Os Últimos Carolíngios

Os sinais do declínio do Império Carolíngio começam a fazer-se sentir bastante cedo, logo durante o reinado de Luís, o Piedoso, que em 829 entrou em guerra com os seus filhos. Influenciado pelos interesses da Igreja e do Papado, Luís pretende manter a unidade do Império, o que leva os seus três filhos - Lotário I, Luís II, o Germânico e Carlos, o Calvo - a rebelarem-se contra ele. Após a sua morte em 840, os herdeiros acabam por encontrar um compromisso e, em 843, dividem, à boa maneira sálica, o Império entre si, segundo a "Partilha de Verdun". Assim, Carlos, o Calvo, torna-se senhor do território da França; Lotário, senhor da Itália, Países Baixos, Alsácia, Lorena e Borgonha; e Luís II, o Germânico, senhor do território da Germânia. Esta divisão do Império em três partes, é seguida por uma outra, em cinco, que surge na sequência da partilha que Lotário faz do seu reino pelos seus três filhos: Lotário II fica com a Lotaríngia (Norte de França e territórios setentrionais); Luís com a Itália; e Carlos com a Provença e a Borgonha.
Estas divisões surgem na continuidade da tradição germânica, também usada por Carlos Magno. Contudo, a Igreja continua a procurar a união, e como forma de manter a dignidade do Sacro Império Romano-Germânico, o Papa João III coroa, em 875, Carlos, o Calvo como sucessor de Carlos Magno. Em 881 é coroado Carlos, o Gordo, como imperador e herdeiro de Carlos, o Calvo. Se por um lado estas coroações são de algum modo aparentes, por outro são pouco duradouras, e em 887 Carlos, o Gordo, afasta-se do poder.
A desagregação do Império consuma-se e por toda a parte as coroas reais vão cair nas mãos de uma aristocracia que procura, por vários meios, adquirir os privilégios régios. Tentam criar principados, onde administram a justiça, edificam castelos, cobram impostos e cunham a moeda. Encontramos Arnulfo na Germânia, Guido em Espoleto, Berengário em Itália, Rodolfo na Bretanha, Boson na Provença, Eudes (antecessor dos Capetos) em França. Na Germânia surgem os principados da Saxónia, da Suábia, da Lorena, da Baviera e da Francónia. A Itália desagrega-se em Friul, Ivreia e Toscania. Na França surgem poderes independentes na Aquitânia, na Gasconha, na Borgonha, na Normandia, e na Flandres. As causas do declínio e de desmembramento são várias: a grande extensão territorial, longe do reinado carismático e estável de Carlos Magno, deixa de ser uma característica de força para se tornar numa causa de fragilidade; sentem-se crescentes dificuldades administrativas com o proliferar de reinos e poderes independentes do imperador e pelo desenvolvimento da nova ordem feudal, situação que se agrava pela inexistência de um quadro organizado de funcionários. Surgem também particularismos étnicos que irão ser causadores de conflitos. A crescente rivalidade entre o clero e a aristocracia laica é outro fator de instabilidade.
É ainda nesta fase que vamos assistir às últimas invasões bárbaras na Europa, criando uma necessidade urgente de fortificar e defender o território. Com o Império em plena desagregação esta tarefa revelar-se-á impossível. Os Eslavos pilham mosteiros e cercam cidades, pondo os monges em fuga e obrigando os príncipes a pagar pesados tributos. Os Normandos vão instalar-se no baixo Sena, mas depressa penetram na Bretanha e no Maine.
De África e Espanha chegam piratas sarracenos, que espalham o terror pelas costas. Roma é pilhada em 846, obrigando o Papa Leão IV a construir uma muralha com o objetivo de proteger o Vaticano.
Vindos da Ásia os Hunos, os Ávares e os Magiares (Húngaros), instalam-se na bacia do Danúbio e fazem incursões na Lorena, na Borgonha e em Itália.
O Império mergulha na desordem, em nada se assemelhando ao Sacro Império dos tempos de expansão territorial, desenvolvimento económico, estabilidade religiosa e excelência cultural da era de Carlos Magno. Numa tentativa de restabelecer a ordem, Otão I consegue ainda reunificar parte do território, sendo coroado imperador pelo Papa João XII.
Apesar da falta de estabilidade e de segurança, a Igreja Romana leva a bom termo o seu plano de evangelização, conseguindo utilizar a desunião do Império como sua aliada, influenciando direta ou indiretamente os diversos reinos, reunindo apoio e proteção contra os invasores e defendendo os seus interesses em toda a Europa Ocidental, reservando-se o privilégio de coroação do imperador, apesar de este ser agora um cargo sem grande conteúdo real ou poder efetivo.
Em 987 morre Luís V, o último monarca da dinastia Carolíngia, e o trono da França é assumido por Hugo, o primeiro monarca da dinastia dos Capetos.
Assiste-se assim ao desaparecimento do Sacro Império Romano-Germânico, e à formação, na Europa, de novos reinos estruturados segundo uma nova ordem política. O feudalismo é instaurado, marcado por uma profunda aliança entre a Igreja - como líder espiritual de toda a Europa, personificada na figura do Papa em Roma - e o poder político detido pelos monarcas dos vários reinos.

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