Povoamento e Divisão Administrativa (sécs. IV a VI)

O século IV trouxe consigo uma aparente prosperidade, com a renovação de grandes casas senhoriais, um florescimento do mundo rural e, ao contrário do que inicialmente se pensava, um florescimento urbano. As cidades mantêm um forte ritmo monetário, uma atividade comercial relativa, bem como um melhoramento nas estruturas habitacionais e espaços públicos, embora o clima geral de instabilidade conduza a um amuralhamento e se mantenha uma ocupação e fortificação de muitos espaços habitacionais/defensivos (caso dos castros do Noroeste).
A situação de conflito latente interno na Península, aportada pelos povos germânicos no século V, cria um abandono de algumas villae de tradição romana e zonas de evidente destruição, apesar de muitas das atividade económicas de e para o exterior se manterem, obviamente a um ritmo mais comedido. O período representa, de igual modo, uma fragmentação territorial e aglomeração dos poderes, iniciada no Baixo Império.
A documentação existente e referente ao período de vigência administrativa sueva mostra um habitat de tipo disperso na zona Norte do rio Douro, em oposição a uma concentração de polos urbanos nas áreas litorais. Contudo, esta divisão demonstra talvez uma persistência do povoamento pré-romano e não uma decadência da "vida" urbana. A extensão deste povoamento a restantes áreas do território permanece por concluir, apesar de serem identificados exemplos dispersos, embora referenciais, de basílicas, batistérios e até a utilização continuada de espaços de lazer como edifícios termais.
O reinado iniciado pelo visigodo Leovigildo, em 569, demonstra uma estratégia política centralizadora, em choque direto com a situação anterior de privilégio das elites católicas regionais. O papel de substituição das instituições de governo herdadas do Baixo Império era assegurado pela hierarquia da Igreja, assumindo as sedes episcopais carácter eminentemente patrimonial, transmissível dentro da estrutura familiar, e enriquecido, individualmente, pelo número de doações e receita fiscais. Neste sentido, as comunidades eclesiásticas eram, simultaneamente, herdeiras da tradição do mundo hispano-romano e representantes das elites que integravam. Após um período conturbado de tensão interna, Leovigildo estabelece a monarquia hereditária e reabilita as antigas províncias romanas, colocando na sua chefia duques com autoridade direta sobre os condes. A possibilidade que abriu ao casamento misto e a conversão ao cristianismo e imposição deste como religião primeira, lançaram definitivamente a fusão entre Visigodos, Hispano-Romanos e populações suevas.
No final do século VI a ascensão da Igreja na vida pública é evidente. A educação que mantinha das elites vai influenciar as decisões a nível superior, notória, por exemplo, no estabelecimento dos Concílios Gerais. Nestes, participam clérigos e o próprio rei, numa atitude de "feudalização" do sistema, situação que o "Código de Recesvinto", de 654, viria a tornar ainda mais evidente pela supremacia do carácter pessoal sobre a Lei Geral, mas igualmente reforçada pela obrigatoriedade de apoio ao rei decretada por Wamba. A tentativa deste monarca em "afrontar" diretamente o poder episcopal resulta na sua destituição, tendo o seu substituto, Ervígio, publicado um conjunto normativo legal que estabelecia o domínio moral eclesiástico sobre o régio.
Os séculos VII e VIII marcam momentos de crescente destabilização interna, colmatados com a invasão árabe de 711.
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