Reino da Etiópia (Séc XV-XVI)

As notícias sobre a Etiópia remontam à Antiguidade: na extremidade do Mundo ficava o País do Ponto, país do incenso e dos aromas, terra de lendas e de deuses, que a Idade Média iria transformar no Paraíso Terrestre, na Fonte da Vida e no reino do Preste João. Estendia-se, segundo os geógrafos antigos, por todo o território a sul do Egito. A confusão irá prosseguir ao longo da Idade Média e a Etiópia será sempre associada à Índia. Os equívocos são bem patentes em Marco Polo (século XIII), que chama Índia Média à Abissínia e situa-a para os lados da Núbia; o mapa-múndi dito dos Bórgias (c. 1410) refere, a ocidente do Ganges, uma Índia etíope ... etc. Esta confusão desaparece, parcialmente, quando se divulga no Ocidente a Geografia de Ptolomeu em que apenas o Sul da África era designado por Etiópia. Contudo, a associação Etiópia-Índia continuou. Mais, a ela associou-se o fabuloso "reino" do Preste João, soberano ideal para uma cristandade que dele se encontrava separada pela distância e pelo Islão, pelas "terras dos mouros", opinião reforçada quando os primeiros europeus, em contacto com o Oriente, aí não encontraram o lendário reino. O Preste João passou, assim, a ser identificado com o negus cristão da Abissínia, senhor de um velho império acerca do qual corriam no mundo mediterrânico não poucas lendas, lendas milenárias, do País do Ponto e da Arábia Feliz, com os seus aromas e madeiras preciosas, com os seus rios de ouro e os seus monstros; o mistério das nascentes do Nilo, nas Montanhas da Lua, rio sobre o qual o imperador da Abissínia poderia exercer a sua influência e, desviando o seu curso, arruinar o Egito. Por outro lado, uma aura de prestígio religioso, não menos fabulosa, envolvia este império: os Habashân, ou Abexins, descendentes de gentes naturais das duas margens do mar Vermelho, haviam criado nas montanhas de Tigré, no Norte da Etiópia, o reino cristão de Axum e haviam-se convertido ao cristianismo no início do século IV, mantendo relações políticas com os últimos imperadores romanos. Até ao século VI, Axum, capital do império etíope e entreposto geral do comércio de marfim, desempenhou um papel importante no relacionamento com Bizâncio, apesar de algumas divergências religiosas. No entanto, o expansionismo árabe vai impedir o prosseguimento regular destes contactos e a Etiópia/Axum ficará a pouco e pouco isolada e perdida. Até ao século XV, esporadicamente, continuarão a chegar notícias e, de tempos a tempos, vão sendo estabelecidos contactos com os Abissínios (por exemplo, em 1316, chegam à corte do negus os primeiros emissários de Roma, que esperavam estabelecer um plano geral de ataque ao Islão, no qual participassem as forças etíopes). A partir da segunda metade do século XV aumenta o interesse da Europa pela Etiópia. O corte das estradas comerciais do Sudeste Asiático por Tamerlão (no início do século) e a tomada de Constantinopla (1453) dificultam o acesso ao Oriente. A existência de um reino cristão na retaguarda do Islão faz com que tanto as repúblicas italianas como Portugal e Aragão procurem obter a aliança com o imperador abexim. A Portugal coube a realização desse desejo, mas não em serviço dos cristãos latinos na luta contra o Islão. O verdadeiro interesse pelo Preste João em Portugal é uma consequência do chamado "plano da Índia" que D. João II estabeleceu e pôs em prática até onde lhe foi possível. Em 1487, nomeou Afonso de Paiva para ir à corte do negus. Como este morreu no Cairo, Pero da Covilhã, seu provável companheiro em parte da expedição e que andou pelo Indostão e, talvez, pela costa oriental africana, acabou por ser incumbido desta missão e terá chegado à corte etíope em 1491 ou 1492, onde morreria, depois de 1526. Após a chegada dos portugueses à Índia, é natural que os responsáveis portugueses tenham avaliado a situação e a possibilidade de encarar o auxílio da Etiópia nos planos imperiais; lembre-se que, para Afonso de Albuquerque, em 1513, o império de Preste João era ainda poderoso. No entanto, se alguma vez, depois de 1498, os portugueses terão pensado em recorrer à Etiópia cristã para atacar o Islão, o certo é que será Portugal, já em pleno século XVI, a responder ao apelo etíope e a intervir em combates contra os árabes. Isso mesmo sucedeu com Cristóvão da Gama, em 1541, aprisionado e morto pelos homens de "Granhe", sultão de Zeila, cuja ação foi decisiva para afastar da zona, definitivamente, o perigo muçulmano.
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