O Menino de Lapedo

Batizada como sendo do Lapedo, esta sepultura infantil do Paleolítico Superior inicial situa-se mais precisamente no Abrigo do Lagar Velho, no distrito de Leiria. Esta estação pré-histórica está, de facto, localizada no vale do Lapedo.
Em 1992, o proprietário do terreno, ao remover terras naquele lugar, acidentalmente deparou com aquilo que viria a ser um sítio arqueológico do início do Paleolítico superior. Esta classificação acabou por ocorrer devido à notícia de que Pedro Ferreira, um estudante universitário da região, havia descoberto vestígios de arte rupestre num abrigo na rocha. Em 28 de novembro de 1998, dois técnicos da Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia confirmaram a existência de pequenos motivos antropomórficos pintados a vermelho, datáveis do período neolítico ou calcolítico. Depois de observarem o local em redor, nomeadamente a parte escarpada, os dois técnicos da STEA depararam com uma jazida numa reentrância na rocha onde encontraram alguns pequenos ossos pretensamente humanos.
A descoberta foi logo relatada ao Instituto Português de Arqueologia (IPA) e uma missão deste Instituto, dirigida por João Zilhão e Cidália Duarte, deslocou-se ao local em 6 de dezembro, acompanhada dos descobridores dos achados, para proceder a um primeiro estudo dos mesmos e aquilatar da sua importância científica. De acordo com a análise de restos de indústrias líticas permitiu avançar com uma datação para os depósitos superiores de cerca de 20 000 e 21 500 anos antes do presente, com o enterramento a ter sido feito há cerca de 25 000 anos. Esta primeira avaliação cronológica veio a ser confirmada por várias datações por radiocarbono efetuadas em laboratórios nacionais e estrangeiros (Oxford, na Inglaterra, e Groningen, na Holanda). Os adereços rituais colocados em torno do corpo e outros materiais e respetiva disposição permitem, comparativamente, confirmar aquelas datações laboratoriais. Entretanto, os ossos recolhidos na toca, por seu lado, pertenciam à mão e ao antebraço esquerdo de um único indivíduo, uma criança de pouca idade. A coloração avermelhada dos restos humanos, devida à impregnação com ocre vermelho, sugeria a existência de uma sepultura. Tudo concorria para uma datação desta a remontar para os começos do Paleolítico superior, há aproximadamente 25 000 - 30 000 anos, o que confirmava hipóteses cronológicas avançadas anteriormente. Imediatamente iniciada uma campanha de escavações arqueológicas no Abrigo, rapidamente se circunscreveu a área de sepultura, felizmente ainda intacta, que logo começou a ser escavada. Esta campanha foi dirigida por João Zilhão, do IPA. Veio-se, entretanto, a apurar que o esqueleto estava parcialmente danificado: a mão, o antebraço e o pé esquerdos tinham sido deslocados, ou por um animal a escavar na toca ou no ato da descoberta; o crânio estava partido em pequenos fragmentos; o ombro e o braço direitos estavam esmagados. A caixa torácica, a coluna vertebral, a cintura pélvica, as pernas, o braço esquerdo e o pé direito, no entanto, estavam intactos e na posição original. Pelo estudo do esqueleto, pôde-se deduzir que a criança de Lapedo teria cerca de quatro anos de idade quando morreu, que tinha sido enterrada de costas, com a cabeça para Este e os pés para Oeste, no fundo de um pequeno buraco feito para o seu enterro.
Na fase final da escavação do esqueleto do menino, pela análise da sua mandíbula (com acentuada proeminência do queixo), aventou-se a hipótese de se tratar de um Crô-Magnon. O tipo de mandíbula e a cota de profundidade em que estava a sepultura confirmam a cronologia do início do Paleolítico superior. A sepultura do Lagar Velho é a primeira de época paleolítica descoberta até hoje na Península Ibérica. Ela prova, segundo João Zilhão no seu relatório de escavação, "que os primeiros homens de tipo anatomicamente moderno que atravessaram a «fronteira do Ebro» mantinham tradições culturais herdadas dos seus semelhantes que, no resto da Europa, haviam substituído os grupos neandertalenses autóctones alguns milénios antes, por volta de 36 000-37 000 anos antes do presente". O mesmo arqueólogo refere também "o facto de o esqueleto pertencer a uma época muito próxima daquela em que, nas nossas regiões, se deu o contacto entre os dois tipos humanos, seguido da substituição de um pelo outro. Abre a perspetiva de um estudo mais aprofundado, sobre bases anatómicas sólidas, das modalidades desse contacto, nomeadamente no que diz respeito à eventual ocorrência de processos de mestiçagem".
O Prof. Erik Trinkaus foi um dos especialistas estrangeiros que se dedicou de imediato ao estudo do menino de Lapedo, definindo-o como resultado da mestiçagem dos dois tipos humanos, tal como também a arqueóloga portuguesa Cidália Duarte tinha apontado. Anatomicamente, o esqueleto possui características próprias do Crô-Magnon e outras do Homo sapiens neandertalensis, o que reforça ainda mais a hipótese de uma eventual mestiçagem entre populações dos dois grupos em contacto. É um dado novo trazido à arqueologia pré-histórica, pois não há outro caso idêntico na Europa. Neste aspeto, o enterramento do Lagar Velho assume uma diferenciação clara em relação aos da mesma época.
A publicação científica destes resultados preliminares começou em 1999, embora ainda estejam em aberto muitas hipóteses de avaliação do achado e tenham surgido novos elementos a ter em conta. Mas ainda se esperam muitas outras conclusões, apesar de em estudos sobre Pré-História não ser possível ter certezas absolutas e definitivas. Estão em curso vários trabalhos de investigação, quer no âmbito da antropologia quer no que concerne à arqueologia. De qualquer modo, a criança de Lapedo traz novas interrogações acerca do Paleolítico Superior e, principalmente, à contemporaneidade e mesmo aos contactos e à miscigenação a todos os níveis entre homens modernos e neandertalenses, para além de comprovar a importância arqueológica do nosso país.
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