Peregrinações Cristãs: as Ameaças

Na terra o homem é um perpétuo peregrino. Este é o ensinamento da Igreja. Cristo disse: "Deixa tudo e segue-me". Muitos homens na Idade Média não tinham nada, ou quase nada. Facilmente se punham a caminho. Os peregrinos pobres levavam pouca bagagem, que cabia num alforge. Os menos pobres levavam algumas moedas na bolsa e os mais ricos levavam um pequeno cofre com alguns objetos valiosos. Quando os viajantes e os peregrinos passaram a ir carregados de bagagens, já fraquejava o espírito de cruzada e estava em declínio o gosto de viajar. A partir do século XIV, os viajante eram vistos, em certos casos, como vagabundos malditos. Era o resultado das perturbações do tempo, das pestes, dos bandos de salteadores, do medo. Mas antes deste cansaço, deste medo, desta perturbação e desconfiança para com todo aquele que não era da terra, toda a Idade Média era muito itinerante.
O instrumento destes viajantes da devoção, que se tornou o seu símbolo, era o bastão em que se apoiavam, curvados, o eremita e o peregrino, mas também o mendigo e o doente.
Desde cedo que a peregrinação se mostrou não apenas como um ato de vontade, mas também como um ato de penitência. Nestes casos, ela era tida como uma punição pelos pecados cometidos e não como uma recompensa. A realidade da peregrinação, sem falar dos casos de cruzados que morriam de fome pelo caminho ou que eram mortos pelos Muçulmanos, era frequentemente a história de pobres homens como nos são descritos de forma pungente na Lenda Dourada, de Jacques de Voragine. Aqui se conta, por exemplo, a história de um francês que em 1100 ia a caminho de Santiago de Compostela com a mulher e os filhos. Pelo caminho o peregrino ficou sem a mulher, sem o dinheiro e sem a jumenta onde transportava os filhos. Mas foi socorrido por um homem que lhe deu um burro. Ao chegar a Compostela, este viu o santo, que lhe perguntou se não o reconhecia e lhe disse. "Eu sou o apóstolo Tiago. Fui eu que te dei o burro para que cá chegasses e que to darei novamente para que possas voltar". Contudo, a maioria dos peregrinos não tinha esta sorte, tendo de passar por muitas provações e obstáculos como o mau estado das estradas. Os peões e cavaleiros, que se faziam transportar no lombo de bestas ou em carroças, evitavam com grande frequência as estradas romanas, quando elas subsistiam. É que os Romanos haviam feito estradas para soldados e para funcionários, para a comunicação eficaz de um mundo urbano e seguro e, enganadoramente, perene. Na Idade Média, os centros eram outros: o campo tomara o lugar da urbe; o caminho importava mais do que a estrada. O povo abria caminhos, rústicos é certo, mas essenciais para o seu dia a dia. Mas esses caminhos, que levavam ao campo, que levavam à missa, por onde se ia à água, que conduziam ao povoado mais próximo, podiam ser armadilhas mortais para quem era de fora e os não conhecia. É que já não bastava serem difíceis e estarem normalmente em mau estado, quase no limite do transitável, os caminhos estavam também semeados de perigos: o pior deles, o mais temido era a emboscada, perpetrada pelo salteador, o "teedor de caminhos" da Idade Média portuguesa tão temido quanto perseguido, objeto de temor e inspirador de um rico folclore em toda a Europa medieva. Em grupo ou isolado, o assaltante era, habitualmente, violento e rapace. A farta vegetação, o descuido com a manutenção dos caminhos, proporcionava-lhe um esconderijo perfeito. A surpresa do ataque inibia a reação; cansado da jornada e mesmo quando em grupo (que nunca era muito numeroso), o peregrino dificilmente poderia reagir eficazmente. A desagregação dos poderes, a pouca eficácia e a morosidade da justiça possibilitavam, nalguns casos, o alargamento da carreira do truão que terminava quase sempre da mesma maneira: com o seu enforcamento, saudado ruidosa e alegremente pelas gentes cujas vizinhanças tinha atormentado. Entretanto, quantos assaltos, quantos peregrinos roubados e maltratados, deixados na beira da estrada, à mercê das feras e da inclemência dos elementos!
A via marítima era mais rápida, mas trazia mais perigos (as tempestades, os ventos contrários e os ataques de piratas).
A floresta, os caminhos e o mar, para o homem medieval, revestiam-se de um sentido simbólico que os tocava mais do que os seus aspetos reais ou pelos seus verdadeiros perigos. "A floresta é as trevas (...); o mar é o mundo com as suas tentações; e os caminhos são a busca e a peregrinação" (Jacques le Goff).
Mas, com a peregrinação, o homem medievo procura mais. Procura a redenção. Mete-se ao caminho, ao desconhecido, afronta todas as dificuldades, todos os perigos. Desafia a morte. Atravessa a Europa inteira por devoção. Vai a Santiago redimir-se junto do Apóstolo, passa por Santa Maria de Rocamadour (do Reclamador, como se dizia no Portugal da Idade Média), dirige-se aos túmulos dos mártires em Roma, acorre aos lugares sagrados da Palestina. Mas não precisa de ir tão longe. Por todo o lado, em todos os reinos, em todas as regiões há lugares devotos, lugares que atraem crentes. É só sair da estrada que leva a um dos grandes santuários, fazer um pequeno desvio e visitar esses lugares. Esses lugares de devoção que, ao fim e ao cabo, são subsidiários dos grandes centros de peregrinação (como o de Nossa Senhora da Lapa, no Douro, no termo de um ramal que saía do caminho grande que conduzia a Santiago); aí também se festeja a santidade de alguém que teve vida exemplar, também se espera que esse ambiente de fervor, de misticismo, de exacerbação de fé tenha retorno, de acordo com as pretensões de quem lá vai. Se isso não acontecer, o desânimo dura pouco. Que fazer senão prosseguir, correr em direção a outro santuário, a outra catedral, a outra pequena ermida encravada num monte e sempre em romaria, à espera do milagre que há de acontecer, no fim de uma vida de eterno peregrinar?
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