paleontologia

Perspetiva histórica
A Paleontologia é a ciência que estuda os seres vivos antigos, isto é, os animais e plantas que viveram em épocas passadas da História da Terra e que hoje se encontram na forma fóssil. É uma ciência em que a Biologia e a Geologia se interrelacionam, já que, sendo essencialmente uma ciência biológica, necessita do auxilio da Geologia e constitui-se como um elemento fundamental dos estudos geológicos, especialmente da Geologia Histórica.
Desde os tempos da Antiguidade Clássica que vários sábios se interrogaram e interessaram acerca da natureza dos fósseis. Desde Pitágoras (séc. VI a. C.), Xantos de Sardes, Heródoto (séc. V a. C.), Aristóteles e Teofrastos (séc. IV a. C.), todos da Grécia, passando Lucrécio, Ovidio, Plínio o Antigo, estes em Roma, a Roger Bacon, Boccacio e Alberto de Saxe, estes já na Idade Média, e no Renascimento, Bernard Palissy e Leonardo da Vinci, vários foram os homens de grande saber que procuraram conhecer a origem dos fósseis. Mas só em finais do século XVIII é que se terá consciência da sucessão de seres distribuídos por várias épocas ao longo dos tempos antigos, ou da diferença de faunas segundo a antiguidade das camadas estratigráficas sedimentares (paleontologia estratigráfica). Estas noções começaram a ser estudadas por William Smith em Inglaterra e Brocchi em Itália, além de Alexandre Brongniart em França. Antes, todavia, Buffon tinha já defendido o princípio da evolução dos seres vivos, explicando assim as suas diferenças e a sua continuidade ao longo das eras geológicas.
Mas cientistas houve que duvidaram desta teoria evolucionista de Buffon, como Cuvier (1769-1832) o fundador da anatomia comparada dos fósseis vertebrados, explicando a renovação das espécies faunísticas através de cataclismos, aquilo a que chamou as "revoluções do globo". Lamarck (1744-1829) e Saint-Hilaire (1772-1844) defenderam também o princípio da evolução das espécies, que só com Charles Darwin (1809-1882), na Origem das Espécies pela Via da Seleção Natural (1859), conseguiria o devido reconhecimento científico.
Desde então, a paleontologia tem-se tornado cada vez mais numa ciência biológica, estudando não apenas a sistemática dos fósseis como também a sua ecologia a sua repartição espácio-temporal, enfim, a sua evolução.
Divisões da Paleontologia
Esta disciplina científica pode dividir-se em Paleozoologia ou Zoopaleontologia, que estuda os fósseis animais, e Fitopaleontologia, que estuda os fósseis vegetais. Podem ainda considerar-se como divisões da Paleontologia a Paleontologia Humana e a Micropaleontologia, que estuda os fósseis microscópicos, sobretudo os protozoários e especialmente os foraminíferos. A Micropaleontologia adquiriu recentemente um grande desenvolvimento como auxiliar da Geologia do Petróleo, permitindo estudar a idade das formações atravessadas pelas sondagens de prospeção de petróleo.
A Palinologia estuda os grãos de pólen e os esporos fósseis, principalmente nos jazigos carboníferos e nas turfeiras terciárias e quaternárias. Neste último caso, os estudos palinológicos são de grande utilidade para determinar as alterações climáticas ocorridas nos períodos glaciários e interglaciários.
A paleontologia compreende atualmente quatro grandes divisões: a paleontologia vegetal (ou paleobotânica), a paleontologia animal (ou paleozoologia), a micropaleontologia (estudo de microfósseis ou microvestígios) e a paleontologia humana. A paleoecologia (ciência que estuda o modo de vida dos seres vivos que desapareceram até aos nossos dias e as relações que tinham com o seu meio envolvente), a paleoclimatologia (estudo dos climas antigos) e a paleobiogeografia (ramo da paleontologia que estuda a repartição geográfica dos seres vivos fora das diferentes épocas geológicas) são algumas das principais disciplinas especializadas da paleontologia.
Paleontologia animal. Sabe-se que a Terra existe já há vários biliões de anos, e que durante muito tempo as únicas formas de vida existentes eram simples algas azuis e bactérias primitivas. Os vestígios mais antigos de vida animal apareceram apenas no fim do Proterozoico, há cerca de 650 milhões de anos, sob a forma de invertebrados. Os primeiros vertebrados surgiram apenas no Câmbrico Superior, na forma de peixes sem mandíbulas. No Silúrico, alguns artrópodes abandonaram o meio marinho para povoar os continentes. No Devoniano, a eles se juntaram os peixes com pulmões, os dipneustas, e depois os primeiros anfíbios. Entre os invertebrados, os trilobitas, os braquiópodes e os goniatitas têm um papel significativo no contexto da estratigrafia. Os répteis apareceram no Carbonífero, tendo sido os primeiros vertebrados adaptados à vida fora dos meios aquáticos. É também então o tempo dos insetos gigantes. O Paleozoico terminou no fim do Permiano. Os tempos secundários (ou Mesozoico) foram marcados pelo desenvolvimento dos amonitas, répteis marinhos. Em terra, os répteis evoluíram também e atingiram formas gigantes. Aparecem então os primeiros mamíferos, no Triásico, e os primeiros pássaros no Jurássico. No final do Cretáceo, os amonitas desapareceram dos oceanos, e os sáurios (dinossauros ou dinossáurios) dos continentes. O Terciário foi a era do desenvolvimento dos mamíferos e da evolução das faunas de tipo atual. O Homem, entretanto, apareceu no princípio do Quaternário.
