O Amor em Visita

A publicação de O Amor em Visita, de Herberto Helder, em 1958, representa, para Fernando J. B. Martinho (cf. Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, p. 88), um dos grandes acontecimentos da década, uma vez que a "correlação magia/poesia, posta continuamente em evidência pelos surrealistas portugueses, encontrava finalmente a concretização por que há muito se esperava ao nível da dicção poética e do ritmo". Impregnada de uma comunhão cósmica e libidinal, a sua poesia obriga a uma leitura relacional que ponha em relevo o poder encantatório das palavras e a sua força de nomeação: "Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira / e a eternidade das mãos. / esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas / lâmpadas, todas as coisas. / As coisas que são só uma no plural dos nomes. / - E nós estamos dentro, subtis, e tensos / na música." («As musas cegas»). Ligando-se ao mago e ao visionário, o poeta coloca a linguagem num "tempo em que o sagrado fazia parte da substância íntima dos dias" (ibid., p. 88), recriando-a iniciaticamente sobre um fundo ancestral e elemental a partir do qual o "poema cresce inseguramente / na confusão da carne. / Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, / talvez como sangue / ou sombra de sangue pelos canais do ser." [...] - "E o poema faz-se contra a carne e o tempo" («O Poema»).
Como referenciar: O Amor em Visita in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-11-18 09:29:07]. Disponível na Internet: