religião

A palavra "religião" deriva do latim religare, religar, voltar a ligar.
Só se pode falar em religião, estritamente, quando aparece uma organização complexa, espiritual e social, com base numa revelação de Deus.
Por isso, é possível falar de espírito religioso antes ainda de falar de religião propriamente dita, na medida em que o homem primordial vivia permanentemente perante o sagrado.
A religião é, antes de mais, uma atitude do ser humano perante o mundo e os outros e que pressupõe Deus; uma atitude que implica o homem em todas as dimensões e compromete toda a sua vida.

O adepto de uma religião procura religar-se a Deus.
Contudo, este ato implica algo mais do que o meramente humano, pois nenhuma religião tem origem propriamente humana, já que não há religião se não houver revelação, sendo esta dada por um intermediário; é este o caso dos profetas no Judaísmo, no Cristianismo e no Islamismo, e é este o caso dos diferentes mestres do Taoísmo ou dos lamas no lamaísmo.

O Budismo e o Taoísmo nas suas origens estavam longe de poder ser considerados religiões, na medida em que se limitavam a um pequeno número de eleitos capazes de seguir as doutrinas do mestre; a divulgação das doutrinas secretas era até considerada nefasta, contudo, foi apenas quando os símbolos de que estas doutrinas se serviam foram interpretados num sentido meramente exotérico, que se converteram em religião para todos.

Todas as religiões têm um lado esotérico e outro exotérico: o primeiro está, ou devia estar, reservado aos sacerdotes e o segundo está destinado a todos os crentes. Uma coisa é participar num rito religioso, outra é perceber a sua dimensão interna, a sua razão de ser.

Pesem muito embora as divergências doutrinais das diferentes religiões, é possível falar em religião, no singular, na medida em que todas elas pressupõem uma determinada atitude do crente face a Deus (e isto mesmo quando se concebe Deus de modo radicalmente diferente): a experiência universal que é a inefável vivência do sagrado.

Com efeito, por muito que se tente estudar a religião como um fenómeno, ela permanece sempre envolvida por uma aura de mistério que só aquele que a vive e a ela adere pode saber e saborear.

Praticamente todas as grandes religiões têm o seu fundador bem definido: Cristo para o Cristianismo, Maomé para o Islamismo, Buda para o Budismo e Lao-Tsé para o Taoísmo.

Cada um deles é um ser eleito que tem por missão regenerar formas arcaicas de religião e dar-lhes um novo impulso, concedendo-lhes um novo espírito. Os textos que eles deixam escritos ou que os seus discípulos registam são considerados sagrados, são tidos como a própria palavra de Deus.

A partir deles os fiéis têm o código segundo o qual podem orientar a sua vida para o sagrado, para o transcendente, numa palavra, para Deus. O primeiro objetivo de uma religião é o de fornecer aos homens os meios para a sua salvação após a morte.

O espaço e o tempo sagrados são completamente diferentes do espaço e tempo profanos, os primeiros são cíclicos e qualitativos, os segundos são lineares e quantitativos (é o espaço mensurável pelo metro ou o tempo mensurável pelo relógio).

Para um homem realmente religioso entrar num templo é entrar efetivamente num espaço e num tempo diferentes, assistir a um ritual religioso é participar do sagrado que naquele momento se manifesta, é viver a teofania e reatualizá-la.

O calendário litúrgico decorre segundo um ciclo que a cada domingo renova o momento primordial que foi para o cristão a morte e ressurreição de Cristo, a cada ano se repete o seu nascimento, a sua morte e a sua ressurreição, como que acontece novamente essa entrada do eterno na temporalidade, da transcendência na imanência.

O crente de qualquer religião, ao entrar no templo abandona a sua vida profana e assume-se como outro, repete os gestos e as orações que vêm desde tempos imemoriais e que permitem por algum modo misterioso a sua salvação.
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