Renascimento das Cidades (sécs. XI a XIII)

O ressurgimento demográfico verificado ao longo dos séculos XI a XIII possibilitou, simultaneamente, uma ocupação mais efetiva dos campos e um desenvolvimento considerável das cidades e das atividades citadinas. Henry Pirenne criou uma teoria sobre este desenvolvimento acentuado das cidades neste período histórico, reanimado após um longo adormecimento que se arrastou depois da queda do Império Romano. Para este autor, o desenvolvimento foi gerado a partir do nada, na segunda metade do século X, pois antes desta data os mercados não tinham grande importância económica e as populações viviam sobretudo do pequeno comércio de trocas a nível local. Por outro lado, os burgos edificados para as populações se protegerem dos Vikings também não tinham um papel económico relevante, sendo meramente defensivos.
Para Pirenne, o ressurgimento do comércio no século X foi o motor do desenvolvimento das atividades urbanas e, portanto, das próprias cidades. Grupos de mercadores ter-se-iam fixado no seio destas, perto das cidadelas pré-normandas, do burgo, da fortaleza feudal ou das abadias. Foi fora daqueles núcleos que estes mercadores fundaram o portus, a futura cidade.
Segundo o mesmo autor, na Flandres e na Inglaterra este nome é originário dos habitantes do porto (poortenson ou portmen), que tinha o mesmo significado que burguês (homem do burgo), uma designação adotada mesmo antes do final do século XI.
O alargamento do sentido da palavra burgo compreende-se pelo facto de este novo núcleo chamar a si o protagonismo. A sua importância é comparável à do arrabalde, gerador do desenvolvimento das cidades modernas.
Esta análise pode aplicar-se, na visão de Guy Fourquin, à região flamenga, de onde foi construída esta teoria, embora se deva considerar que alguns portus possam datar do período carolíngio ou pré-carolíngio. Contudo, esta teoria negligencia o papel dos condes da Flandres, que no século XI fundaram castelos e colegiadas, dois polos de desenvolvimento das cidades. Mas esta teoria também pode ser válida para as cidades de países novos, como as cidades hanseáticas do Norte da Alemanha. De qualquer modo, Henry Pirenne alargou abusivamente este termo e este processo a todo o continente. Abusivamente porque ele de modo algum pode abarcar, por exemplo, os burgos ou os wicks anglo-saxónicos, zonas onde apenas se constituíram núcleos pré-urbanos, já que as cidades só apareceram após a instalação do reino normando. E também há que ter em consideração que o desaparecimento das cidades resultante das invasões bárbaras foi quebrado nalguns casos por cidades que foram permanentemente povoadas desde os tempos dos carolíngios ou até dos merovíngios. Fica assim comprometida a teoria do desaparecimento urbano pós-Império Romano.
Portanto, há também bastantes casos de mercadores que apareceram antes do século XI. Pirenne fala-nos do renascimento comercial como a base de todo este desenvolvimento citadino, mas esquece um fator muito importante: no século XI deu-se uma evolução na condição das populações rurais e dos camponeses, que beneficiando dos avanços técnicos dos séculos XI e XII se tornaram mais móveis, instalando-se alguns deles nas cidades.
Mas também podemos assinalar potencialidades e pistas de estudo e reflexão na teoria de H. Pirenne. Foi o primeiro a assinalar que, nalguns casos, o grande incentivo do desenvolvimento das cidades medievais partiu dos comerciantes, que de início tinham uma vida de nómadas. Este autor teve ainda o mérito de destacar a função económica da cidade medieval e de evidenciar o mercador e o papel do mercado como elementos de atração de fixação urbana, para além de demonstrar a importância dos grandes mercadores que assumiam uma função preponderante na cidade, distanciando-se dos pequenos comerciantes e dos artesãos. Apesar disso, assinale-se que o comércio não foi tão grandioso em todas as cidades como na Flandres.
Na Europa ocidental, na Inglaterra e na Alemanha do Norte a população dispersa era dominada por proprietários fundiários, que até ao século X desconheciam as cidades. Nestes locais existiam wicks, ou seja, pequenos povoados que forneciam pontos de apoio para os mercadores, que entretanto se organizavam em associações profissionais.
No Sudoeste da Europa, por outro lado, manteve-se muito forte a tradição romana e aqui é frequente a junção da nova colónia mercantil com o antigo castrum ou a civitas, como aconteceu, de certa forma, no Porto. Nas zonas mediterrânicas não há nem a relação castrum/civitas nem a do burgo/portus. Aqui, houve sim uma manutenção da civitas, pois os nobres e os membros do clero continuaram a residir nestas localidades centrais. Houve, assim, a persistência de uma elite urbana, que ajudou a manter as cidades, e teve desse modo uma grande relevância neste processo, idêntica à dos mercadores, que se multiplicaram a partir do século XI. Mesmo antes desta centúria, as atividades urbanas e as elites estavam aqui, no Sul da Europa, concentradas e mais bem enraizadas do que noutros locais.
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