Pelagianismo

Pelágio foi um monge de origem bretã (Ilhas Britânicas, c. 350-54 - Palestina c. 425), de que pouco se sabe, mas deixou um legado doutrinário à Igreja que desde logo incendiou ânimos e causou controvérsias, nunca mais tendo desaparecido do seio da mesma. Pelágio foi para Roma, cerca de 400, tendo aí iniciado a escrita da sua primeira obra teológica (um comentário às 13 epístolas de S. Paulo, a par de uma exortação a uma jovem patrícia romana chamada Demétria), sendo ele nesta matéria um autodidata. O seu poder de persuasão logo se manifestou, atraindo um grupo de intelectuais que em torno de si passaram a gravitar, entre os quais Celéstio, monge e jurista, autor de um trabalho sobre o pecado original (Contra traducem Peccati). A obra de Celéstio anuncia já a propagação da doutrina pelagiana e a existência de um movimento teológico.
Com efeito, Pelágio considerava o homem capaz de levar uma vida sem pecado graças à força moral a ele dada por Deus, apesar do estado de corrupção e impureza conferido pelo pecado original de Adão e Eva. Como dizia S. Agostinho, um dos teólogos com quem o monge bretão teve acesa diatribe, toda a humanidade estava agrilhoada ao pecado original e impossibilitada de não pecar. Pelágio dizia que a queda, a falha, de Adão apenas afetara... Adão! Logo se Deus quer que as pessoas vivam vidas moralmente perfeitas, não deixará também, referia Pelágio, de as dotar de capacidade, autossuficiência a nível moral para que possam atingir tal perfeição. A graça divina, tão cara aos teólogos agostinianos, era assim prescindível para a salvação do indivíduo, tal como o batismo, apenas necessário como meio de remissão dos pecados dos adultos. Neste sentido, Pelágio criticava também o exercício do sacramento do batismo a crianças em tenra idade, fora da "idade da razão", incapazes ainda de pecar. O batismo perdia assim o seu significado, enquanto forma de purificar o homem de um pecado que, defendia Pelágio, apenas caíra sobre Adão e Eva.
Os seguidores de Pelágio e da sua doutrina facilmente chocaram com a ortodoxia da Igreja Romana e com a sensibilidade teológica da época, largamente estribada em S. Agostinho. A polémica entre S. Agostinho e os Pelagianos foi um dos mais apaixonantes debates da Patrística do século V, levando muitos pensadores a caírem facilmente em posições heterodoxas ou extremas no que toca à teoria da graça divina e do livre arbítrio. Celéstio e Juliano de Eclano foram os que mais radicalizaram a doutrina e a herança de Pelágio, reforçando ainda mais a tendência herética do movimento aos olhos da Igreja. Na essência, os sucessores de Pelágio mitigaram ao máximo os efeitos nocivos do pecado original para a humanidade, pois consideravam que a vontade humana é perfeitamente livre, dependendo apenas de si para evitar o pecado, acentuando assim a separação entre o livre arbítrio e a graça. Acreditavam assim que a infinita justiça e bondade de Deus não impunham nada que fosse para além das capacidades humanas, não ajudando a uns mais que a outros. Fazer boas obras segundo o exemplo de Jesus era a chave da Salvação para o Pelagianismo.
Este movimento teológico conheceu a condenação em 417, em plena controvérsia pelagianista (415-418). De facto, perante Pelágio, deu-se a negação das teses pelagianistas por parte do papa Inocêncio I (seguido mais tarde por Zózimo), ex cathedra, impondo o fim do movimento, o que não chegou a acontecer. A partir daí, o pano do silêncio da História caiu sobre Pelágio, mas não sobre o Pelagianismo, que agitaria a teologia cristã até princípios do século VI. Até 431, o Pelagianismo lutou para fazer vingar as suas teses, principalmente contra S. Agostinho de Hipona, mas o concílio de Éfeso, reunido naquele ano, cerceou-lhe a difusão e afastou-o da Grécia, onde estava a ganhar força, além de lhe ter reduzido a sua força teológica. Com o papa Gelásio I (492-496), perdeu o fulgor que conseguira ter, principalmente no Norte de África e na Palestina, não tendo deixado os escritos pelagianos de ser exumados das bibliotecas antigas e servido doutrinalmente, como se viu, para heresias a ulteriori.
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