Os Grão-Capitães

Sequência de contos de Jorge de Sena, foi publicada pela primeira vez em 1971, embora sem os contos Capangala não Responde e Boa Noite.
A sequência de datas fictícias nas portadas dos contos, situando a sua ação entre 1928 e 1961, relaciona-se com a intenção, que o autor expressa no Prefácio de 1974, de compor a «crónica amarga e violenta dessa era de decomposição do mundo ocidental e desse tempo de uma tirania que castrava Portugal».
No mesmo Prefácio, Sena afirma que a experimentação estilística nestes textos tinha sido aplicada a «tornar mais reais que a realidade» «experiências vividas, testemunhadas ou adivinhadas», começando, assim, a traçar as coordenadas do que denominou «realismo quase integral», que, como se torna óbvio nestes contos, não ignora que «a realidade não é só o mundo exterior que vulgarmente se toma por ela», «é também o que imaginamos e sentimos». Deste modo, Sena procura referir e abordar uma dimensão do real que as ordens da aparência (os realismos da aparência) não são capazes de atingir. A primeira citação em epígrafe na obra, retirada de um poema do próprio autor, fala de homens que também são «filhos» e «anjos», embora ninguém os trate como tal, isto é, de homens cuja verdadeira natureza é mutilada, assim como a «virilidade» de Úrano é mutilado por Cronos na segunda citação. Como sugerem as citações em epígrafe, trata-se de revelar os focos do real sob a ordem da aparência, ainda que estes sejam de miséria, cobardia, «virilidade desencontrada», ausência de amor, hipocrisia, tudo aquilo que os regulamentos da aparência procurem escamotear.
O primeiro conto, Homenagem ao Papagaio Verde, contém em germe as isotopias recorrentes ao longo de todo o livro. Trata-se da narrativa dos condicionamentos da existência de uma criança, o narrador, cujo pai é oficial da marinha mercante. Os longos períodos de ausência de casa do seu progenitor, determinados pela profissão, motivam a atmosfera de clausura, soturnidade e repressão que a mãe do narrador, uma senhora «incapaz de apresentar-se de cabeça erguida fosse onde fosse», aí cultiva. Esta atmosfera apenas é quebrada, por um lado, pelas chegadas do pai do narrador, dos seus baús e da imposição dos seus desejos, por outro, pelo colorido físico e verbal do Papagaio Verde do título, animal de estimação trazido do Brasil pelo pai numa das suas viagens, com o qual o narrador diz ter aprendido «os nobres palavrões essenciais à vida», com ele desenvolvendo uma relação cuja riqueza não encontra correspondente em qualquer relação humana, nomeadamente no círculo familiar a que está circunscrito.
Francisco Cota Fagundes, salientando a data fictícia na portada deste conto (1928), assimila a atmosfera opressiva e tirânica do seu universo familiar àquela do Portugal de Salazar. De resto, a figura deste pai inaugura uma galeria de personagens despóticas e insensíveis, geralmente ligadas à estrutura militar, como sejam o capitão do Exército de As Ites e o Regulamento, o tenente de O «Bom Pastor» e o comandante do barco em A Grã-Canária, que, como o título Grão-Capitães indicia desde o princípio, funcionam como pilares monolíticos de uma ordem violentamente arbitrária e aparente.
Por sua vez, o Papagaio Verde inaugura o fluxo de resistência que, ao longo do livro, permeia e mina a imposição artificial de tal ordem, tal como no conto O «Bom Pastor», onde o discurso relatorial do tenente em face do gradual despir da farda de um recruta tuberculoso dispensado da tropa é incapaz de ordenar a desordem da miséria da existência deste último.
Nesta perspetiva, o conto As Ites e o Regulamento é exemplar. A sua ação situa-se em Penafiel, lugar do quartel onde o narrador cumpre o seu serviço militar sob a égide de um capitão cuja «prepotência resultava apenas de recusar-se terminantemente a reconhecer a existência do que o Regulamento não consignasse». A fragilidade e os limites de tal regulamento são expostos através da complexidade da doença que ataca o narrador («Em sequência de uma gripe e de uma naso-faringite, tivera uma procissão de ites ascendentes e amplificadas em gravidade, que me roubavam o equilíbrio e o ouvido»).
A risível mas ordenada simplificação da doença a uma alínea do dito regulamento pelo capitão não altera, evidentemente, a sua realidade complexa, antes tem como contraponto narrativo os seus efeitos físicos delirantes e noturnos sobre um narrador febril totalmente dominado pela realidade incontornável das falhas e desordens do próprio corpo, que o levam de algum modo a sair da dimensão da aparência em que vive quotidianamente para atingir um limiar de virtualidade onde o real parece estar discretamente borbulhando: «Nada tinha importância, nada me doía, o negrume ciciava murmuradamente coisas que eu não entendia, nem via, nem ouvia, mas eram cenas vividas ou imaginadas, que eu não vivera na minha vida.».
Em seguida, no conto Choro de Criança, a própria ordem que o título parece instaurar é estilhaçada pela indeterminação que contamina todo o texto, nomeadamente as suas linhas iniciais: «De uma casa oculta na sombra, ou de trás de um muro, ou da rua mesma onde não havia ninguém, veio um choro de criança. Quase não era um choro, mas um gemido estertorado e lamentoso, lamúria sonolenta e triste, teimosa, uivada, exausta. De criança. Criancinha. Menina? Menino? Aonde?».
Ao longo do conto, vamos ganhando consciência de que o Choro do título se relaciona disseminadamente com os focos de miséria que vão sendo revelados, designadamente aqueles relacionados com o tema da «virilidade desencontrada» lançado pela segunda epígrafe. Na atmosfera noturna com que o conto se inicia, a personagem principal encontra paralelos entre a situação de um prostituto homossexual que não cessa de defender uma imagem masculina convencional que não se lhe adequa e a confissão de impotência sexual de um seu colega, que, exatamente por não encaixar na mesma imagem, acabará por se enforcar.
Estas são, portanto, personagens procurando encaixar num estatuto que lhes é exigido arbitrariamente por convenções sociais simplistas, vendo esse impulso conformista derrotado pela sua incontornável complexidade individual e interpretando esse falhanço como decorrente da sua própria incapacidade. São a «criança» que chora no título, provavelmente por ver ignorada e negada a sua verdadeira natureza, aquela que Sena quer desvelar com o seu «realismo quase integral».
Como referenciar: Os Grão-Capitães in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-04-23 01:49:50]. Disponível na Internet: