outro

Em termos antropológicos e étnicos, a questão do "outro" está radicada nas diferenças culturais e na centralização da conceção do Mundo por parte dos povos, que denominam como "outros" todos aqueles que são diferentes: barbaroi ou bárbaros para os gregos, goyim para os judeus, gaijin para os japoneses, feringhî para os indianos, gadgi para os ciganos, entre muitos outros exemplos. Até São Francisco de Assis, a Europa temia o "outro" mundo desconhecido e assustador, cheio de monstros e perigos e foram as palavras do monge de Assis que começaram a transformar o pensamento europeu e abrir os percursos mentais para os caminhos marítimos dos Descobrimentos. Mas a diferença existia também em termos religiosos. Para os cristãos os outros eram os ateus, aqueles que não tinham nenhuma religião, para os católicos os outros eram os hereges, aqueles que, como os muçulmanos, judeus e cristãos ortodoxos e protestantes, tinham uma outra fé. A diferença pautou-se no Renascimento pelos antigos e pelos modernos e com o Iluminismo surgiu a questão da raça e da língua, que na Revolução Francesa se concretizou nas ideologias da nacionalidade.
O desconhecido era objeto tanto de atração como de repulsão, os nativos tanto eram o "bom selvagem" como monstros e canibais e o romantismo em épocas de bonança coexistiu com o ódio em tempos de crise, levando ao sacrifício e extermínio de povos apenas pela sua diferença, como foi o caso dos judeus ou arménios na Europa e na Ásia, dos índios na América ou dos escravos africanos. A diversidade incitava ao romantismo da aventura, da descoberta e ao domínio do mais "forte" em que a visão eurocêntrica imperava. Com os movimentos de descolonização assistiu-se a uma descentralização do domínio em termos de identidade e à criação de conceitos etnocêntricos diversos, para além da visão ocidental.
Os filósofos dividem-se sobre a identidade do "eu" e do "outro", sobre a questão da sua diferença estar na sua essência ou na sua existência. Alguns, como Hegel e Sartre, abordam a questão entre o ser e o nada, Schopenhauer refere-se ao desejo e à representação enquanto que para Heidegger a questão está no ser e no tempo. O Um e o Outro assumem especial importância com a psicanálise e o estudo do inconsciente como o "outro" desconhecido por oposição ao "ego" conhecido dentro de cada ser humano. Segundo Michel Foucault, a análise de uma sociedade pode ser feita através dos seus "outros", tal como o autor o fez da sociedade francesa ao estudar os seus desviados. Da mesma forma, Edward Said reuniu em Orientalism uma análise sobre os textos escritos sobre o Oriente pelos orientalistas ocidentais para definir a mentalidade. Jacques Derrida analisou a questão em termos de identidade e diferença, sendo esta última expressa no plural, ou seja, nas muitas diferenças culturais, étnicas, linguísticas, religiosas, metafísicas, entre outras, que estão na base da divisão do Mundo.

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