Próximo e Médio Oriente (III Milénio a. C.)

Nos séculos que precedem e sucedem o ano 2000 a. C., o Próximo e o Médio Oriente veem-se sacudidos por um vasto movimento geográfico, muito lento (se tivermos em conta as medidas cronológicas atuais), mas extraordinariamente rápidas e contundentes, se se comparar com as alterações e mudanças típicas do Neolítico e do Calcolítico. Segundo alguns autores, os responsáveis por estes movimentos são os povos indo-europeus.
Na primeira metade do segundo milénio, os movimentos migratórios assemelham-se a ondas. Todos os estados do Próximo Oriente acabam por sucumbir, enquanto se produzem alterações técnicas de grande importância e misturas entre povos. Demonstrou-se então até que ponto o Egito dispunha de meios mais adequados que a Mesopotâmia para superar a crise. Os faraós da 12.ª dinastia e, depois, da 18.ª dinastia assumiram o carácter militar necessário para primeiro repelir e depois reduzir os emigrantes. Deste modo, por volta de 1400 a. C. conseguiram estabelecer um sistema de política internacional e um equilíbrio de poderes.
Os primeiros indo-europeus que aparecem na História são, sem dúvida alguma, os que pouco antes de 2000 a. C. penetraram na Ásia Menor e, ao unirem-se ou submeterem as populações "asiáticas" preexistentes, formaram um reino ou confederação de principados chamada Hatti. É o mesmo que dizer que são os hititas. As discussões à volta da origem dos indo-europeus não cessaram nem se prevê que tal aconteça a curto prazo. No entanto, convém assinalar que os investigadores se mostram geralmente de acordo em admitir que, longe de constituir um povo (uma etnia diferenciada) como noutro tempo se acreditou, a unidade dos indo-europeus baseava-se unicamente na posse de uma língua que tem raízes comuns.
O Império, a que chamamos Antigo, do Egito, e o fundado por Sargão, de Acad, sucumbem, em datas muito próximas, como consequência destas ondas migratórias. Há que frisar que em ambos os casos se trata de um efeito duplo: a ameaça a partir do exterior obrigou a esforços que debilitaram a coesão interna; o poder unitário vê-se substituído por poderes locais dispersos, que parecem estar em melhores condições para resistirem à invasão.
No Egito, ao Império Antigo sucede um período de século e meio de revoluções. Na origem destas há que ver o processo feudalizante que, durante a 16.ª dinastia, minou a autoridade do faraó.
Num momento posterior alguns dos imakhus do rei, atuando como verdadeiros reis em territórios restringidos e possuindo as forças mágicas que se consideram inerentes ao poder, converteram-se em autênticos soberanos locais. Este processo não tinha sido tão grave sem o fenómeno de confusão entre propriedade e autoridade, semelhante ao que caracteriza o feudalismo europeu medieval. Tinha-se começado por conceder aos templos um status de imunidade que lhe outorgava jurisdição sobre os habitantes das suas terras; seguidamente estendeu-se também às propriedades que recebiam os governadores. Ao transmitir-se por herança ambas as coisas, desagregou-se o poder monolítico que tinha assegurado, através do faraó, as colheitas, o armazenamento dos seus excedentes e a distribuição dos víveres. Em determinado momento, por volta do século XXII a. C., estalam motins e violências, dando origem a atos de subversão.
Os historiadores acostumaram-se, por uma questão de comodidade, a chamar "primeiro período intermédio" ao período que separa os Impérios Antigo e Médio. Abarca as dinastias 7.ª a 10.ª da lista de Maneton e em termos de cronologia absoluta prolonga-se de 2200 a 2040 a. C., aproximadamente.
Ajudado pelos príncipes de Coptos, Antef repetiu a façanha dos shemsu-hor, empreendendo uma longa guerra para a unificação do país, que iria durar cento e dez anos: primeiro contra os soberanos de Siul, que atuavam como adiantados do faraó, e mais tarde contra este último. A guerra foi dolorosa e destrutiva, mas transformou o país numa grande potência militar. O desaparecimento do poder central, juntamente com as lutas, provocou períodos de grandes fomes. Tudo terminou por volta de 2040 a. C. com a vitória de um descendente de Antef que se chamava faraó Mentuhotep I, considerado o fundador da 11ª dinastia.
