O românico e outras expressões artísticas

Conhecemos o Românico como estilo aplicado à edificação monumental, sobretudo templos, que é a sua forma de maior esplendor e grandeza. Este facto faz relegar para segundo plano outras formas de expressão artística que funcionam como um todo. O caso bem ilustrativo é o da escultura, que, ao longo de todo o período românico, é eminentemente arquitetónica, ornamental, isto é, faz parte integrante da construção dos edifícios e não sobrevive independentemente. Veremos os casos eloquentes que podemos encontrar na nossa arquitetura, sobretudo a norte do Douro. Para além da escultura, a pintura, nomeadamente a iluminura e a arte dos metais, também assume entre nós uma especial importância.
Ao longo de todo o período românico surge-nos quer uma escultura cuja intenção é apenas decorar sem qualquer objetivo descritivo ou narrativo quer outro tipo mais elaborado, que através de séries de imagens sugere uma leitura muitas vezes eivada de simbolismo. No primeiro caso, manifesta-se, sobretudo, decorando elementos estruturais e grandes paredes lisas. Povoam particularmente frisos e portais cujos motivos são repetidos ao longo de toda a estrutura (lanceolados, enxaquetados, perolados, motivos em ziguezague, pontas de lança, etc.), como é o caso de S. Martinho de Manhente, perto de Barcelos, e Santa Eulália de Arnoso. Pode também verificar-se a conjugação de elementos repetitivos, preenchimento ritmado de espaços vazios, com séries de imagens, cujo propósito é vincadamente o da representação, seja de uma história, seja de um símbolo. Deste último tipo podem-se inumerar vários exemplos: o portal da Igreja de S. Salvador de Bravães, o portal da Igreja de São Pedro de Rates ou o da Igreja de São Salvador de Ansiães, todas situadas no Norte.
Atendendo a uma feição marcadamente decorativista, os elementos vegetalistas e zoomórficos que vão surgindo, especialmente nos capitéis, adquirem uma estilização geométrica bastante acentuada, talvez de influência moçárabe. É o exemplo de capitéis nos Mosteiros de São Salvador de Paço de Sousa, de São Salvador de Travanca ou de S. Pedro das Águias. É frequente a combinação de elementos geralmente zoomórficos e vegetalistas, por exemplo, um caule que sai da boca de um animal, enlaçando-o. Relativamente à escultura de representação, encontramos séries figuradas de uma imagética com determinado conteúdo simbólico, propiciando leituras coerentes e que geralmente se encontram em locais privilegiados do edifício: portais - local por excelência para o desenvolvimento de teorias da imagem com o seu tímpano e arquivoltas -; capitéis; arcos de acesso à capela-mor; modilhões; molduras de janelas; óculos e frestas. No entanto, não encontramos em nenhum dos casos grandes programas iconográficos, mas antes uma grande simplificação dos temas tratados. Os exemplos mais significativos, encontramo-los expostos nos tímpanos dos portais e na concentração escultórica que geralmente acompanha as arquivoltas.
Nos tímpanos, o tema que mais agradou ao escultor foi o que representa Cristo em majestade, envolto por mandorla e acompanhado por diversas personagens que podem ser santos ou apenas figuras que ilustram o castigo e salvação da alma. Exemplos mais bem conservados são os que se podem observar nos tímpanos das Igrejas de São Salvador de Bravães, de S. Pedro de Rates e de S. Salvador de Ansiães. Estas duas últimas representam o tetramorfo junto de Cristo em majestade.
Outras vezes Cristo assume simbolicamente a figuração do Agnus Dei, ou cordeiro místico, como os que se encontram no portal lateral da Igreja de São Martinho de Cedofeita no Porto, no portal lateral da pequena Igreja de São Pedro das Águias, situada a pouca distância de Tabuaço, no portal de São Pedro de Rates e igualmente em São Salvador de Bravães e de Travanca, para citar as mais significativas.
