Obra Poética, 3 vols.

A poesia dos primeiros volumes de Ruy Belo deriva de uma rede de meditações incessantemente tecida em torno da morte, do quotidiano e de Deus repetindo de forma obsidiante a contingência de uma existência minada pela finitude ("A morte é a verdade e a verdade é a morte / Ao homem não foi dado nenhum outro dia / e a vida é qualquer coisa como nunca mais chegar / É humano nascer / é humano tombar e apodrecer", «O Último Inimigo», O Problema da Habitação), pela caducidade e pela fragilidade, espécie de epopeia trágica do homem que abandonou Deus ("Deixámos-te só senhor deixámos-te só / de braços estendidos contra os nossos dias [...] O nosso deus é um deus ofendido", Aquele Grande Rio Eufrates), perdido na cidade, alienado e desenraizado, esquecido da sua realidade espiritual e natural ("Nem nos perturba essa pesada dignidade / de recebermos de pé em plena face as estações / e de saudarmos à passagem os homens e o tempo" (Aquele Grande Rio Eufrates). O canto do poeta nasce, então, da denúncia irónica ou veemente da falência humana, fixando a expressão poética de índole metafísica, apoiada em intertextos bíblicos e numa inquietação religiosa e existencial, numa poesia evocadora de um quotidiano reconhecível nas suas imagens simples (as estações, a cidade, a árvore, as crianças...). Abrindo-se em coletâneas posteriores a uma poesia de intervenção, discreta e não demagógica, que parte "de um grande sentido de justiça ou de revolta que o poeta fez seus", o clima de obras como Boca Bilingue ou Homem de Palavra(s) "já não é o da fé, aliás perdida" (ibidem, p. 132) das primeiras obras, mas integram o autor naquela geração que em Portugal "perdeu o jogo do catolicismo e, talvez como nenhuma outra, proveniente de qualquer outro setor ideológico [...] haja contribuído tanto para a luta tendente à emancipação do povo português, não só pela sua atividade como pela constante e inexorável capacidade de reflexão e de revisão de métodos" ("Explicação que o Autor Houve por Indispensável Antepor a esta Segunda Edição", in Aquele Grande Rio Eufrates, p. 14). Alargada a uma grande diversidade de elementos culturais, e convertida em consciência de homem que detém uma missão de responsabilidade social, a sua poesia conciliará a realidade subjetiva com a realidade coletiva, numa visão melancólica do homem em função do social e do sagrado. Do ponto de vista formal, enquanto as composições do primeiro volume da Obra Poética de Ruy Belo combinam a poesia de teor discursivo com o uso de formas ou métricas fixas, numa exigência de rigor técnico, atestada pelo recurso frequente a figuras como a aliteração ou a assonância, e à "exploração e dinamitação de toda a espécie de rimas", o segundo volume denota a definitiva preferência pela discursividade poética de grande fôlego, diluindo as fronteiras entre poesia e prosa poética (cf., por exemplo, «Canto Vesperal» de Transporte no Tempo) e fazendo mesmo, no caso de A Margem da Alegria, coincidir um único e extenso poema com o livro. Reunindo o último ciclo da poesia de Ruy Belo (Transporte no Tempo, A Margem da Alegria, Toda a Terra e Despeço-me da Terra da Alegria), retoma o canto triste que, reiterando as isotopias da solidão e da morte, nasce do sofrimento instituído na relação do eu com o mundo, um canto tanto mais magoado porquanto os últimos títulos do autor parecem antever uma morte física dramaticamente e repetidas vezes encenada ao nível espiritual: "Chegou enfim o tempo do adeus / Oiço a canção efémera das coisas / despeço-me da terra da alegria / já reconheço a música da morte / Severos surdos saem os meus sons / destino humano instável enfim imóvel" («Despeço-me da Terra da Alegria», do livro homónimo). Assim, frequentemente auto-aniquiladores, misturando revisitações da infância com a amarga consciência dos limites da ação poética sobre o social, os textos da segunda coletânea falam-nos sem cessar de um "homem que nunca repousou sobre o que escreveu, que se recusou a servir-se a si e a servir, que constantemente se sublevou" (BELO, Ruy - "Breve Programa para uma Iniciação ao Canto", introdução a Transporte no Tempo).
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