Questão Oriental

Este nome designa a questão de saber se os Turcos, estabelecidos na Europa desde a conquista de Constantinopla em 1453, conservaram ou perderam as suas possessões e, neste segundo caso, como se operaria a sua partilha.
Este importante problema da política internacional conheceu várias fases. Como elementos decisivos deste processo, apontam-se, em primeiro lugar, o chamado "ressurgimento austríaco" que, pelos tratados de Carlowitz (1699), Passarowitz (1778) e de Belgrado (1839) fizeram recuar os Turcos até ao Danúbio. De seguida, a marcha expansionista russa, fixada pelos tratados de Kainardi (1774), Jassy (1792), Bucareste (1812) e Andrinopla (1829), fixou essa fronteira no delta do mesmo rio.
Por esta altura, a questão do Oriente entrou num período caracterizado pelos esforços da Europa em conservar o Império Otomano, pelas tentativas de o reformar e, enfim, pelo apoio à criação de estados cristãos autónomos. Por um lado, as grandes potências, à frente das quais se destacava a Inglaterra, intervêm diplomaticamente para defender o sultão contra o seu vassalo revoltoso Mehemet-Ali (1840) e, depois, militarmente, ajudando-o a rechaçar uma agressão russa: trata-se da guerra da Crimeia (1854-1855) concluída com a assinatura do Tratado de Paris (1856). Por outro lado, obrigam-no a promulgar diversas reformas gerais (1839, 1856, 1864, 1877) cuja aplicação se revelou ineficaz. A constatação do falhanço da sua atuação encorajou a emancipação política das populações cristãs do império. A Grécia foi a primeira a sacudir o jugo imperial otomano, tornando-se um reino independente em 1829. Seguiu-se-lhe a Roménia (1859-1862), a Sérvia (constituída como principado autónomo em 1868) e Creta, que se insurgiu entre 1866-1869.
Uma nova e fracassada guerra com a Rússia (1877-1878) ocasionou uma nova intervenção externa europeia que anunciou novos desmembramentos. Pelo Tratado de Berlim, que pôs fim a esse conflito, os Turcos foram obrigados a entregar vários territórios: a Bósnia para a Áustria; o Chipre para a Inglaterra; parte da Arménia à Rússia. Ao mesmo tempo via um novo Estado formar-se à custa dos seus domínios: a Bulgária (em 1885 centralizada na antiga zona da Rumélia).
Ainda na sequência destes problemas, perdem a Tessália para a Grécia (1881) e assistem à ocupação de Tunes pelos Franceses (1881) e do Egito pela Grã-Bretanha (1882). A evolução interna da Turquia, por seu turno, não trará um ambiente propício para impedir este estado das coisas. Durante cerca de um quarto de século, a revolução interna que derrubará Abdul-Amid abriu caminho a novas perdas territoriais: a Bulgária, ainda com estatuto de estado vassálico, proclamou-se definitivamente independente em 1908. A Itália apoderou-se da província turca da Tripolitânia (1911-1912) e os estados cristãos balcânicos (Bulgária, Sérvia, Grécia e Montenegro) moveram-lhes uma guerra que a levará a perder praticamente todas as possessões na Europa, com exceção de uma simples testa de ponte em frente a Constantinopla.
A Primeira Guerra Mundial foi encarada pelos Turcos como uma hipótese de recuperar alguns destes espaços e, ao mesmo tempo, como uma forma de vingança; contudo, os ventos de guerra não lhe foram favoráveis. Aliada das potências ou dos impérios centrais, a Turquia estava ligada aos vencidos; pelo Tratado de Sèvres (10 de agosto de 1920), o seu território diminuiu drasticamente e, desta feita, a zona asiática foi a mais afetada. Por consequência deste tratado perderam a Síria e a Mesopotâmia e apenas mantiveram a soberania sobre a maior parte da Anatólia (maioritariamente habitada por Muçulmanos), garantida através de uma vitória militar de Mustapha Kemal sobre os Gregos em Esmirna, no ano de 1922.
Em virtude do tratado de Lausana (1923) foram expulsas dessa região as populações cristãs que aí viviam, trocadas por comunidades turcas até aí dispersas pela zona balcânica. Os Turcos, a partir de então, viviam agrupados no país que lhes cabia.
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