Ocupação romana da Península Ibérica

A ocupação romana da Península Ibérica deverá ser equacionada no quadro mais vasto das Guerras Púnicas, que durante o século III a. C. opuseram Roma a Cartago, nomeadamente após a primeira destas guerras (264-241 a. C.) e a perda da Sardenha em 238 a. C., que obrigavam os Cartagineses a expandir a sua influência à Península. Primeiro com Amílcar Barca e depois com Aníbal, Cartago alarga-se de Sagunto a Olisipo, avançando pelo interior até aos rios Tejo e Douro, com campanhas na região de Salamanca e Ávila. Após o acordo celebrado com Roma, e que obrigava os Cartagineses a não ultrapassarem o limite físico do rio Ebro, Aníbal atacou Sagunto, aliada dos Romanos, que, apesar de estar fora da zona-limite acordada, serviu de pretexto para a intervenção dos itálicos, culminada com a declaração de guerra a Cartago e o desembarque dos contingentes militares romanos em Ampúrias.
O avanço progressivo dos Romanos pelo litoral mediterrânico foi fulminante, com a ocupação das atuais regiões portuguesas do Algarve e Alentejo a verificar-se na primeira metade do século II a. C. Dado que a segunda guerra púnica finalizou em 201 a. C., as operações de conquista romana não eram só sobre Cartago, mas sim sobre as populações e núcleos urbanos indígenas. Em 139 a. C., legiões romanas comandadas por Servílio Cipião estabeleceram-se na Caepiana, algures no Alentejo ocidental, demonstrando uma área de ocupação do Sul português abaixo da faixa Mértola / foz do Sado. Em 150 a. C. todo o Alentejo estava dominado e neste mesmo ano realizavam-se as primeiras investidas militares de ocupação do território dos lusitanos. Já em 194 ou 193 a. C., os Romanos tinham defrontado núcleos esporádicos de lusitanos que assolavam a zona do Guadalquivir, culminando com uma primeira campanha de assalto ao território lusitano liderada por Postúmio Albino, em 179 ou 178 a. C., que se estendeu até áreas próximas do rio Douro, mas onde os Romanos não devem ter mantido qualquer contingente após a retirada. Os anos entre 155 e 150 a. C. foram de intensa atividade bélica contra o território dos Lusitanos, com investidas sucessivas, sobretudo em 150 a. C., e com a proposta de paz daquele povo que Galba finge atender e não cumpre. Falhada a tentativa de conquista da Beira e de limpeza étnica empreendida por Roma, os Lusitanos iniciam novos ataques em 147 a. C., liderados por Viriato, prosseguindo a contenda com vitórias e derrotas partilhadas por ambos os lados em conflito, normalmente favoráveis aos Lusitanos. Em 140 a. C. foi negociada uma trégua com Viriato, reconhecido como amicus populi Romani, lançando as bases para uma Lusitânia autónoma, situação que não chegaria a verificar-se, fruto do início das hostilidades pelos Romanos em 139 a. C., culminada com o assassinato de Viriato nesse mesmo ano.
Com a nomeação de Décimo Júnio Bruto em 138 a. C. como governador da província Ulterior, iniciou-se uma estratégia militar concentrada nas zonas da fachada atlântica, em detrimento do território lusitano. Estabelecido no Sul do país, empreendeu uma expedição de conquista e pacificação que avançou por Sellium (Tomar), Aeminium (Coimbra), Talabriga, Cale (Porto?), até aos rios Lima e Minho. Esta movimentação não marcou contudo a conquista definitiva do Noroeste, não havendo inclusive dados que possam validar a presença romana permanente entre o Douro e o Tejo, embora se avance a hipótese de conquista nesta ou noutra campanha posterior da faixa marítima, primordial à expansão para o interior.
O período entre 137 e 80 a. C. é relativamente vago na perspetiva do avanço romano no território, existindo, com forte probabilidade, uma situação de domínio relativo, numa zona povoada por habitantes ávidos de revolta. A resistência apresentada por Sertório a Metelo e Pompeu entre 80 e 72 a. C. teve lugar, de uma forma parcial, no atual território nacional, com uma linha de fronteira algures no Alto Alentejo, tendo os contingentes de Sertório atacado inclusive zonas do Sul, casos de Dippo (entre Elvas e Évora?) e Conistorgis, e muito provavelmente mantido as suas posições na Lusitânia até ao momento do seu assassinato e fim da contenda, em 72 a. C.
A pacificação real do território entre os rios Tejo e Douro não deve ter existido de forma efetiva antes de 44 a. C., tendo Júlio César, ainda em 61 a. C., lutado contra as populações da área dos montes Hermínios. A sua estratégia foi continuada, muito provavelmente, por Pompeu, tendo a guerra civil que mantiveram (continuada pelos descendentes) feito perigar o domínio, já de si inseguro, da zona beirã. No final do ano 27 a. C. ou início do ano seguinte, Octávio Augusto estabeleceu um mínimo de seis legiões na Península, numa atitude nítida de pressão militar, que acabaria por dominar o Norte, terminando as guerras em 25 a. C. com a fundação de Mérida, capital da Lusitânia, e o estabelecimento nesta cidade de soldados licenciados (veteranos).
As intervenções militares de 24, 22 e 19 a. C. marcam a dominação de sublevações verificadas sobretudo no Norte e Noroeste. A pacificação definitiva do território, arrastada durante cerca de 175 anos, foi conseguida por Octávio Augusto, sendo desestabilizada ocasionalmente, como no caso das incursões de mouros e francos nos meados do século III d. C., e, de forma permanente, com o final do domínio romano consequente à invasão bárbara do século V d. C.
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