De modo semelhante ocorreu a destruição do Império Acadiano. Sharkalisharri, que teve que lutar com dureza contra os invasores, já não era obedecido em Uruk, que recuperou a sua independência, nem em Elam, onde as inscrições revelam a existência de um novo soberano, Kutik-in-Shushinak. Este morreu assassinado em 2198 a. C. e durante três anos o país viveu na anarquia: hordas de invasores gudeos, que eram nómadas procedentes dos montes Zagros, penetravam no território, saqueando-o.
As invasões dos gudeos repetiram-se - os documentos não deixam dúvida em relação à sua presença permanente no país, o que não significa que tenham conseguido exercer um poder semelhante à dos antigos monarcas. É um predomínio da estepe, um avanço dos nómadas no Norte e um retrocesso paralelo dos sedentários para sul. Mas, à semelhança do que tinha sucedido no Egito, a perda de autoridade central significou um desastre económico e um retorno da cada cidade à sua antiga independência. A "época dos gudeos" é assim um tempo de desintegração.
Ao romper-se a unidade política, renasce a velha oposição entre Sumérios e Semitas; o eixo do semitismo tendia a deslocar-se para norte, onde se viria a constituir a monarquia assíria. Na Suméria, o arcaísmo permite um florescimento estético muito importante.
O rei Gudea é o melhor símbolo desta época arcaizante. Parece ter renunciado a qualquer empresa militar ou de conquista. As inscrições insistem na paz e nas obras que devem realizar-se para conservar os canais, transportar materiais e construir templos. Gudea vangloria-se de um modo especial por ter construído o templo E-ninnu, utilizando materiais muito ricos, os quais só podem ter sido obtidos de longas distâncias através do comércio.
Nem todos os reis locais pensavam como Gudea. Os dinastas de Uruk conservaram o velho espírito militar e retomaram a luta contra os invasores. Esta luta culminou, como no Egito, numa vitória alcançada por volta de 2110 a. C., quando Utuk-hegal conseguiu expulsar os gudeos da planície e os fez desaparecer. Não foi, sem dúvida, Uruk quem recolheu os frutos desta vitória, mas sim a velha cidade de Ur, onde Utuk-hegal tinha designado seu chefe um nobre local, Ur-nammu, em 2111 a. C. Ur-nammu funda uma dinastia, a 3.ª, e consegue impor o seu domínio sobre todo o país. Desconhecem-se os detalhes da sua conquista.
Os sucessores de Ur-nammu vivem, durante um século, aproximadamente, em condições muito dramáticas, de luta contínua. Shulgi (2094-2036 a. C.) foi capaz de se aguentar no trono combatendo com pulso forte em Elam e nas montanhas iranianas. A guerra culminou, ao que parece, com a destruição de Arbelas, em 2044 a. C., pelo exército mandado por um filho do rei.
Três causas contribuíram para a destruição de Suméria-Acad: as tendências separatistas que se pressentem nas cidades do Sul; a constante pressão dos nómadas, que não se encontravam somente na área exterior, mas também proliferavam em espaços intermédios; o desenvolvimento rápido de Elam, que se converteu numa grande potência.
A partir do reinado de Ibbi-sin, que começa cerca de 2007 a. C., consuma-se a catástrofe. Os nómadas amurru fizeram saltar as defesas que o seu irmão tinha construído. Entretanto Elam preparava-se para um ataque definitivo, arrastando com ele os amorreus e também outros nómadas do Zagros. Ibbi-sin foi feito prisioneiro, Ur sucumbiu aos invasores e o império desapareceu (2003 a. C.).
A guarnição elamita de Ur foi expulsa sete ou oito anos mais tarde por Ishbi-Erra, que limpou o país de nómadas e restabeleceu as rotas do comércio. As cidades rodearam-se rapidamente de muralhas com o objetivo de assegurar melhor a resistência, mas a unidade sumero-acádica nunca foi restabelecida. A Suméria perdeu definitivamente o seu carácter diretivo e passou a ser um apêndice das grandes potências.
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