Reinos Germânicos do Ocidente Peninsular

Dos povos germânicos vindos do Norte e que invadiram a Península no início do século V dois irão desempenhar um papel muito importante neste território: os Suevos e os Visigodos. A chegada dos guerreiros germanos vem na sequência da pretensão de Constantino III em dominar toda a Hispânia a partir da Gália, rivalizando com Gerôncio, que por seu turno recorreu ao auxílio de forças externas para poder também governar a Gália. Os dois rivais acabaram por não conseguir os seus intentos, pois foram vencidos por Máximo, que pacificou a Hispânia. Os "bárbaros" instalaram-se então no território, tomando as cidades e espalhando um clima de violência.
Os Suevos estabeleceram-se em 411 no Norte da Península - Bracara Augusta (Braga), Aquae Flaviae (Chaves), Portucale (Porto), Lamecus (Lamego) e Tui -, tendo por vizinhos os Vândalos Asdingos, que ficaram com a parte oriental da Galécia. Nas cidades, mais fortemente romanizadas e protegidas, a penetração de suevos e vândalos foi mais difícil, mas nas zonas rurais a situação era bem diferente, pois constituía território mais vulnerável, sendo, por isso, alvo de total destruição e saque à chegada dos invasores.
Livres dos Vândalos Asdingos em 429, quando estes se transferiram para o Norte de África, os Suevos construíram um reino que teve o seu período mais brilhante no século V, época de consolidação entre 430 e 456. O convívio dos suevos com os hispano-romanos, mais propriamente com os galaico-romanos e com um sem-número de estrangeiros - gregos, sírios, egípcios, judeus, etc., detentores de um comércio muito ativo - foi relativamente pacífico após a negociação de paz entre os povos efetuada pelo bispo galaico-romano Idácio, depois de 431. A partir de 438, iniciaram a sua expansão, quando Réquila invadiu a Bética e assolou algumas cidades da Lusitânia como Mérida e Mértola e depois Sevilha. Réquila dominaria este território até 446. No entanto, os feitos militares não tiveram grandes resultados futuros devidos a uma má administração das conquistas e a uma falta de efetivos para manter os territórios conquistados. Preferiam dar mais atenção aos saques e aos despojos de guerra do que promover um programa eficaz de povoamento e ocupação das terras, com melhores resultados a longo prazo.
Apesar de em menor número, durante muito tempo combateram com o outro povo germânico, que também se estabelecera no mesmo território pela mesma época - os Visigodos. Estes mostravam um maior avanço civilizacional e rapidamente atingiram o Império Suevo com a penetração na Galaécia, em 455, e a tomada de Bracara, em 456, sob Teodorico II, tendo o rei Requiário sido aprisionado e morto.
O Império Romano nunca se conformou com a perda dos territórios da Hispânia e não desistia de encontrar uma solução para os reaver. A chegada do exército dos visigodos ocorre na sequência de um pedido de auxílio por parte dos hispano-romanos da região de Tarragona e Lérida, como forma de acabar com a opressão dos suevos e do não cumprimento de um acordo estabelecido por Requiário, quando atacou o território da província romana designada de Cartaginense. Constitui também uma manobra estratégica de o imperador romano vir a dominar novamente a Hispânia.
No entanto, este episódio não precipitou o fim dos suevos, pois um novo período foi iniciado por Maldras, ocupando territórios partilhados com os visigodos. Maldras matou Agiulfo, o rei suevo nomeado por Teodorico II, e tomou o poder. Como não foi reconhecido por todos os suevos, originaram-se divisões dentro do reino. Após o seu assassinato, o reino cai na anarquia, arruinando-se os campos e as cidades. Combateram contra os visigodos apoiados pelos hispano-romanos entre o período de 457 e 469. Após este período, perderam a importância que detinham, restringindo-se aos territórios do Norte: Galaécia e os bispados de Veseo e Conímbriga. Os visigodos iam-se destacando tendo como aliados os já mencionados hispano-romanos e os galaico-romanos.
Não se podem ignorar os conflitos religiosos que tiveram lugar entre os povos germânicos e entre estes e as comunidades cristãs que já se encontravam implantadas no território, pelos menos a partir de meados do século III. Na altura do ataque bárbaro estas comunidades eram ainda muito vulneráveis e estavam confinadas principalmente às cidades, pois os campos manifestavam um forte apego à idolatria, superstições e manifestações pagãs. Religiosamente, os Suevos eram pagãos posteriormente convertidos ao cristianismo. Requiário converteu-se em 448, denotando uma assimilação da cultura latina. Destaca-se a excelente organização eclesiástica de que dotaram o reino com a fundação de dioceses, sendo as mais importantes a de Bracara e de Lucus. Faziam frente aos visigodos, que mantinham um arreigado arianismo, ao qual se converteu o filho do rei Maldras, provavelmente como forma de manter o seu reino.
