O Império ou o Mundo aos Pés de Roma

Para o mundo romano os dois primeiros séculos do Império foram uma época de grande prosperidade económica, em parte devido a um conjunto bastante significativo de elementos favoráveis.
A "Pax romana" permitiu às zonas de província iniciar um trabalho mais seguro, agora ao abrigo dos "limes". De uma forma geral, por todas as áreas imperiais, excetuando a Itália, o aumento populacional foi uma realidade. As províncias, libertas dos publicanos, beneficiavam de uma administração acertada, estando os governadores, controlados pelo Senado nas províncias senatoriais e pelo próprio imperador nas imperiais, interessados no saudável desenvolvimento das zonas onde se integravam. Todos os anos, uma assembleia de província reunia junto do Altar de Roma e de Augusto todos os delegados das cidades para celebrar o culto ao imperador. Nessa ocasião, o governador escutava as opiniões e os votos da assembleia, uma vez que esta podia enviar, de forma direta, relatórios ao imperador. As cidades, cujo número tinha aumentado de forma significativa, viviam sob uma administração livre, apresentando os seus comícios populares, um senado local, denominado "conselho dos decuriões", e magistrados eleitos, os duoviros, edis e questores. Os cargos mais importantes e as honras municipais estavam em posse da burguesia abastada, simultaneamente o substrato da atividade económica urbana.
O papel desempenhado pela figura dos imperadores foi, de uma forma geral, benéfico e de importância significativa, uma vez que com os seus domínios imensos espalhados por todas as províncias, tornaram-se nos principais proprietários de terras do espaço imperial. De igual modo, favoreceram e desenvolveram a atividade comercial, ao fiscalizarem pessoalmente o abastecimento à capital e aos exércitos espalhados pelo território, pela emissão de moeda numerosa e valiosa, pelo desenvolvimento de uma eficaz rede viária, bem como pelo aperfeiçoamento do correio imperial. A atividade agrícola, por seu lado, declinou na Itália e nas ilhas periféricas, mas conheceu um crescimento significativo na Gália, na Hispânia e em África. As províncias continuavam a abastecer Roma e toda a zona itálica com produtos de luxo e de base alimentar, sobretudo através dos portos de Pozzoli e Óstia. A atividade industrial também se encontrava patente nestes núcleos urbanos, tornando-os, inclusive, autossuficientes. As oficinas das grandes cidade orientais, como Alexandria e Antioquia, reiniciaram e desenvolveram positivamente as atividades cessadas pelos conflitos civis. As províncias do Ocidente, sobretudo rurais, também se industrializaram, com exemplos concretos na Gália com a atividade cerâmica, desenvolvida no século I d. C., que inicialmente procurou suprimir as necessidades locais e rapidamente passou à exportação. Estabeleceram-se contactos comerciais entre as províncias e a zona itálica, entre as próprias províncias e em rotas amplas pelo exterior, que atingiam pontos longínquos como o Sudão ou o Extremo Oriente. Esta atividade vai explicar a prosperidade do porto de Alexandria e das áreas urbanas que acompanhavam diretamente as grandes rotas comercias das caravanas, como Dura-Europos, no Eufrates, Palmira, no deserto sírio e Antioquia, terminus deste trafego terrestre.
Nestes períodos de forte ascensão material, as diferenças a nível social baseavam-se, essencialmente, na fortuna e maior valia. Os mais abastados, os honestiores, os honrados, são membros da ordem senatorial, da equestre e da burguesia municipal, portadores, por tal, de todas as honras e benefícios. Os ricos burgueses, decuriões e magistrados são os benfeitores da urbe, fazendo benesses, oferecendo jogos e espetáculos e, inclusive, monumentos e estatuária. Uma fortuna de 400 000 sestércios abre-lhes a possibilidade de ingressar a ordem equestre, onde entram igualmente os libertos ricos, com os cavaleiros a poderem ingressar na ordem senatorial com um "investimento" de um milhão de sestércios. Deste modo, extingue-se a nobreza de casta fechada, uma vez que basta a fortuna pessoal para aceder aos cargos sociais mais elevados. Os restantes cidadãos, livres mas excluídos de honras, são os humiliores, os humildes, que representam a grande parte da população. Neste contexto, grupos de artífices, trabalhadores, empregados, pequenos comerciantes citadinos, agrupam-se em associações, nos denominados "colégios", formados por indivíduos da mesma profissão, fiéis da mesma divindade ou naturais da mesma província. Um dos objetivos mais frequentes destas associações é prestar, por exemplo, um serviço fúnebre mínimo aos membros. Os colégios dos estratos inferiores, denominados collegia tenuiorum, admitiam escravos e homens livres, num método usado com frequência pelos grupos de cristãos. Nas zonas de campo, onde a grande propriedade do homem rico citadino domina, os elementos rurais são essencialmente rendeiros ou trabalhadores agrícolas. Nos numerosos espaços de domínio imperial, os camponeses, dirigidos por "procuradores", obrigados ao trabalho e ligados diretamente à terra, simbolizam os precursores do baixo Império, vítimas de uma vida duríssima, invejando por tal as gentes urbanas; a romanização praticamente não os atingiu, continuando os camponeses gauleses o uso da língua celta, enquanto nas cidades se falava o latim.
