Proletariado no Século XIX

As cidades que se industrializaram no século XIX não se tornaram em aglomerados de operários de imediato, mas progressivamente, à medida que as antigas oficinas foram sendo substituídas por fábricas. As primeiras cidades operárias serão principalmente as que cresceram, ou surgiram, de pequenas vilas ou aldeias, junto às minas de carvão, atraindo massas de camponeses em êxodo para esses novos centros económicos. Estas transformações foram mais visíveis em Inglaterra, Nordeste de França, Bélgica e Alemanha. As "regiões negras", carboníferas, tornaram-se assim no alfobre do proletariado do século XIX, que ganhou de imediato as cidades industriais, da siderurgia, da metalurgia e dos têxteis, dependentes das massas de trabalhadores do êxodo rural e da produção de carvão. Cidades-cogumelo acolhiam cada vez mais operários, estes com famílias numerosas que vendiam como força de trabalho às fábricas e minas, de onde retiravam, em média, parcos sustentos e encontravam difíceis e desumanas condições de trabalho, nomeadamente em Inglaterra, onde a pobreza urbana da Revolução Industrial atingiu níveis chocantes e desigualdades sociais extremas, inspiradoras da obra literária de Charles Dickens, por exemplo.
Mas não eram apenas operários a povoar as cidades, também uma multidão de servidores das classes abastadas, empregados de serviços e de pequenos negócios formavam uma massa proletária definida pelas condições de vida difíceis e parcos rendimentos. Muitos dos primeiros militantes operários eram mesmo, na primeira metade do século XIX, provenientes deste povo assalariado urbano, muitos deles ligados ainda às oficinas artesanais e ao comércio e trabalho em casa de famílias abastadas. Possuíam estes ainda algum enraizamento social e mantinham padrões culturais e tradições próprias, ao contrário do proletariado industrial, cada vez mais numeroso, desenraizado da sua cultura rural e sem valores citadinos, resistindo às normas e disciplina das fábricas, em nome dos seus melhores valores campestres, desadaptados da sua nova condição laboral. Daí aos conflitos e assumir de desigualdades e clivagens foi um passo rápido, agravado pelos baixos salários, famílias (proles) numerosas, problemas de subsistência e questões sanitárias problemáticas. Com o aproximar do último quartel do século XIX, época da grande fábrica, dos impérios industriais, da sociedade baseada no setor secundário, surgem os movimentos e ideologias de cariz socialista, bem como os sindicatos, a pugnarem pela defesa do proletariado, das massas operárias sem direitos políticos e participação no governo das riquezas de que eram a massa produtiva. No Ocidente da Europa, como no Leste, a luta socialista tinha pois por encargo a defesa desta nova sociedade industrial.
Uma outra faceta do proletariado de Oitocentos era o trabalho feminino, doméstico, principalmente na área dos têxteis, por via do aperfeiçoamento da máquina de costura. O trabalho doméstico entregue a mulheres era cada vez mais recorrente, o "sweating system" inglês, à peça, uma mais acabadas formas de exploração do proletariado. Este conhecia, porém, alguns grupos de operários, os especializados, com melhores condições de vida e de trabalho, mas também uma massa de subproletariado, trabalho instável e servil, com níveis de insegurança laboral e social enormes e subsequente pobreza familiar. Como no princípio do século XIX, este empobrecimento do proletariado acentuou-se nos seus finais mais a leste, na Rússia, onde a ideologia socialista de matriz marxista ganhou contornos tais que despoletou, em 1917, na maior revolução proletária de todos os tempos.
O proletariado, no ocidente, por exemplo, conheceu melhorias sociais, com a escolaridade da segunda geração operária, nascida já nas cidades e mesmo na elevação de condição social de alguns dos da primeira leva do êxodo rural. Muitos passaram para o pequeno comércio, tornando-se numa pequena burguesia urbana que vivia, muitas vezes, à custa da desgraça dos que rumavam às cidades mineiras ou fabris, vindos dos campos, sem especialização e com poucos recursos.
A partir da década de 80 de Oitocentos, chegam as primeiras leis laborais e de cariz social, principalmente visando a redução do número de horas de trabalho, as condições de laboração e a regulamentação e enquadramento das mulheres e crianças no tecido industrial, no que resultaram melhor nível de vida do proletariado. Este, ao longo do século XIX, com o decurso de várias gerações e com a chegada contínua de novas massas operárias vindas do campo, começa a animar as ruas das cidades que ajudou a construir e cujo trabalho as mantinha. Metropolitano, automóvel, polícia, imprensa, serviços, ensino, tantas foram as novas realidades urbanas que o crescimento do proletariado ajudou a surgir, mudando estruturas e principalmente comportamentos sociais e culturais e, porque não, mentalidades e consciência política e nacional.
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