Padre Manuel da Nóbrega

Padre português, Manuel da Nóbrega nasceu no Norte de Portugal, não muito longe do rio Douro, tanto quanto se sabe, apontando muitos historiadores a povoação de Sanfins do Douro, não longe do Porto, como a terra que o viu nascer a 18 de outubro de 1517, o mesmo dia e mês em que, coincidentemente, viria a falecer em 1570, no Rio de Janeiro.

Mais importante que o local de nascimento foi a sua vida intensa dedicada ao sacerdócio, à Companhia de Jesus e à evangelização das Terras de Santa Cruz, onde foi um dos pioneiros da abertura ao Ocidente.
Estudou Cânones em Salamanca e depois em Coimbra (em 1541). Nesta mesma cidade do Mondego entrou para a Companhia de Jesus, a 21 de novembro de 1544, quatro anos depois da Ordem, fundada por Santo Inácio de Loyola (em 1534) ter sido aprovada pelo papa, a quem os jesuítas faziam voto de servir como uma autêntica milícia cujas armas eram o Evangelho e a Palavra.

Depois de estudar e se ordenar sacerdote, encabeçou a primeira missão jesuítica ao Brasil, que zarpou de Lisboa em 1 de fevereiro de 1549 e chegou à Baía em 29 de março, integrado na armada de Tomé de Sousa, de quem foi amigo e conselheiro. Foi-o também de Mem de Sá, outro governador do Brasil, a quem ajudou na expulsão dos franceses da baía de Guanabara em 1560 (sediados no forte Coligny, no Rio de Janeiro), aliados que estavam estes aos índios Tamoios, que instigaram contra os portugueses.

Na ajuda e conselhos que a ambos deu pode-se aferir que Manuel da Nóbrega foi um dos obreiros do primeiro esforço colonizador e explorador daquelas terras do Atlântico Sul, que muito bem conhecia. Antes, porém, de rumar para o Brasil fez ainda uma peregrinação a Santiago de Compostela.

A sua ação apostólica irradiou a partir da igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Salvador da Baía, levantada pelos jesuítas em abril e maio de 1549, mal tinham ainda chegado ao Brasil. A cidade de Salvador teve na sua fundação a mão do Pe. Manuel da Nóbrega, que ajudou também a fundar o Rio de Janeiro e apoiou, como se viu, a luta dos portugueses para expulsar os franceses do litoral brasileiro.

Aliás, foi graças aos seus conselhos e incitações que os portugueses não se remeteram apenas ao litoral, principalmente naquilo que hoje constitui o Estado de S. Paulo, convencendo-os a transpor a Serra do Mar e a penetrar no sertão paulista. Dele partiu até o exemplo, pois foi o primeiro a vencer aquelas montanhas e a embrenhar-se pelo vale do rio Piratininga, em cujas margens fundou um povoado que é hoje a maior cidade do Hemisfério Sul: S. Paulo.

A fundação do aldeamento - primeiro com o nome do citado rio - ocorreu em 29 de agosto de 1553. Em 25 de janeiro de 1554, transferiu para lá o colégio de S. Vicente (vindo da cidade com o mesmo nome, no litoral paulista), dando-se então a fundação efetiva de S. Paulo. Mas a sua ação missionária e exploratória não se remeteu àquela região, contemplando todo o litoral entre S. Vicente e Pernambuco, região a norte da Baía, sempre em articulação com o poder político, que nunca descurou os conselhos do jesuíta português. Entre os seus auxiliares, destacou-se um outro grande jesuíta da evangelização do Brasil, o Pe. José de Anchieta.

O sucesso dos jesuítas foi notável, logo conseguindo grandes frutos do labor apostólico a que se votaram desde a chegada, o que se pode avaliar pela nomeação do Pe. Manuel da Nóbrega, em 9 de julho de 1553, para superior maior (ou provincial) da Companhia de Jesus no Brasil e em outras regiões "mais além".

O seu sucesso não se ficou apenas na evangelização e missionação, na exploração ou como conselheiro, mas também na suas obras escritas. Entre outras, escreveu Diálogos sobre a conversão do gentio, primeiro texto em prosa da literatura brasileira, datado de 1557, Cartas do Brasil (1549-1570), um interessante Tratado contra a Antropofagia e contra os Cristãos Seculares e Eclesiásticos que a Fomentam e a Consentem (1559), e Caso de Consciência para a Liberdade dos Índios (1567), obra inspiradora de tantas outras que surgiriam em defesa do índio no Brasil e seria uma das bandeiras dos jesuítas na América do Sul, luta em que se destacou outro português, Pe. António Vieira, também sacerdote da Companhia. O Pe. Manuel da Nóbrega também é celebrado como grande defensor e protetor dos índios.

Entretanto, ainda em 1558 escreveu Informação das coisas da terra e necessidade que há para se proceder nela, autêntico alfobre de indicações preciosíssimas sobre o Brasil por desbravar.

Quando faleceu, no dia do seu aniversário, em 1570, o Brasil contava já com uma província jesuítica estabelecida, ativa e promissora, com uma rede de colégios, residências e um plano de missões apurado e contínuo por todas as terras colonizadas ou em fase de exploração, para o que muito os seus padres contribuíram.

Todo este esforço se deve, sem dúvida, ao Pe. Manuel da Nóbrega, figura ímpar nos alvores do Brasil, desdobrada em múltiplas e frutuosas atividades e correndo todo o território, empresa ainda hoje difícil, quanto mais naquele longínquo século XVI.
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