O portal de S. Salvador de Bravães é uma peça paradigmática nas decorações historiadas do Românico. As figuras não se confinam unicamente ao tímpano, mas assinalam a sua presença pelas arquivoltas e pelas colunas que formam uma anunciação (a Virgem perfila-se do lado esquerdo e do lado direito o anjo). O portal da Igreja de Vilar de Frades também é exemplar em termos de decoração das arquivoltas, retratando séries de figuras, cada uma delas desempenhando uma função específica. Outro local propício para o uso de um programa historiado é o capitel. Um dos exemplos mais significativos é o que encontramos no interior da igreja de São Cristóvão de Rio Mau, cuja leitura abrange três faces: um músico tocando o seu instrumento; dois homens, provavelmente guerreiros, que agarram um terceiro; um guerreiro que transporta outro homem que segura um bastão. Esta cena, segundo vários investigadores, tanto poderá ser a representação da gesta de Carlos Magno num dos episódios da Chanson de Roland como uma alusão à vida de S. Cristóvão. Ainda poderá referir-se a um episódio da vida local.
Os grandes programas escultóricos são reservados às sés catedrais, aos mosteiros com alguma importância, como é o caso dos beneditinos, e às colegiadas. É assim nas Sés de Braga, Coimbra, Lisboa como o fora no Porto e em Viseu; nos Mosteiros de Pombeiro, Vilar de Frades, Paço de Sousa, S. Pedro de Rates; e nas Colegiadas de Santa Maria de Guimarães, Santiago de Coimbra ou Santa Maria de Barcelos.
Da Sé de Braga podem destacar-se as representações presentes no portal, nomeadamente nas arquivoltas, com a sua longa série de aves, e os capitéis do interior do templo. Da Sé de Coimbra destacam-se as pilastras e capitéis do portal ornados com motivos vegetalistas e historiados com animais - leões afrontados e serpentes - sobressaindo uma decoração vegetalista de notável inspiração moçárabe que influenciaria as ornamentações do Sul; e a grande quantidade de capitéis no interior do templo, igualmente vegetalistas e historiados. A Sé de Lisboa mostra-nos oito capitéis sobreviventes do período que apresentam representações do Apocalipse.
Das construções beneditinas, requer especial referência o portal da Igreja de S. Salvador do Mosteiro de Vilar de Frades. A sua composição e temática são notáveis, dispondo-se ao longo das arquivoltas do portal em representações que incluem quer elementos animalistas e fantásticos, quer elementos humanos em cenas do quotidiano e do imaginário medieval.
Para além das representações referidas, são frequentes as que se referem a santos. É de salientar a presença quase constante de S. Pedro, S. João Batista, S. João Evangelista e S. Tiago Maior pela evidente ligação dos santuários e igrejas portuguesas a Compostela através da rede de caminhos estabelecida pelos peregrinos. Surgem também figuras de bispos, monges, cónegos e da realeza que marcam presença em lugares de destaque, como se se tratasse de uma antecipação da sua gloriosa eternidade. Os modilhões são frequentemente usados para a representação de animais fantásticos ou homens que, da forma como muitas vezes se apresentam, parecem desafiar a ordem estabelecida quando, por exemplo, exibem o sexo.
É comum encontrar nos portais a representação de figuras que servem de guardiãs à entrada do lugar sagrado. Já referimos a figuração do cordeiro místico, tema recolhido num episódio do Apocalipse, mas também marcam presença um sem-número de outras criaturas com óbvio carácter apotropaico (crenças primitivas ou pagãs), como é o caso dos leões (portal lateral de Bravães e S. Pedro das Águias) e das serpentes (S. Pedro de Rates). Cabe especial referência à representação de peixes (S. Cristóvão de Rio Mau), sempre associados a Cristo, e à escultura de simples cruzes que, nalguns casos, assumem uma elaboração complexa (portal axial de São Pedro das Águias).
O interesse das representações escultóricas presentes nas igrejas recai também na possibilidade de se poder perceber o funcionamento e estrutura da sociedade medieval, pois, para além da enorme atenção colocada na representação de cenas e figuras do mundo religioso, são igualmente representados o homem e a mulher comuns nas suas mais variadas funções e atitudes, num repositório de costumes extremamente importante para a compreensão dos mecanismos de estruturação social.