Tal como a civilização grega, Roma era também urbana. O florescimento urbanístico influenciou de forma acentuada o crescimento das províncias, embora esse fenómeno seja distinto na parte oriental e ocidental do Império. No primeiro caso geográfico, as cidades eram anteriormente numerosas e tinham como língua o grego, por isso, os romanos não vão inovar, limitando-se a dar continuidade à obra legada pela cultura helénica, favorecendo o seu florescimento. Por outro lado, a ocidente, em África, na Hispânia, na Gália, e na Bretanha, as populações indígenas eram profundamente rurais, o que impeliu Roma a agrupá-las o mais possível nas cidades, podendo deste modo exercer maior controlo e iniciando-as na língua, religião e cultura romanas. Esta ocupação deu frutos, e cedo floresceram cidades em África, como Cartago, Timgad (Argélia), Volubilis (Marrocos), e na Gália, casos de Narbona, Arles, Lyon, Lutécia, entre outras. O plano urbanístico destas cidades recorda o traçado helenístico, mas simultaneamente o romano. Timgad, por exemplo, tem um plano em forma de mosaico, com as ruas cortadas em ângulo reto, com o fórum destacado no centro, rodeado pelos edifícios públicos, como a cúria, onde se reúnem os decuriões, a basílica e o templo.
Os monumentos mais emblemáticos das grandes cidades romanas são, além dos templos religiosos, as basílicas, os arcos do triunfo, os aquedutos, os teatros, os anfiteatros, os circos e as termas. A basílica, que não tinha propósitos religiosos, apresentava uma forma retangular, dividida em várias filas de pilares, servindo como local de reunião de homens de negócios e da assembleia; o arco do triunfo, por seu lado, era maioritariamente uma porta construída para celebrar um acontecimento importante, nem sempre uma vitória ou acontecimento bélico; os aquedutos asseguravam o abastecimento de água aos espaços urbanos, que muitas vezes percorria longas distâncias; o teatro, tal como o grego, desenvolvia-se em redor de um espaço semicircular que envolvia o palco, sendo rodeado por degraus de pedra dispostos em plano ascendente; o anfiteatro, de formato oval, como o de Nîmes, é igualmente rodeado de degraus, e era usado nos jogos de circo, espetáculos de grande agrado entre os romanos, que incluíam lutas de gladiadores, combates entre animais selvagens ou batalhas navais de arena, entretanto transmutada em grande lago; o circo era usado sobretudo para as corridas de carros, apresentando uma forma de retângulo alongado com extremidades redondas, com uma pista dividida ao meio por uma parede, a spina, tendo os carros que dar diversas voltas sem tocarem nos marcos colocados nas extremidades da pista. As termas e banhos públicos possuíam zonas de banhos frios, os frigidarium, quentes, os tepidarium, bem como salas de vapor, com algumas delas, como as de Caracala em Roma, a oferecerem aos clientes salas de cultura física, salões e biblioteca; estes espaços eram os epicentros de distração das urbes, apresentando pavimentos com mosaico, ricamente decorados.
As escavações em Pompeia vieram a revelar um exemplar singular da vida numa cidade residencial da aristocracia do século I. Foram localizadas vilas sumptuosas, de rica decoração e mobiliário, com estátuas e frescos de beleza assinalável; são igualmente visíveis as casas de aluguer, as lojas com as insígnias e instalações e, inclusive, avisos eleitorais, num todo que fervilhava de energia e vigor urbanos.
A cidade de Roma, por seu lado, era um imenso aglomerado populacional com mais de 1 200 000 habitantes, progressivamente engrandecido pela intervenção imperial. O Palatino, habitação imperial, foi ocupado completamente por palácios de imperadores; o velho fórum foi ornado com mais construções, como os arcos de Tito e Sétimo Severo; o anfiteatro Flávio, ou Coliseu, foi erigido na zona mais afastada de leste; a norte prolongam-no os forae imperiais, sendo o mais apreciável o de Trajano, com basílica, bibliotecas e a singular Coluna Trajana; no Campo de Marte, aos monumentos edificados no tempo de Augusto, foram acrescidas as Colunas de Antonino e Marco Aurélio, erguendo-se na margem oposta do Rio Tibre o Mausoléu de Adriano, atualmente o Castelo de Santo Ângelo; destaca-se ainda o Grande Circo (ou Circo Máximo), localizado entre o Palatino e o Aventino, bem como as colossais termas de Caracala. Para além deste conjunto de zonas de esplendor, desenvolviam-se por toda a cidade grandes núcleos de habitação popular, obrigatoriamente em altura, pois as áreas horizontais eram ocupadas com os edifícios públicos, formando as designadas insulae, construções de aluguer onde as pessoas viviam quase amontoadas, ocupando espaços exíguos; neste contexto, evoluíam, lado a lado, na colina Leste, monumentos belíssimos e bairros decadentes; mas para além dos problemas de alojamento, a falta de qualidade de vida estendia-se de igual modo às dificuldades de circulação, quase impossível nos bairros centrais, com frequentes engarrafamentos e ruído insuportável.
