Poesia de Miguel Torga

A poesia de Miguel Torga, escritor português nascido no iníco do século XX, apresenta três grandes linhas de rumo: um "desespero humanista", uma problemática religiosa e um sentimento telúrico. A revolta e o inconformismo são, frequentemente, tradutores desse desespero humanista que resulta de um desespero religioso mais profundo e que o coloca em permanente conflito entre o divino e o terreno. Daí, também, uma inspiração genesíaca a percorrer muitos dos seus poemas, pois para Torga a terra é o lugar da realização do ser humano e da sua ligação ao sagrado. Na terra fértil, a fecundação permite a vida do homem que se reproduz na busca de novas vidas.
Nota-se, ainda, o "drama da criação poética", que não se pode dissociar do seu estado de espírito em busca da liberdade, da ordem cósmica, do caminho da vida humana.
Para Torga, o Homem deve ser capaz de realizar-se no mundo. Deve unir-se à terra, ser-lhe fiel, para que a vida tenha sentido e o próprio sagrado se exprima. A terra é o lugar concreto e natural do Homem. Na terra, a vida acontece e aí se deve cumprir. Nela acontece a origem da vida e dos tempos. Trás-os-Montes, com o seu Reino Maravilhoso, com essa bravia erva, chamada torga, surge na obra de Adolfo Rocha (nome verdadeiro de Miguel Torga) como a terra de Deus e dos deuses. Na sua terra natal, encontrou a ternura e o sofrimento, o povo concreto com as suas alegrias e as suas tristezas, a sua tranquilidade e o seu esforço.
Verdadeiramente humanista, problematiza a criação, as limitações humanas e o ser-para-a-morte, que o existencialismo do século XX desenvolveu. Com frequência, observamos que o desespero dá lugar à esperança. A ação do homem e a sua realização na terra na busca de novas possibilidades abre-lhe o caminho dessa esperança.
O Negrilho é uma árvore de grande porte que dá madeira escura, também designada por olmo ou ulmeiro.
No poema, o "A um Negrilho" surge descrito como uma árvore imponente ("gigante"), antiga (nela o "tempo" faz "ninho"), de copa abundante ("bosque suspenso") em cuja ramagem se refletem a "luz do sol" e a luminosidade noturna. Ao mesmo tempo, é um espaço protetor, a que se acolhem o "eu", "os pássaros e o tempo", que assume quase o estatuto de ser humano, dotado quer de atributos físicos - a voz ("conversamos") e os "olhos" -, quer de traços psicológicos, pois é definido como sábio ("revela o mundo visitad") e sonhador. Para além disso, o negrilho é o único poeta da terra natal do "eu".
No seu relacionamento com o "Negrilho", o sujeito poético identifica-se com ele (origem dos seus próprios versos e "mestre") considera-o essencial para a sua aprendizagem ("conversamos", "revela", decifra-lhe o "mundo") e admira-o dado que ele simboliza a harmonia da natureza.
Pode-se, a partir deste poema, identificar um conceito de poesia que apresenta como traços essenciais a valorização da sabedoria da terra, a simplicidade poética, inspirada na natureza, o ideal de harmonia e de serenidade. Mas podemos ainda destacar o valor da poesia como ordenadora mágica do Universo e como expressão do sonho humano de elevação ("gigante a sonhar") e de integração na ordem cósmica.
A poesia de Miguel Torga está ligada ao canto da terra dura e bravia (que, aliás, se associa, na biografia do autor, a Trás-os-Montes) e dos seus valores de integridade, sobriedade e grandeza. Este poema remete para veios temáticos importantes no universo poético de Miguel Torga, como o canto das coisas elementares; a simplicidade poética, inspirada na natureza; o sentimento telúrico; o forte apego à terra; a apologia da terra firme e das raízes que nela se cravam; valorização da realidade rural, terrena; valorização da sabedoria da terra.
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