Paleontologia humana. O homem atual, como todos os seres vivos, é o resultado de uma longa evolução como espécie, possuindo uma origem comum com os grandes símios atuais.
Os grandes símios fósseis registaram um período de grande diversificação a partir de há cerca de 15 milhões de anos. Foi ao longo deste período que se individualizou o ramo humano, aquilo que é conhecido como a família dos hominídeos, talvez a partir de há aproximadamente 10 milhões de anos, já no final do Mioceno. Então, já as características humanoides (encurtamento da face, diminuição do tamanho dos caninos, etc.) começaram a aparecer em alguns tipos de grandes primatas, sem que se possa afirmar qual deles é o primeiro antepassado da espécie humana. Os australopitecos, que surgem na África Austral há pelo menos 4 milhões de anos, no fim do Plioceno, constituem os primeiros hominídeos conhecidos. Já com locomoção bípede (parcialmente), mas ainda com uma capacidade craniana reduzida (cerca de 450-500 cm3), subdividiram-se rapidamente em dois grupos: o robustus e o grácil, embora alguns paleontólogos tenham defendido a possibilidade se tratar de machos e fêmeas. Destas formas australopitecídeas terá derivado o género homo, o homo habilis, de maior capacidade craniana e destreza nos membros superiores (habilidade), aparecendo há cerca de dois milhões de anos. Depois apareceu o Homo erectus (pitecantropo-sinantropo), já perfeitamente bipédico (posição ereta), cujo vestígio mais antigo tem cerca de 1, 5 milhões de anos, tendo-se difundido rapidamente na Europa e a Ásia, até ao Extremo Oriente (javantropo). Este homo evoluirá ao longo de 1 milhão de anos, aumentando a sua capacidade craniana (de 750 para 1250 cm3, em média) e diversificando, com a devida complexização e aperfeiçoamento técnico, as suas indústrias líticas. Assim, há aproximadamente 400 000 anos apareciam os primeiros grupos de homo sapiens.
A sua origem geográfica permanece desconhecida, embora se aponte a África e a Ásia como hipóteses mais credíveis. Contudo, a sua ramificação processar-se-á de forma rápida, originando várias subespécies em várias regiões do Velho Mundo, como o Homo sapiens Neandertalensis (o célebre e injustamente mal afamado Homem de Neandertal), que permaneceu na Europa até há cerca de 35 000 anos (ou talvez menos, como provavelmente indica a datação da criança mestiça de Lapedo, Portugal), ou o Homo Sapiens Sapiens, que se terá cruzado e hibridizado com o sapiens anterior (ver o menino de Lapedo) e surgido em várias adaptações regionais, tendo mesmo colonizado o continente americano na última glaciação (há cerca de 40 000 anos, atravessando o estreito de Behring) e também a Austrália. O sapiens sapiens está na origem do homem atual, já que o Neandertalensis se extinguiu.
Esta última espécie foi a que teve a maior capacidade cerebral (c. 1750 cm3, contra c. 1500 do sapiens sapiens), um dos melhores indicadores da evolução biológica humana, paralelamente a uma remodelação progressiva da configuração do crânio e da diminuição do peso da estrutura óssea.
Paleontologia vegetal (ou paleobotânica). Ramo da história natural que estuda as espécies vegetais conservadas pelos diferentes tipos de fossilização. Foi iniciada em França por A. Brongniart (na sua obra Prodrome d´ une histoire dês végétaux fossiles, 1828). Os procedimentos de investigação da paleobotânica variam de acordo com o tipo de fossilização. Esta ciência tem contribuído imenso para o progresso do estudo e classificação das camadas sedimentares, elementos essenciais para o desenvolvimento de outros ramos da paleontologia e das ciências pré-históricas.
Micropaleontologia. Conjunto de disciplinas comuns à paleontologia e à biologia (como a bacteriologia, a virologia, a micologia ou a protistologia) que se ocupam dos vestígios fossilizados de organismos microscópicos e ultramicroscópicos de eras anteriores.
A paleontologia tem também em Portugal um cenário bastante prometedor, se se tiver em conta as descobertas da arqueologia nos últimos anos, desde fósseis vegetais e animais de há mais 100 milhões de anos até aos vestígios de espécies humanas do Paleolítico no território nacional.
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