submetendo-se-lhe, e este tinha amplos poderes para o destituir do cargo. Era ao concílio que o Papa deveria prestar contas. O problema que se colocava agora era o seguinte: dever-se-ia proceder à reforma da Igreja antes de se eleger o Papa ou eleger-se-ia primeiro um Papa para através dele encetar a reforma? Ficou estabelecido que se elegeria o Papa e de imediato se iniciaria a reforma da Igreja. O papa eleito foi Martinho V, a 11 de novembro de 1417. No entanto, não deixou de se fazer sentir um forte pendor das ideias conciliaristas que constituíam um sério perigo para o bom prosseguimento do desempenho da instituição papal e que acabaram por revelar o antecedente da cisão da cristandade ocorrida no século XVI.
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