Paz Romana

Este termo enquadra-se historicamente nos dois primeiros séculos do Império Romano, instaurado em 27 a. C. por Augusto César. Neste período, a população romana viveu protegida do seu maior receio: as invasões dos bárbaros que viviam junto às fronteiras, o limes. Pax romana era uma expressão já usada na época, possuindo um sentido de segurança, ordem e progresso para todos os povos dominados por Roma. Tem maior expressão nas dinastias imperiais dos Flávios (68-96) e dos Antoninos (96-192). Plínio, o Antigo, realçava já a "imensa majestade da paz romana (...), essa dádiva dos deuses que parece ter trazido os Romanos ao mundo (...) para o iluminar".
De facto, a aventura conquistadora dos Romanos nasce com o fim das Guerras Púnicas (264-146 a. C.), eliminado que estava o maior inimigo e potencial entrave para o domínio romano em torno do Mediterrâneo. As conquistas sucedem-se, da Península Ibérica à Grécia. Entre 58 e 51 a. C., a Gália é submetida por Júlio César, que submete também a Germânia renana. À data da sua morte (44 a. C.), Roma domina quase toda a bacia mediterrânica, que foi completamente conquistada até ao século II d. C., o mesmo acontecendo à Bretanha (Inglaterra), no tempo de Cláudio, em 71, e às regiões danubianas - Récia, Panónia, Dácia, Nórica... -, principalmente na época de Trajano, que chega mesmo à Mesopotâmia. Assim, Roma passa a dominar um vasto império, desde a fronteira da atual Escócia até ao Médio Oriente e do Danúbio ao Egito e a Marrocos.
Os povos, línguas e costumes eram díspares, as tensões, focos de revolta e ameaças germânicas no limes eram frequentes. Tornava-se necessário, para além de romanizar, estabelecer e manter condições de tranquilidade e paz, para além de segurança e ordem pública. Para isso, o Império servir-se-ia do exército, cada vez mais profissional e formado a partir de recrutamentos um pouco por todo o território, regido por códigos e normas extremamente rígidos e dotado de uma organização, armamento e disciplina tática nunca antes vistos, resultantes das influências dos povos submetidos (como os Macedónios e os Cartagineses). A instituição militar vê-se assim orientada para vários objetivos: para além da defesa fronteiriça - 9000 km de limes - contra incursões e pilhagens dos bárbaros, da fortificação de pontos estratégicos, construção de vias e segurança pessoal das mais altas magistraturas imperiais, a manutenção da paz e da estabilidade no mundo romano cabiam-lhe como tarefa primordial e de grande importância em termos civilizacionais. Para além de transmitir elementos da cultura, religião e língua romana às regiões onde se fixavam as guarnições militares, bem como a criação de condições favoráveis para o desenvolvimento das economias locais, a sua presença impunha o respeito e a aceitação incondicional da soberania de Roma: a Paz Romana.
Era uma paz armada e atingível apenas pela presença dos legionários. Todavia, essa era a única forma de assegurar uma harmonia mínima e a articulação entre o poder imperial e as vastas regiões a governar, servindo de instrumento de apoio à execução de medidas de carácter administrativo, fiscal e judicial. O apoio e estímulo à colonização latina do Império deve-se também, em grande parte, à presença militar romana, procurando construir-se as quintas, villae ou povoações junto aos aquartelamentos ou próximo de vias militares. As legiões eram assim a garantia de uma conjuntura necessária para o desenvolvimento material e a difusão da civilização romana.
Um bom exemplo de manutenção da pax romana é a prisão e condenação à morte da figura histórica de Jesus Cristo, que, arrastando consigo multidões e auto-intitulando-se Rei dos Judeus, punha em perigo a paz e a estabilidade pretendidas por Roma na região, constituindo uma ameaça pública.
Bem treinado e equipado, o exército romano era composto por um conjunto de legiões - cerca de 50 no tempo de Augusto, que depois as reduz para metade -, cada qual com cerca de 6000 homens, que eram colocadas estrategicamente nas regiões onde mais se impunha a sua presença. Assim, o Império protegia e governava as províncias, permitindo que cada uma elaborasse e administrasse as suas leis e estatutos, à luz do direito romano e aprovadas pelo imperador, tendo em contrapartida de aceitar a fiscalidade romana e o seu controlo militar. As províncias da Península Ibérica, por exemplo, dependiam da VII Legião, sediada em Leão, extremamete ativa e reforçada em virtude dos vários focos de insubmissão existentes, particularmente na Lusitânia e nas Vascongadas (Países Bascos).
A Paz Romana foi um dos pilares da civilização romana e da sua difusão e implantação no mundo antigo, responsável pela ordem, tranquilidade, cumprimento da lei e, acima de tudo, da obediência e culto ao imperador.
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