Ofícios Artesanais do Antigo Egito

Não existia no antigo Egito uma palavra para arte ou artista, além de que não havia diferença entre um escultor, ou um pintor, e um carpinteiro ou um oleiro, sendo todos igualmente artesãos. A sua habilidade e destreza em fazer objetos de carácter decorativo, doméstico, utilitário ou ritual é que os distinguia do resto da população trabalhadora, amplamente agrícola. As oficinas eram na sua maioria reais, isto é, pertenciam ao principal encomendador de objetos artísticos, o faraó. Além deste, também os templos e os altos funcionários, alta nobreza cortesã ou regional, tinham acesso às obras produzidas nas oficinas artesanais. Cada vez mais, ao longo da história egípcia antiga, as oficinas foram-se multiplicando, servindo uma clientela cada vez maior e mais diversificada. As oficinas tornaram-se até concorrenciais em todo o Vale do Nilo. Ourivesaria e joalharia, metalurgia, cerâmica e olaria, marcenaria, pedreiros e canteiros, escultura ou pintura, entre outros mesteres artesanais, foram ativos e disseminados por todo o território, desde os alvores da civilização egípcia.
Os artífices, ou artesãos, trabalhavam quase sempre em equipa, em oficina dir-se-ia, sob as ordens de um capataz e, muitas vezes, de um escriba. Muitos artesãos, depois de trabalharem nas obras reais, desde a construção até à decoração dos edifícios funerários, residenciais, comemorativos ou religiosos, regressavam às suas aldeias ou cidades e aí se dedicavam ao fabrico de objetos de uso quotidiano ou laboral, além dos ofícios de assistência e reparação, como o dos ferreiros, carpinteiros, etc.
Libertados da sujeição quase absoluta ao faraó ao longo do Império Antigo (c. 2660-c. 2180 a. C.), os artesãos começaram cada vez mais a trabalhar por conta própria, embora o faraó e a alta nobreza e administração, além do clero, continuassem a ser os seus maiores compradores. Os particulares fora daqueles segmentos tornaram-se também comitentes de obras artesanais. Apareceram ainda os primeiros agrupamentos de artesãos, organizados ou por ofícios ou por localidades, do tipo “confrarias”, muitas vezes dirigidas ou tuteladas por altos funcionários. Criou-se assim, a partir do Primeiro Período Intermédio (c. 2180-c. 2040 a. C.), uma hereditariedade quase dinástica no mundo dos artesãos, com a transmissão familiar de técnicas e estabelecimentos. Mas produzindo obras anónimas, quase sem exceção, controladas e fiscalizadas por funcionários reais ou da administração regional, mas sempre em nome e para glória do deus vivo, o faraó. Os artesãos, com o decorrer dos tempos, tornaram-se, os mais abastados, membros de uma classe social relativamente alta, a par de escribas e funcionários de nível intermédio, produzindo não apenas para os tradicionais comitentes mas também para proveito próprio e ulteriores trocas com outros artesãos. Os detentores de ofícios artesanais, porém, nunca lograram obter uma constante e generalizada boa imagem entre todos os Egípcios, sendo alvo de chacota ou crítica muitas vezes. Alguns conheceram, ainda, uma situação económica confortável, visível nos seus belos e sumptuosos túmulos.
Conhecem-se hoje as autobiografias de alguns artesãos, que nos dão a conhecer alguma da realidade do mester, a sua posição social, atividades, entre outros aspetos do ofício. A arqueologia também nos tem revelado outras dimensões do trabalho artesanal no Antigo Egito, ao exumar os bairros de artífices junto ao Vale dos Reis, em Tebas, em cujos túmulos trabalharam, ou em Guiza (Gizé), junto às Pirâmides e Esfinge, onde se têm descoberto as instalações de trabalho e dormitório de todos os operários que trabalharam na sua edificação, decoração ou manutenção. Mênfis, Tebas, cidades históricas, capitais até, do Antigo Egito, ou Abydos, Heliópolis, além dos vários santuários ao longo do Nilo, seriam as maiores concentrações de oficinas, artesãos e das suas “confrarias” no Egito Antigo.
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