Se a escultura ornamental é abundante no nosso país, o mesmo já não se passa com a escultura de vulto. Subsistem raros exemplos de um conjunto do qual se crê ainda fazer parte um razoável número de imagens de Nossa Senhora que se encontrariam, por exemplo, em templos e santuários a Ela dedicados. São poucos os exemplares, dos quais se destacam as Virgens de Majestade sentadas com o Menino sobre o joelho, como a de Santa Maria de Guimarães ou a de Nossa Senhora das Areias de Braga.
No campo da escultura de vulto, é famosa, pela sua qualidade, a peça que se encontra no Museu de Machado de Castro proveniente da Sé do Porto e que figura um anjo da Anunciação.
No que diz respeito à pintura e iluminura, os exemplares que sobreviveram ao tempo, ao roubo, à negligência e aos ataques de variados agressores - insetos, fungos, etc. - são na verdade poucos. No entanto, a qualidade dos materiais, dos temas representados e da mão do artista asseguram-nos que, na sua totalidade, existiria um núcleo de certa importância constituído por livros sagrados, pintura em tábua e frescos. A fragilidade dos materiais de suporte e da própria pintura ditou-lhes um tempo de vida mais curto do que o da escultura. Acresce o facto de a nossa realidade económica ser muito diferente da que se verificava noutros países, cujos templos ostentavam uma grande riqueza, ao contrário da comprovada pobreza das igrejas portuguesas. O mesmo se passa com outro tipo de arte móvel, como é o caso dos tecidos, de tapeçarias, de vitrais, de tábuas pintadas, de frescos e de peças de ourivesaria constituídas por alfaias litúrgicas e relicários. Todas estas formas de expressão eram elaboradas para fazer parte de um todo e, naturalmente, com a função específica de decorar os templos. A visão da igreja medieval no século XIX e XX corresponderá a uma ficção, pois, através dos exemplares artísticos que podemos observar, estes locais eram profusamente decorados, onde a cor tinha um incontestado apreço, sobretudo pela sua simbologia, fruto de contacto com o Oriente.
A única expressão pictórica que nos é possível observar é a que chega através dos livros iluminados, porque as que poderiam ter sido elaboradas noutro suporte não sobreviveram. As pinturas em tábua mais antigas datam já do século XV. Esta ausência aplica-se do mesmo modo aos vitrais, à tapeçaria e aos tecidos.
A iluminura inserida nos livros litúrgicos, evangeliários, missais, breviários, saltérios e comentários ao Apocalipse, entendida como o complemento do texto, é o único tipo de expressão pictórica que nos chegou em quantidade e qualidade, graças ao trabalho intenso de cópia de manuscritos levado a cabo pelos monges. A maior ou menor eleboração das iluminuras ou a sua profusão dependia do tipo de livro que era objeto de iluminação. Especial cuidado era colocado na elaboração das Bíblias e dos livros litúrgicos que eram colocados no altar-mor para se mostrarem ao público, contribuindo, juntamente com os outros objetos já mencionados, para a concretização de um ambiente de sumptuosidade.
Em Portugal, a partir do século XII, o mérito é dividido por quatro casas: a de Santa Cruz de Coimbra, a de São Vicente de Fora - ambas pertencentes à ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho -, a de Alcobaça - da Ordem de Cister -, e a do Lorvão de Beneditinos - antes de se tornar num mosteiro feminino da ordem cisterciense. O livro mais glosado na Idade Média é o Apocalipse, o que é visível pela quantidade de cópias elaborada, das quais a mais famosa é a do Apocalipse do Lorvão (mais corretamente,Comentário do Apocalipse), feito pelo copista Egeas em 1189, inspirado nos Beatus, que eram cópias elaboradas a partir do original escrito e iluminado pelo monge Beato de Liebana em 786. É de grande qualidade a pintura que cobre os fólios em grandes extensões, predominando o vermelho em cenas simbólicas como a do Cordeiro Místico, e outras ligadas a Cristo, à Igreja e a Deus - cenas de vindima e a presença de arcadas como estrutura de um templo. Prefigurando a iconografia da Virgem Imaculada, surge a mulher vestida de sol que coloca o pé sobre a Lua e domina o dragão que arrasta estrelas. Neste livro a representação humana assume um peso muito importante.
