O Milagre Segundo Salomé

Idealizado entre 1932 e 1933, e, depois de limado o "excesso de sarcasmo e de polemismo que de início o permeou" (Nota do autor, José Rodrigues Miguéis), definitivamente terminado entre 1966 e 1967, este romance sobre uma possível aparição de Nossa Senhora das Dores, na aldeia de Meca, no momento e no local mesmo em que uma prostituta vestida com luxo encontra uns pastorinhos, e sobre toda a exploração comercial que promove o milagre, só poderia ser editado em Portugal em 1974.
O primeiro volume é constituído por duas partes. Na primeira parte, designada "A Queda Ascensional", desenvolve-se a narrativa em alternância de duas histórias. A história de Dores, desde a sua chegada a Lisboa até ser seduzida por um velho, o Tesouras, que a abandona depois de a engravidar, até à queda numa vida de prostituição onde toma o nome de Salomé. A queda, porém, descreve uma progressiva ascese: ao longo das ignomínias que a sociedade lhe impõe, Dores-Salomé conserva a sua pureza, a ingenuidade, o pudor e uma certa dignidade e bondade naturais, condensando-se nela um discurso de aspiração à mediania e à justiça social ("Falo da modéstia, honrada e decente. Se houvesse trabalho para todos, e mais... justiça, ou lá o que é, ninguém precisava de viver na miséria. Alguém devia velar por isso." (p. 203)). E a história de Severino Zambujeira, também ele um provinciano desembarcado na capital que ganhou a vida a pulso até se fazer banqueiro, que compra tudo com o dinheiro, e em quem se concentra o discurso da iniciativa capitalista e financeira. A segunda parte, "Capricho e Fuga", funda-se numa nova alternância, desta vez entre a história da relação entre Severino e Salomé, e cinco "Entremezes", uma série de crónicas satíricas político-sociais assinadas por Gabriel Arcanjo. O segundo volume, na terceira parte, "O Lume sob as Cinzas", continuando a alternância anterior, narra a viagem de Salomé à sua terra, situada no culminar de um itinerário que a vinha dotando, nos comentários de personagens secundárias, de uma aura de santidade; a doença e a mortificação que se lhe sucederam; a rutura com Severino e a promessa de voltar a ser "meretriz das ruas" como forma de humilhação e de martírio, que a tornassem digna da misericórdia divina; e descreve a versão da Aparição segundo os pastorinhos, seguida da descoberta da rentabilidade do Milagre por Severino. A última parte, "As paralelas encontram-se aquém do infinito", introduzindo em alternância com a narração o elogio ao industrial VandenBeurs, centra-se sobre o amor entre Salomé e o escritor Gabriel Arcanjo, um alter-ego do próprio escritor, que no final do romance decide escrever ele também um romance intitulado O Milagre Segundo Salomé: "Seria o romance dela e da catástrofe política; o dele e do seu tempo."
O Milagre segundo Salomé, milagre do amor e da geração da vida ("Para ele, que começava a ver desaparecer o mundo em que crescera [...] um filho era a contra-afirmação da vida, um desafio lançado à morte e à dissolução", p. 339), o milagre de "a gente sentir-se feliz neste mundo de atrocidades e misérias" (p. 236), opõe-se então a outras versões do milagre: a versão economicista, que vê nele um produto com potencialidades inesgotáveis; a versão política que vê no milagre a possibilidade de colaboração entre a Igreja e o Poder na imposição de uma concórdia nacional; a versão histórica que nos apresenta um país no impasse, caminhando cegamente para o fascismo, maduro para receber um milagre que galvaniza o povo e o reduz à "passividade da hipnose" (p. 125); ou a versão do antimilagre, explicada pelos intelectuais da "Sementeira", que adivinham que no "milagre", "o poder pessoal, o arbítrio, a prisão sem culpa formada, por delito de opinião, a censura, a supressão das liberdades de organização, do direito à greve ou à simples reclamação, a deportação e todos os restantes frutos do fascismo, sobretudo a hegemonia da alta finança." (p.105). Nesta medida, o milagre é um dos eixos da "figuração simbólica de uma época, ambiente e estado de espírito coletivo" ("Nota do autor", p. 354), vividos pelo autor, evocando o ambiente lisboeta nos anos turbulentos que se seguiram à implantação da República e que levaram à instalação do regime salazarista. Não se trata, no entanto, propriamente de um romance histórico, mas do resultado de uma experiência existencial; por isso, talvez os capítulos que condensam o panorama político, social e económico prefiram tipos de discursos "atuais", isto é, inscritos no presente do enunciador, nomeadamente a crónica jornalística e a exposição oral ("Entremez", "Elogio do nosso VandenBeurs..."), pelo que O Milagre Segundo Salomé não é "tanto o que nos diz ou narra, como a maneira como se realiza" (cf. "Nota do autor", p. 350). Considerando a identificação do leitor com as personagens como "a mola real da novelística" (id., p. 348), a narrativa privilegia uma relação mimética com a realidade, produzindo no leitor a ilusão de presenciar os eventos narrados. Para esse realismo contribui a utilização do discurso indireto livre e a adequação do discurso a cada uma das personagens, reproduzindo os seus socioletos (intervenções da senhora Engrácia ou do tenente Azaredo, por exemplo), adaptando-se à sua personalidade e vivência. Uma ilusão a tal ponto sugestiva que para a narrativa de José Rodrigues Miguéis poderíamos subscrever o comentário de Salomé sobre a escrita de Gabriel Arcanjo: "Só tu és capaz de escrever assim, com esta vida. Parece que as palavras, na tua pena, se tornam carne, estremecem, pulsam, vibram! Dizes «Apetece-me! apetece-me!», e a gente fica com fome e sede sem saber de quê..." (p. 299).
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