presságio

O presságio (do latim praesagiu) é um facto, um sinal ou indício pelo qual se pressente ou se adivinha o futuro. É o mesmo que agouro, pressentimento, previsão, prognóstico. Na conceção geral, entende-se por presságio qualquer tipo de afirmação e acontecimento capaz de fazer prever um infortúnio ou fatalidade inevitável.
Entre os antigos romanos existiam os "áugures", sacerdotes que faziam presságios ou augúrios, isto é, prognósticos favoráveis ou desfavoráveis, a partir do canto das aves: por exemplo, o piar da coruja (mau agouro) ou do corvo (prosperidade e sabedoria, mas também má sorte) e do mocho (a que se refere Bocage, como pressagístico da desgraça).
Ao longo dos tempos, muitos povos consideraram certo tipo de fenómenos como presságios de catástrofes. E apesar de, com o avançar da ciência, ser possível explicar que esses sinais nada têm de prodigioso e resultam de interpretação supersticiosa, ainda há quem os entenda como sinais divinos ou sobrenaturais. Na narrativa literária, os presságios surgem constituindo unidades narrativas que indiciam a tragédia. São signos que prenunciam factos que poderão concretizar-se no decorrer da ação. Constituem uma manifestação da força do destino e indicam ou aludem a um funesto desfecho.
A literatura faz, constantemente, eco das crenças em presságios. Basta lembrar Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett ou Os Maias de Eça de Queirós.
Em Frei Luís de Sousa, um presságio da desgraça percorre toda a ação. Desde o início, as apreensões e pressentimentos de Madalena (de que a paz e a felicidade familiar possam estar em perigo) tornam-se gradualmente numa realidade. As constantes referências à "hora fatal" e ao "dia fatal", o incêndio do palácio com o retrato de Manuel de Sousa a arder, o medo da "sexta-feira" pressentida como dia aziago, o "Ninguém" do Romeiro e muitas outras sugestões adensam a tensão dramática e confirmam a crença em presságios da desgraça.
Em Os Maias, de Eça de Queirós, há desde o início uma premonição do destino trágico da família: Vilaça lembra a Afonso uma antiga lenda segundo a qual "eram sempre fatais aos Maias as paredes do Ramalhete"; Afonso apercebe-se da semelhança entre o seu filho Pedro e um avô de sua mulher, que se enforcara; a descrição de Maria Monforte, quando Afonso a vê pela primeira vez, encontra-se cheia de símbolos premonitórios, nomeadamente com a sombrinha escarlate que parecia envolver Pedro "como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste das ramas". Esta sombrinha antecipava a visão da morte de Pedro e a relação incestuosa pela consanguinidade entre Carlos e Maria Eduarda. Outros presságios ressaltam da obra: o nome escolhido pela mãe para Carlos Eduardo, em memória do último príncipe Stuart; a inconstância sentimental do próprio Carlos, com o Ega a lembrar-lhe possíveis resultados trágicos; o aviso da "vasta ministra da Baviera", na corrida de cavalos, dizendo-lhe: "Vous connaissez le proverbe; heureux au jeu.. "; o murchar dos três lírios brancos no vaso de Japão, em casa de Maria Eduarda; a similitude dos nomes Carlos Eduardo e Maria Eduarda; as semelhanças de Maria Eduarda com o avô Afonso e as parecenças de Carlos com Maria Monforte; a descrição da "Toca", quando Maria Eduarda entra pela primeira vez, com a coruja e "os seus dois olhos redondos e agourentos", com as alusões a Vénus e Marte, com a lembrança da paixão trágica do tempo de Lucrécia ou de Romeu...
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