O Pequeno Mundo

Romance epistolar, de Luísa Costa Gomes, que, através dos mal-entendidos surgidos da correspondência cruzada entre dois amigos, Leonardo e João Miguel, na inquirição sobre um caso de corrupção denunciado por um jornalista há cerca de dez anos, desenha uma rede de versões diferentes de uma suposta mesma realidade. A chave desta controvérsia, pela qual cada correspondente constrói uma realidade à medida do seu "pequeno mundo", encontra-se talvez na doença contemporânea de que fala Leonardo, numa das suas cartas, a grubelsucht ou "loucura da dúvida" (p. 68), na sua relação direta com a fraqueza moral: "o carácter irresoluto, que se emparelha com a falta de confiança na inteligência, levam à perplexidade doentia dos que, prisioneiros dos seus próprios limites que é a história dos seus erros, se reduzem voluntariamente, como quem entra num mosteiro, à mísera forma de não querer. [...] Os homens de hoje são um cruzamento monstruoso entre dois dos caracteres que Teofrasto enunciou: o complacente, que, quando chamado a arbitrar se preocupa em agradar não só à parte que representa, mas também ao adversário, a fim de parecer imparcial, e o cínico, o que diz e faz placidamente as coisas mais vergonhosas. Mostram, naturalmente, todos estes apáticos, a maior das misericórdias e o Bem veio a ser a ausência de critério" (p. 69).
Como referenciar: O Pequeno Mundo in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-11-17 22:31:46]. Disponível na Internet: