Reinos Germânicos da Europa (sécs. V-VIII)

Com a morte do imperador romano Constantino, os seus descendentes envolveram-se em disputas, que permitiram a aproximação dos "bárbaros" junto às fronteiras menos resguardadas do império.
Sob a liderança de Juliano, o Apóstata (331-363), a situação não sofreu grandes alterações. Depois deste imperador pagão, o poder foi assumido por Teodósio (346-395), um militar hispânico cristão, que renunciou ao título de pontífice máximo, utilizado, até então, por todos os imperadores, e se dedicou ao combate dos "bárbaros".
Quando Teodósio morreu, o império foi dividido entre os seus filhos. A Honório (384-423) coube o Império Romano do Ocidente, e a Arcádico (377-408), o Império Romano do Oriente. O Império Romano do Ocidente foi desmembrado em 476, mas a parte oriental subsistiu sob a denominação de Império Bizantino. O conflito e as rivalidades existentes entre os dois filhos de Teodósio e os seus partidários foram aproveitados pelos povos "bárbaros", que deram início às primeiras vagas de invasões. Os "bárbaros" eram povos de origem indo-europeia, seminómadas, mas, ao contrário do que muitas vezes se afirmou, não eram primitivos. Haviam desenvolvido técnicas avançadas no trabalho dos metais e na criação de gado, sobretudo cavalar. Alguns destes povos eram compostos por exímios cavaleiros. Dentre eles, destacam-se os Germanos. Para os Romanos, "bárbaro" era aquele que vivia fora da fronteira do império e não estava envolvido na cultura grega ou romana. Era, em suma, o "estrangeiro". Os Germanos nunca deixaram de incomodar o limes e, após a morte de Teodósio, não perderam a oportunidade de atravessar o rio Reno. Povos como os Alanos, os Vândalos e os Suevos cedo chegaram à Sália (Norte de França) e à Península Ibérica.
Os Visigodos, em fuga das perseguições dos Hunos, foram fixar-se na Trácia, por volta do ano 376. O seu líder, Alarico (c. 370-410), insurgiu-se contra Honório, o titular do Império Romano Ocidental, e dirigiu-se para Roma, cidade que foi sitiada e saqueada pelos Visigodos. Depois do saque, este povo rumou para a região sul, onde Alarico viria a encontrar a morte na Calábria.
O novo líder, Ataulfo, voltou para norte. Em 412, marchou sobre a Gália, e em 414, após a travessia dos Pirenéus, o seu povo chegou à Espanha. Neste território, Ataulfo confrontou-se com Vândalos, Alanos e Suevos, um conjunto de povos que sucumbiram perante a força dos Visigodos, que reunificaram a Península.
Os Vândalos, ao contrário dos outros povos que ocuparam a Península Ibérica antes da invasão visigoda, tinham já ocupado um território consideravelmente extenso na Bética. Na sua debandada para o Sul, os Vândalos passaram o mar Mediterrâneo e tomaram grandes porções de terra no Norte de África, onde fixaram a sua capital em Cartago.
Os Romanos, que viviam nesta região, envolveram-se em longas e duras batalhas com os invasores. Durante estes conflitos, veio a falecer Santo Agostinho (354-430), um doutor da igreja reconhecido como uma das mais influentes figuras da cultura medieval, no cerco à sua cidade natal de Hipona, na atual Tunísia.
Do mar, chegavam outras hordas invasoras: os Saxões. Estes povos "bárbaros", os "germanos do mar", chegaram à Bretanha depois de navegarem ao largo da Jutlândia e da Gália. Os Bretões, vendo-se sem hipótese de enfrentar os invasores, refugiaram-se em grande número, na região da Cornualha, na Escócia e no País de Gales, enquanto outros escolheram, para local de refúgio, a Armórica francesa (atual Bretanha), que tomou o nome de "Pequena Bretanha".
Apesar da fuga de muitos bretões, outros, porém, combateram os invasores. Uma das figuras mais destacadas nestes combates foi o lendário rei Artur, uma das personagens centrais dos romances de cavalaria medieval, sempre acompanhado pelos cavaleiros da Távola Redonda. Artur terá sido um guerreiro destemido, que saiu vitorioso em muitas batalhas no território sudoeste da atual Inglaterra, junto a Gales. Os "bárbaros" fixaram-se na Inglaterra, o País dos Anglos (outro povo germânico), onde estabeleceram sete reinos (Heptarquia Saxónica).
Os Hunos, liderados por Átila, que se auto-intitulava o "Flagelo de Deus", provenientes da Mongólia e do Turquestão, voltaram-se para o ocidente, depois de terem sido expulsos da China, no século IV. Primeiramente, ocuparam territórios da Europa Oriental, do mar Cáspio ao Elba. Chegaram, inclusivamente, a exigir o pagamento de um tributo ao Império Oriental. Mais tarde, os Hunos chegaram à Gália, onde foram derrotados pelos homens de Aécio. Contudo, pouco tempo depois, voltavam a abordar a Itália, mas já quase em Roma retiram-se do conflito. Por tradição, diz-se que as hostes de Átila recuaram devido à intervenção do Papa Leão Magno. Com a morte de Átila, o chefe dos Hunos, na batalha dos Montes Cataláunicos, às mãos de um exército romano-visigodo, o seu império desapareceu.
Entretanto, na Hispânia, Eurico, o rei visigodo, lutava com os Suevos, conseguindo ocupar a Lusitânia e a Tarraconense. Após diversas batalhas na Gália, Eurico passou a controlar um vasto território, que abrangia uma região compreendida entre os Pirenéus e o Loire, o Atlântico e o Ródano, bem como a zona a sul da Provença até aos Alpes. Porém, a Península Ibérica seria unificada por outro visigodo, Leovigildo (584). Recaredo, seu sucessor, tentou ultrapassar os problemas existentes entre as populações autóctones e os invasores, e, na sua capital de Toledo, reuniu um concílio, o qual resultou na conversão da maior parte dos seus habitantes.
A chegada dos povos invasores coincidiu com o período de decadência do Império Romano do Ocidente, que se encontrava, a partir de então, comandado pelos chefes germânicos. O último imperador de Roma, Rómulo Augústulo, foi deposto por ordem de Odoacro (434-493), o chefe dos Hérulos. Com a derrocada do império em 476, a Itália transformou-se numa amálgama de reinos germânicos, enquanto no Oriente se mantinha de pé o Império Romano do Oriente, herdeiro do antigo Império Romano.
Em 481, Clóvis, neto de Meroveu, o fundador da dinastia merovíngia, proclamou-se rei dos Francos, inaugurando um reinado de 30 anos, durante o qual conseguiu impor a sua autoridade perante todas as tribos francas. Na sua escalada pelo poder, Clóvis viu-se obrigado a combater os galo-romanos, os Visigodos e os Burgúndios. Em 496, em Tolbiac, saiu vitorioso sobre os Alamanos, e, em seguida, fixou a sua capital em Paris. Clóvis converteu-se ao cristianismo e o seu exemplo foi seguido pelo seu povo. Tal facto conduziu a uma forte ligação entre a Igreja Romana e a Gália.
Poucos anos depois, o Ocidente regista a ascensão de outro importante chefe "bárbaro": Teodorico (454-526), rei dos Ostrogodos. Este povo, expulso da Península Balcânica, vai rumar até à Itália, onde se imporá, beneficiando das derrotas do chefe hérulo, Odoacro. Os Ostrogodos, comandados por Teodorico, tornar-se-ão, durante vários anos, o povo e o reino mais poderoso da Itália.
Em meados do século VI, cerca de 527, o Império Bizantino atingiu o seu auge, durante a governação de Justiniano e da sua mulher, Teodora. Neste período de 40 anos, este imperador encetou uma reforma administrativa, mandando compilar as leis do império num código que tomou o seu nome, e investiu na criação de belas obras de arte como a basílica bizantina de Santa Sofia, deixando as conquistas militares a cargo de Belisário e Narses, que reconquistaram territórios nas costas de África, na Itália e na Bética. Estas vitórias foram facilitadas pelo declínio de povos como os Vândalos e os Ostrogodos.
Em 568, guerreiros lombardos, comandados por Albuíno, invadiram a Itália, uma região muito fustigada pelos povos "bárbaros" atraídos pela velha grandeza imperial e que recentemente fora devastada pela reconquista bizantina. Os seguidores de Albuíno ocuparam a parte setentrional da Itália numa fase inicial e, posteriormente, alcançaram a região central e sul. Pavia foi a cidade escolhida para servir de capital lombarda.
Na última década do século VI, durante o pontificado de Gregório Magno (c. 504-604), deu-se início à reunificação da Cristandade ocidental, a partir da cidade de Roma. Este Papa notabilizou-se por ser um dos quatro doutores da Igreja Romana. No seu pontificado de catorze anos, apropriou-se do poder político e do título de duque para melhor combater os lombardos. Nesta época, o bispo Agostinho, mais tarde Santo Agostinho de Cantuária, dedicava-se à conversão dos Anglo-Saxões.
Noutro quadrante, nos primeiros anos do século VIII (711), as hostes berberes de Tárique, enviadas pelo emir de África, invadiam a Península Ibérica, triunfando na batalha de Guadalete.
No território peninsular, os Visigodos travavam, nessa altura, conflitos internos e externos com os Francos. Rodrigo, o rei dos Visigodos, foi apanhado de surpresa pela invasão berbere. Decidido a ir ao encontro dos invasores, envolveu-se com eles numa batalha, na qual o seu povo saiu derrotado e onde o chefe visigodo perdeu a vida. Com esta derrota extinguiu-se o reinado visigótico na Península Ibérica.
Os berberes, o povo islâmico invasor, não encontraram oposição à sua passagem por este território e, assim, facilmente penetraram na Gália. Nas imediações de Poitiers, porém, os Muçulmanos eram esperados pelos exércitos francos de Carlos Martel (c. 689-741), que os derrotaram e obrigaram a recuar para a Península Ibérica, travando o avanço árabe na Europa Ocidental.
Em 716, por outro lado, o apóstolo Bonifácio (675-754), ou Winfrido, começava a evangelização da Alemanha (então Germânia), uma tarefa para a qual foi incumbido pelo Papa Gregório II. Pepino, o Breve, pai de Carlos Magno, o futuro rei dos Francos e "imperador dos romanos", também pediu a sua colaboração para reformar a Igreja franca. Bonifácio foi, depois, nomeado bispo da Mogúncia e veio a perecer com 50 cristãos num martírio na Frísia (Norte dos Países Baixos).
Na Península Ibérica, por volta do terceiro decénio do século VIII (c. 737), estava em formação o reino das Astúrias, um território onde se refugiaram os cristãos e a partir do qual desferiam uma guerra de guerrilha, a partir das montanhas, contra os Muçulmanos. Pelágio, um descendente, ainda que afastado, do último rei dos Visigodos, comandava este grupo de cristãos que, paulatinamente, foi formando um reino nas terras reconquistadas da Ibéria.
Este movimento de reconquista foi alastrando ao longo do período alto-medieval. Outros reinos, como o de Castela, do Cid, o Campeador (morreu em 1099), foram aparecendo posteriormente.
Pepino, o Breve (c. 714-768), rei dos Francos, filho de Carlos Martel, inaugurou, em 751, a dinastia carolíngia. Este monarca, cognominado de o Breve devido à sua baixa estatura, foi um fiel aliado da Igreja Romana, tal como o seu sucessor, Carlos Magno. Por duas ocasiões, de facto, os Francos lutaram e venceram os Lombardos, em defesa do papado (754 e 756).
Na sequência destas duas batalhas, Pepino entregou à Igreja as terras conquistadas aos Lombardos, e que viriam a constituir as bases dos estados pontifícios.
Carlos Magno (c. 742-814) tomou o lugar de Pepino, o Breve em 768, dando início a um reinado de 45 anos, durante os quais liderou cerca de 50 expedições militares para conseguir aumentar o seu reino, dominar o Ocidente e auxiliar a Igreja. Em 774, passou os Alpes e foi derrotar os Lombardos, partindo de seguida para a Itália Central. As suas campanhas na Península Ibérica, controlada pelos Muçulmanos, não foram, no entanto, bem sucedidas, vindo a sofrer uma pesada derrota em Roncesvales, em 778, episódio imortalizado na Canção de Rolando. Este desastre foi compensado, todavia, por gloriosas vitórias, como a campanha da Germânia.
No dia de Natal do ano 800, Carlos Magno foi coroado imperador, em Roma, pelo Papa Leão III, dando início à formação de um império construído à imagem e semelhança do Império Romano do Ocidente. Este vasto império, com capital em Aix-la-Chapelle (atual Aachen), ocupava os atuais territórios da França, da Bélgica e da Holanda, parte da Alemanha, Itália e Espanha, e manteve-se sempre fiel à Igreja católica.
Carlos Magno foi reconhecido como imperador, no seu tempo, pelo imperador de Bizâncio e pelo califa de Bagdad. Para a História fica como um dos fundadores da civilização medieval ocidental.

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