Os banqueiros europeus e a expansão ultramarina portuguesa

Os grandes responsáveis pelo crescimento económico do século XVI foram os homens de negócios, geradores de algumas empresas multinacionais servidas por uma eficiente e rica rede urbana. Estes "capitalistas", por sua vez, criaram um sistema de tipo capitalista assente numa cidade tornada monopólio, como foi o caso de Lisboa. Em Portugal os monarcas financiaram uma parte substancial das descobertas, que conduziram ao controlo económico da Índia. A capital portuguesa era nesta altura o centro do comércio das especiarias e da pimenta em particular, pois a cidade estava apetrechada com as estruturas necessárias para dirigir e pôr a funcionar a economia colonial portuguesa. O rei reservou para si até 1570 o monopólio do comércio da Índia, e só depois desta data permitiu o arrendamento a contratadores, que já estavam envolvidos e dominavam o comércio de escravos. A cidade de Lisboa era, deste modo, a base de toda a empresa colonial, uma vez que nela estavam concentrados os maiores armazéns, entrepostos comerciais e todas as dependências onde eram tratados os assuntos relativos a problemas de ordem naútica, como a construção e manutenção dos navios, entre outros. Também o Estado estava encarregado de providenciar o pagamento dos custos de manutenção dos armazéns. O rei era o maior e mais poderoso capitalista português, que concedia licenças de importação a portugueses e estrangeiros, e se juntou por diversas vezes a notáveis figuras da nobreza, como Afonso de Albuquerque, e a negociantes do exterior provenientes da Itália, da Alemanha e da Espanha para armar os seus navios. No Império Português foram fundadas lucrativas feitorias, e o rei, atraído pela acumulação de avultados lucros, funcionou como o patrocinador desta empresa, sobretudo D. Manuel I (1495-1521) e D. João III (1521-1557). A cidade espanhola de Sevilha seguiu o exemplo português, desta feita baseando o seu monopólio no comércio com a América. Em 1503, a Coroa espanhola fundou, à imagem da Casa da Índia portuguesa, a Casa de la Contratación, em Sevilha. Tal como a de Lisboa, esta muniu-se de instrumentos naúticos e distribuiu licenças de passagem para as Índias. Contudo, a maior diferença entre estes dois modelos era o facto de o monarca de Castela ter entregue a exploração comercial a particulares, mantendo, no entanto, para Sevilha o monopólio do tráfico com as Índias ocidentais, facto de que resultou na fixação nesta cidade de homens de negócios de várias nacionalidades. Apesar de todo o aparelho montado pela Coroa portuguesa, Lisboa funcionava, no fundo, como um gigantesco entreposto. O verdadeiro comércio do Oriente processava-se, de facto, a norte, em Antuérpia, cidade onde os portugueses estavam desde o início do século XVI, e era controlado pelos grandes financeiros e mercadores europeus. O crescimento das cidades europeias no século XVI, em muitos casos, ficou a dever-se a grupos de negociantes e a famílias como os Fugger, uma dinastia fundada por Jakob, o Rico, descendente de Jakob, o Velho, que falecera em 1469. É por ação daquele membro da família Fugger que esta empresa de Habsburgo cresceu e prosperou. O segredo do seu sucesso esteve na aposta, não só no comércio com as repúblicas italianas, mas também na sua atividade como banqueiro dos príncipes. Esta atividade permitiu-lhe ganhar importantes monopólios, como por exemplo o contrato firmado com o arquiduque Sigismundo, príncipe do Tirol, pelo qual a exploração de prata das suas minas era a garantia do empréstimo concedido a este senhor. A sua grandiosa fortuna foi sustentada, em parte, pelo controlo do escoamento da prata e do cobre para Antuérpia, pois esta família conseguira alargar a sua influência sobre as minas de cobre da Hungria e da Eslováquia. Mas a sua fortuna aumentou consideravelmente com o seu envolvimento noutros negócios, tais como a transferência do dinheiro a enviar para a Cúria papal pelos eclesiásticos a norte dos Alpes, a participação no comércio português das especiarias, a organização de oficinas de tecelagem nos senhorios da família em Ulm, onde eram fabricados fustões que depois eram vendidos nos Países Baixos e na Itália. Todas estas atividades contribuíram para que esta família fosse, entre 1495 e 1525, a mais forte empresa comercial e também bancária da Europa do seu tempo, o que fez de Habsburgo um decisivo centro financeiro que veio a afirmar-se como uma potência política, nomeadamente pela influência decisiva que esta família de financeiros teve na eleição imperial de Carlos V em 1519. Anton, o sobrinho de Jakob, manteve a fortuna da família após a morte do tio, em 1525. No entanto, agora o centro de operações já não era Habsburgo mas sim Antuérpia, onde esta família atinge o seu ponto mais alto em 1546, coincidente com o período de maior prosperidade desta cidade. Contudo, a bancarrota da Espanha de 1557 provocou a derrocada dos Fugger. A cidade de Habsburgo teve entretanto outras duas famílias economicamente fortes: os Welser e os Baumgartner. Os primeiros tiveram alguma preponderância no escoamento de metal da Europa central para Veneza e Antuérpia, bem como no comércio de especiarias e tecidos. Esta família estabeleceu feitorias em várias cidades da Europa, numa verdadeira empresa de colonização financeira. Os segundos, originários de Nuremberga, mudaram-se para Habsburgo em 1498 e alcançaram alguma prosperidade até 1560, quando faliram devido à crise dos preços de 1557. Antuérpia era outra das cidades mais ativas da Europa desta altura. Era um local beneficiado pela sua situação estratégica e pelo relacionamento político que mantinha com os Países Baixos e com a Espanha. Ali juntavam-se negociantes de toda a Europa, nomeadamente os já citados Fugger e Welser, bem como os hanseáticos do Norte, que ali fixaram uma feitoria em 1555, os feitores do rei de Portugal e da rainha Isabel, a Católica, e comerciantes italianos representados pela firma de Lucca, os Bonvisi, e a sociedade dos Affaitati, que fixaram aqui a sua casa-mãe. Além destes, não nos devemos esquecer da enorme comunidade de mercadores portugueses e espanhóis, composta por inúmeros elementos de origem judaica, cristãos-novos que terão enorme influência, futuramente, no desenvolvimento comercial e financeiro da Holanda. A expansão de Lyon, já anteriormente beneficiada com a criação das feiras por Luís XI, foi instigada pelos italianos presentes nas instituições bancárias e que aqui instalaram as suas casas comerciais, como os Médicis e os Strozzi de Florença e os Bonvisi de Lucca, que instalam a sua casa-mãe nesta cidade. Antuérpia, Lyon e Sevilha são cidades onde se encontra um capitalismo de tipo monopolista, apesar de na última haver a Casa de la Contratación, ao contrário de Lisboa e mais ainda de Londres, onde cresceu o capitalismo nacional, que surgiu com a publicação de decretos em 1485 e 1489 (que inspirarão os célebres Atos de Navegação do século XVII) que concediam o monopólio da importação de vinhos e outras mercadorias à Inglaterra. No entanto, em toda a primeira metade do século XVI o comércio em Londres era dominado pelos estrangeiros, entre os quais se destacavam os Bonvisi e os comerciantes hanseáticos, muito influentes até à centúria de Seiscentos. O desenvolvimento de outras cidades europeias teve a ver com as associações de mercadores medievais, que não são nem cosmopolitas nem nacionais, como o caso da Liga Hanseática, que constituía uma espécie de federação de cidades, onde se destacava Colónia, Dantzig (atual Gdansk, na Polónia) e, sobretudo, Lübbeck. Portugal, através da sua capital cosmopolita, foi um exemplo a seguir por outras cidades. O comércio ultramarino, altamente lucrativo, assente na comercialização de produtos coloniais como as especiarias, foi um fator de desenvolvimento da cidade e do país, que garantiu aos monarcas portugueses grandes lucros, os quais foram repartidos, vantajosamente, por outras cidades intervenientes neste comércio como Antuérpia, e por outras entidades particulares como diversos banqueiros que tiraram partido do desenvolvimento português mediante o empréstimo de capital a investir nas armadas e na manutenção do império português.
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