Esta "visão" de Roma arrasta consigo uma dualidade: opulência e miséria. O luxo no vestuário e na mesa era uma constante, com damas romanas a dedicar grande parte do seu tempo a tais atividades. De igual modo, a moralidade, e apesar do esforço de Augusto neste domínio, não era uma constante; o divórcio era comum e de fácil obtenção, estando Roma repleta de charlatões, vigaristas e desonestos. O povo ocioso aguardava somente por uma esmola do amo, pelo pão e pelos jogos imperiais, representados no circo e arenas diversas. As pessoas cultas e de maior nível cultural escutavam leituras públicas que os autores faziam das suas produções literárias, normalmente numa sala com esse fim, o auditorium; os autores com menores posses limitavam-se a apresentações no pórtico ou nas termas.
A velha instituição religiosa romana estava em profundo declínio e Augusto não o podia evitar. Os elementos da alta sociedade continuavam a comparecer aos cultos, mas a grande maioria não tinha qualquer crença nas divindades, como Vespasiano. A verdade é que a inquietação religiosa atormentava uma parte da população, o que explica, de alguma forma, o papel crescente de importância que as religiões orientais gozavam na capital imperial com os seus elementos de salvação e mistério. Depois do culto a Cibele e Attis, sucedeu-lhes Ísis e Mitra, deus da luz, de origem persa, que aconselhava a purificação e a vida austera, e até mesmo outro de influência "oriental", Adónis. Os grandes difusores destes cultos eram os mercadores sírios que negociavam por todo o Ocidente. Estes cultos que celebravam a morte e a ressurreição do seu deus tinham diversos pontos em comum, sendo frequentemente confundidos, mas contribuíram para "oxigenar" o moribundo paganismo e criar um impulso de resistência ao cristianismo emergente.
O campo social do ensino e da escolástica dos jovens romanos não era de tipo formativo. As crianças que não tinham um pedagogo próprio tinham que se deslocar às escolas de bairro, o que fazia aumentar as desistências prematuras. Poucos seguiam o ensino do "gramático" e do "reitor", que lhes ensinava a eloquência, contudo sem aplicação na vida quotidiana, sendo os exercícios puramente formais. Apesar do contexto, houve formadores e professores célebres, como Quintiliano, que recebia do Estado honorários pela sua atividade social.
A literatura latina tem grandes nomes: o do filósofo Séneca no século I, do poeta épico Lucano, autor da obra Farsália, os poetas Perso, autor de sátiras, e Marcial, compositor de epigramas. Na centúria seguinte destacam-se os historiadores Tácito e Suetónio, Plínio, o Moço, um elegante redator de cartas e panegírico do imperador Trajano, bem como o poeta satírico Juvenal, que apontava e exorcizava os vícios da sociedade sua contemporânea. A língua grega tinha, de igual modo, os seus vultos: no primeiro século da nossa era, o geógrafo Estrabão, e no século II, o moralista Plutarco, redator da obra As vidas Paralelas dos Homens Ilustres, e o imperador Marco Aurélio, autor de Pensamentos. No "mundo" grego verificaram-se igualmente mutações a nível do espírito crítico e científico, com Galeno na medicina, Ptolomeu na astronomia e Luciano, como crítico das superstições e preconceitos.
A arquitetura romana produziu diversas e importantes obras de referência. A escultura, contudo, tanto na estatuária como no baixo-relevo, pouco inovou ou renovou, sendo mais hábil que inventiva.
No limite do século III, num momento em que a instabilidade dos bárbaros parece querer surgir, e que, à prosperidade da centúria dos Antoninos se segue um período de dificuldades, é evidente o declínio dos centros urbanos e um empobrecimento da burguesia, que se subtrai aos cargos municipais. É o tesouro que, com progressiva dificuldade, proporciona os recursos necessários de subsistência. Esta incerteza face ao futuro faz aumentar o êxito e vigor das religiões "consoladoras", espelhadas, por exemplo, no cristianismo.
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