Do mesmo scriptorium é igualmente famoso o Livro das Aves, com marcas da influência moçárabe, tal como acontece no livro anterior.
Das mãos dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra, centro da cultura moçárabe, saiu outra obra-prima, o Vetus Testamentum, que, relativamente ao estilo do Lorvão, se apresenta muito mais colorido, utilizando combinações de ocre, vermelho, azul e verde. Destaca-se o cuidadoso e apurado trabalho das iniciais, envolvidas por motivos geométricos e animais, num delirante jogo decorativo. Um dos livros mais importantes, o Liber Comicum, é datado de 1139 e contém figuras quer humanas, quer de animais, excelentemente executadas. Da análise dos manuscritos pode depreender-se que contêm alguma influência francesa, nomeadamente do Sul e das abadias de peregrinação, como Moissac e Limoges.
Devido às óbvias limitações relativas à imagem que pautam as disposições de São Bernardo, o núcleo alcobacense é muito mais contido relativamente aos outros dois centros. O espaço iluminado do fólio destina-se exclusivamente à inicial e a não existência de outros espaços iluminados remete o leitor para o texto como elemento fundamental. Destaca-se deste scriptorium a Bíblia de Alcobaça. Caracterizam este núcleo as iluminuras de temática vegetalista simples ou mais complexas com entrelaçados; as que representam animais, nos quais marca presença constante o dragão; e as que incluem figuras humanas, mais raras.
Alguns dos testemunhos de arte móvel do Românico que chegaram até nós são peças do trabalho em ourivesaria. Maioritariamente, estavam ao serviço da liturgia, como as cruzes, os cálices, as píxides, os relicários, só para destacar os de maior significado. Os encomendantes de tais obras são, em primeiro lugar, o clero e depois os membros da realeza e os nobres, que as doam posteriormente aos mosteiros e às sés.
Para se perceber a arte dos metais e da ourivesaria em particular, é necessário ter em conta os dois pontos de vista controversos dominantes durante o período que tratamos, relativamente ao uso de objetos de ouro e de outros metais preciosos durante as celebrações litúrgicas ou apenas como decoração. Os protagonistas foram Suger (ou Soeiro), abade de S. Denis, defendendo que o brilho e a riqueza emanadas desses objetos auxiliavam os fiéis a perceber e a atingir o mundo espiritual, e S. Bernardo, fortemente crítico face àquela posição, que, proibindo o uso de metais e pedras preciosas, estava a seguir a linha de austeridade e contenção que escolheu para pautar a vida da sua Ordem de Cister. Em Portugal, esta dualidade de opinião acerca do uso de objetos sumptuários também se verifica.
O espólio de objetos de ourivesaria é maioritariamente constituído por cálices, dos quais se destaca o de D. Gueda Menendis (século XII), proveniente do Mosteiro de Refojos de Basto, e cruzes processionais, como a de D. Sancho, do século XIII, ou outra mais antiga da igreja matriz de Vila Nova de Paiva. Atestando a ideia de dualidade, podemos comparar o referido cálice, requintadamente elaborado na sua totalidade, com outro oferecido por D. Dulce (século XII) aos monges de Alcobaça, cujos únicos elementos decorativos são o nó em filigrana e uma cruz repuxada na base, contrastando com a exuberância decorativa do de D. Gueda.
Referência ainda para os relicários que evidenciam a longa tradição do culto de relíquias, mas que nos chegaram em reduzida quantidade. De especial interesse se revestem os relicários de Arouca (século XIII), pertença de D. Mafalda, filha de D. Sancho I, e os dois relicários pertencentes à Sé de Viseu.
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