Parvo

Um dos passageiros que chegam ao Além para aguardar viagem numa das barcas, a da Glória ou a do Inferno, que aí os aguardam, o parvo Joane é, no Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, um dos agentes do cómico de linguagem, distinguindo-se por uma linguagem desbragada. Dentro do elenco de tipos sociais que desfilam neste auto, o parvo é a única personagem que tem a ousadia de injuriar o Diabo e a única condenada a aguardar, no cais, vez para entrar no Paraíso, onde, segundo o Anjo, seguramente terá lugar, já que "em todos [seus] fazeres, / per malícia não [errou]". Pela "simpreza" que o isenta de pecado, o Parvo exprime, segundo Óscar Lopes, a "candura dos pobres de espírito na sua agressividade instintiva e injuriosa contra o Diabo e os pecadores orgulhosos" (cf. Lopes, Óscar - "O Sem-Sentido em Gil Vicente" in Ler e Depois, 3.ª ed., Porto, Ed. Iniva, 1970, pp. 79-80) e aproxima-se de outras personagens da galeria vicentina que possuem a funcionalidade dramática de representar a inocência oposta ao poder, à maldade, à hipocrisia, como crianças, lavradores ou pastores. A essa funcionalidade acresce ainda, na Tragicomédia da Serra da Estrela, a expressão da evidência do desconcerto do mundo ou no Auto do Velho da Horta, mercê de uma inversão de papéis, a de voz da razão, ao, sob o risco de ser açoutado, tentar demover o velho apaixonado da sua conduta insana.
Como referenciar: Parvo in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-08-24 21:04:32]. Disponível na Internet: