privação relativa

Privação relativa é uma expressão que remete para uma teoria conhecida não só na Psciologia, particularmente na Psicologia Social, mas também na Sociologia e sobretudo na Ciência Política. A teoria da privação relativa é uma teoria que concorre com outras teorias (socio)psicológicas, nomeadamente psicanalíticas, sociológicas e políticas, de modo a compreender e explicar a ação social e, em particular, a ação coletiva.
Influenciada pelo funcionalismo, a teoria da privação relativa converge com alguns pressupostos de carácter psicológico, advindos nomeadamente da corrente behaviorista que, admitindo uma relativa variabilidade do comportamento humano, o explica a partir da convergência ou da discrepância entre expectativas e gratificações ou entre a relativa privação dos atores sociais e suas capacidades de realização presente ou futura de determinadas necessidades, desejos e/ou objetivos. Assim, a explicação do comportamento sociopolítico, sobretudo quanto ao eclodir ou não de situações revolucionárias, assentaria em variáveis mensuráveis, que forneceriam a medida de satisfação-insatisfação, apatia-rebeldia, coragem-angústia, frustração-agressividade. Estes 'estados mentais' seriam, por sua vez, operacionalizados em determinadas variáveis de estratificação, como rendimento, educação, estilo de vida, cuidados médico-sociais. E, assim, chegar-se-ia à relação causal entre a posição no sistema de estratificação, com os sentimentos correspondentes, e a sua ação social. Segundo as premissas deste modelo de ação de tipo eruptivo, quanto mais inferior fosse o escalão em que se situassem os atores sociais na pirâmide da estratificação em relação à posse de recursos, tanto mais descontentes e, portanto, mais inconformistas e revoltosos seriam. Além disso, segundo James Davies, mais que a privação de bens, seria o medo da perda abrupta da relativa prosperidade adquirida o que condicionaria a ação dos atores sociais. Expectativas de melhoria social constituiriam, por sua vez, a pedra angular de movimentos, revoltas ou inclusivamente revoluções sociais.
A uma certa tipologização psicológica ou moral da ação social não escapam alguns proeminentes sociólogos, como George Homans, e, em particular, estudiosos do campesinato, ao qual seriam atribuídas determinadas síndromas ou ethos psicossociais, morais ou culturais: o de 'amoral-familista' (Edward C. Banfield), o de 'invejoso' (George Foster) ou o de 'modesto-invejoso' (Carmelo Lisón Tolosana). Estas síndromas que, numa estratégia niveladora, seriam, segundo Foster, suscetíveis de, excecionalmente, encaminhar os atores sociais para uma conduta colectivizante, têm, contudo, em regra, um efeito de ensimesmamento familista ou involução individualista.
Outros explicam a ação dos atores sociais, ora a partir de arquétipos culturais e sociopsicológicos, ora a partir da (mundi)visão ou imagem (emic) que estes possuem acerca das quantidades finitas de bens valiosos (terra, saúde, amor). E, por fim, à teoria da privação relativa poder-se-ia associar, embora sem o cariz psicologizante já referido, a teoria da pauperização marxista, que parte também do pressuposto de que quanto mais pobres sejam os atores sociais, maior a probabilidade de encetarem estratégias de revolta ou revolução social.
A teoria da privação relativa tem sido sujeita, sobretudo a partir dos anos 70 do do século XX, a fortes e contundentes críticas, das quais se destacam as de Rod Aya e de Theda Sckopol. Tanto a explosão violenta como a passividade 'amorfa', por parte de uma massa de atores sociais, não podem ser atribuídas ao carácter irracional ou patológico de seus protagonistas, uma vez que, tal como aponta Veit Bader, seria suscetível de ser questionada como unilateral, individualista ou elitista uma racionalidade assumida como normal, paradigmática e universalmente válida. Por outro lado, se o papel dos líderes 'naturais' do campesinato é bastante decisivo para moldar a ação dos camponeses, sobretudo dependentes, esta não é redutível nem à simples manipulação dos camponeses nem, tal como argumenta Joel Migdal, a valores ou motivações especificamente camponeses. Por fim, a ação apática ou revoltosa dos camponeses de modo algum pode ser deduzida à simples soma de indivíduos satisfeitos ou insatisfeitos, nem tão pouco do estatuto que se possui na ordem social. Isto implica que, tal como inclusivamente o reconhece Davies, não há necessariamente relação direta de causa-efeito entre a pobreza ou privação relativa e a eventual revolta subsequente ao conflito sociopolítico.
O modelo psicológico moderno, nalgumas das suas variantes, acentua apenas um dos momentos que está, em maior ou menor medida, normalmente presente em cada ação humana: os processos de motivação, os tipos de orientação na ação facultados pela experiência e as redes de interação. Com efeito, estes fatores contribuem, como referem Pierre Bourdieu, Veit Bader e Albert Benschop, para explicar a diversidade de hábitos, representações e estilos de vida entre atores originários ou situados na mesma condição social, do mesmo modo que é na experiência vivenciada onde medeiam e se repercutem os condicionamentos objetivos, tal como sublinha E. P.Thompson acerca da formação, da consciencialização e da ação de classe. A este nível, a (pre)disposição psíquica dos chamados 'estados mentais' contribui, sem dúvida, para a manutenção ou disrupção de determinadas situações políticas, sendo, por exemplo, de relevar, respetivamente, os sentimentos de resignação fatalista ou o receio de perder posições e benefícios adquiridos. Contudo, do ponto de vista analítico e estruturante da ação, os defensores do modelo sociopsicológico, ao não considerarem os níveis social e organizacional como hierarquicamente prioritários, não se encontram em condições de explicar como é possível que situações semelhantes gerem movimentos diferentes e até contrários. O modelo da relativa privação acaba por não explicar, por exemplo, por que é que, em determinadas situações históricas, apesar da pobreza e do desemprego, do analfabetismo e da carência de cuidados médicos e sociais, há um grande descontentamento, mas não se verifica qualquer levantamento ou revolução. Pelo contrário, tais situações, conduzindo amiúde a sentimentos de impotência, desespero ou até de resignação com o statu quo, não são suficientes para a mobilização política. Tal como James Scott observa, se o descontentamento ou a raiva fossem suficientes para um levantamento, então todo o chamado Terceiro Mundo estaria ardendo em chamas.
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