Vai caber a Remismundo a unificação do poder. Teodorico II propõe outro chefe para os Suevos em 464, desta vez Remismundo, que, através do casamento com uma mulher visigoda, formaliza a aliança suevo-visigótica. A sua maior expressão foi a conversão dos suevos ao arianismo, mas esta aliança no entanto, teria um fim próximo. Embora os suevos continuassem a combater os visigodos no Sul, as escaramuças não tinham grande expressão e confinaram-se a territórios do Norte. Sensivelmente a partir de 469, a implantação dos dois povos estabilizou-se: os suevos dominavam a Galécia e a Lusitânia setentrional e os visigodos a Bética e a Lusitânia meridional.
A partir de 470, verificou-se uma progressiva hegemonia do povo visigodo, primeiro sob o reinado de Eurico (466 a 484), irmão de Teodorico, e depois durante o reinado de Alarico II, a partir de 484. Foi durante o reinado deste último, que os visigodos se estabeleceram de uma forma expressiva na Hispânia, abandonando a Gália para os Francos. Contrariados, os suevos foram restringidos a uma pequena área constituindo uma espécie de protetorado visigótico. Alarico II, filho de Eurico, destacou-se pela vontade de assimilação da cultura romana, visível através do ato de promulgação da Lex Romana Visigothorum, que esteve na base do código jurídico em vigor até ao século XIII, e da reconciliação com os bispos católicos.
Com a morte de Alarico II, na guerra com os francos na batalha de Vouillé (507), o reino visigótico estava na iminência de se extinguir não fosse a intervenção de Teodorico, o Grande, rei dos Ostrogodos, que entregou a coroa ao seu neto Amalarico. Confiou também a chefia do exército aos ostrogodos que casaram com mulheres visigodas. Desta forma, Teodorico exercia um protetorado ostrogodo sobre os visigodos na Hispânia. Com a morte de Teodorico, em 526, verificou-se um período de instalibidade que Amalarico não conseguiu resolver. Também os Ostrogodos respeitaram a cultura hispano-romana, o clero e os membros da autoridade civil. É neste período que se verifica uma crescente atividade da Igreja hispânica com a realização de concílios, o desenvolvimento da cultura escrita e a construção de mosteiros e basílicas. Apesar de professarem o arianismo, os Visigodos deram liberdade de ação aos bispos católicos.
Lentamente, os Visigodos consolidaram a sua autonomia, pois Amalarico, que governou até 531, conseguiu a restituição do tesouro régio que estava em Ravena e procedeu ao repatriamento dos soldados ostrogodos. A autonomia total relativamente aos Ostrogodos foi conseguida em 549 com a eleição de Águila, que tenta estabelecer-se no Sul, ação dificultada pelos hispano-romanos, suevos e bizantinos.
É durante o século VI que se destaca a figura de um monge húngaro oriundo da Panónia no estabelecimento da Fé Católica entre os povos bárbaros, principalmente entre a elite dirigente, numa primeira fase, atingindo posteriormente as restantes camadas sociais - Martinus, depois São Martinho de Dume. É através da sua ação que o rei Carrarico dos suevos se converte ao cristianismo, cerca de 550. Fundou em Dume um mosteiro segundo a tradição oriental, reorganizou a Igreja sueva e deixou vários escritos de combate às superstições que se verificavam nos campos e à heresia priscilianista. Quando morreu, em 579, era bispo de Braga.
Até ao reinado de Leovigildo, o reino visigótico estava enfraquecido política e economicamente, devido ao agravamento das lutas entre cristãos tradicionais e arianos.
Nada se sabe relativamente aos suevos em datas posteriores a 550 e a antes de 469. É provável que a sua fronteira territorial, que ia até Coimbra e Idanha, não tenha sofrido alterações. Voltam a entrar em conflito com os visigodos governados por Leovigildo, que iniciou o seu reinado em 570. É este novo rei dos Visigodos que, associando ao trono os seus dois filhos Recaredo e Hermenegildo, inicia uma série de campanhas de conquista acabando por unificar toda a Hispânia sob o seu cetro. Tem lugar uma época brilhante de florescimento cultural e de desenvolvimento do cristianismo. A partir de 580, o clero acabaria depois por entrar em controvérsia com os arianos.
O príncipe Hermenegildo casa com uma princesa cristã (579), passa a governar a Bética e converte-se ao cristianismo, distanciando-se assim da política de seu pai Leovigildo, provocando reações por parte dos arianos. Este ainda tentou uma conciliação das partes em conflito mas sem sucesso. Hermenegildo mostrou-se intransigente e pede auxílio aos suevos e aos bizantinos. O conflito resultou na morte de Miro, rei dos Suevos (582), e na prisão e assassinato de Hermenegildo (585). Vitorioso, Leovigildo aproveitou para finalmente anexar o reino suevo ao visigótico, propósito que já tinha em mente quando, em 576, atacou o rei Miro.
Os suevos passaram a viver sob o domínio visigodo, assegurado pela presença do seu exército. Foram confinados ao território da Galécia e os bispos de Lugo, Tui, Porto e Viseu converteram-se ao arianismo. A partir desta altura, cai o silêncio sobre este povo, fruto do processo de assimilação no seio do reino visigótico. Por sua vez, os Visigodos convertem-se ao cristianismo por decisão de Recaredo, entre 585 e 589, colocando fim às querelas religiosas.
Relativamente ao reino suevo, o reino visigótico parece ser mais evoluído, quer no tocante à cultura, quer no que respeita às instituições sociais e políticas. No entanto, esta visão poderá ser fictícia apontando-se as seguintes razões: os Visigodos eram, de facto, os mais romanizados, mas mantiveram, acima de tudo, o seu carácter guerreiro; enriqueceram à custa da apropriação de territórios, dos bens inerentes e dos impostos cobrados; exerceram uma autoridade baseada no uso da força e da riqueza acumulada; serviram-se de leis hispano-romanas; respeitaram o clero e aproveitaram os seus conhecimentos; continuaram a tradição artística e cultural já enraizada de feição hispano-romana, pouco trazendo de novo. A ideia de que o período visigótico é brilhante foi difundida e sustentada por clérigos e monges. Os códices legados às gerações posteriores, contendo regras do direito civil e canónico e os textos litúrgicos foram ciosamente guardados pelo clero. No entanto, todos eles são cópias de textos elaborados pela elite hispânica anterior à sua chegada. Relativamente às estruturas administrativas, tanto Suevos como Visigodos não trouxeram qualquer novidade com a continuação da divisão em civitas, territorium e conventus, que iriam depois desaparecer. Os visigodos assumem portanto o papel de imitadores de uma cultura que não era a sua.
A partir de 586, a seguir à morte de Leovigildo, toma lugar no trono o seu filho Recaredo, cujo reinado (até 601) irá marcar o último período de esplendor da monarquia visigótica. O rei converteu-se ao cristianismo em 589 juntamente com os bispos arianos, fazendo cessar os conflitos religiosos. Com o fim do seu governo emergiu uma acentuada crise política coadjuvada por calamidades e pestes que enfraqueceram o reino durante um longo período (601-642). Ainda se conseguiu recuperar algum esplendor entre os anos da governação autoritária de Quindasvinto (642 a 655) e de Recesvinto (655 a 672). Após a morte deste último, e sob o cetro do rei Vamba, o reino visigótico entrou numa conjuntura de crise política, decadência administrativa, crise social com a luta entre fações da nobreza, crise económica motivada pela desarticulação do comércio e da produção e crise populacional que viu o seu número drasticamente diminuído pelas pestes e fomes. O reino caminha irremediavelmente para o fim, que ocorre quando já não consegue suster o avanço muçulmano (711 a 714) que o destrói.
Vitiza, rei dos Visigodos, morreu em 710 e surgem dois candidatos ao trono: Rodrigo (ou Roderico) e Áquila. A divisão dos nobres no apoio ao sucessor do trono implicou o pedido de intervenção do exército muçulmano por parte de Áquila. Foi pela ação de Tarique ben Ziyad que Rodrigo foi derrotado, o que constituiu a oportunidade para a infiltração dos muçulmanos no reino visigótico. Conquistaram Toledo, apoderaram-se do tesouro régio e impediram a eleição de Áquila, embora lhe concedessem os domínios do fisco. Depois, foi a vez de Musa ben Nusayr atacar Medina-Sidónia, Sevilha e Mérida numa primeira campanha. Posteriormente, reúne-se a Tarique em Toledo e conquistam Saragoça, Burgos, Leão, Astorga, Lugo e Viseu numa segunda campanha. Abd al-Aziz, filho de Musa, ocupava os territórios da Lusitânia - Évora, Santarém e Coimbra, em 714. Acabavam os reinos germânicos do Oeste peninsular.
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