República (obra)

Esta volumosa obra pertence aos escritos platónicos ditos da maturidade, juntamente com o «Fédon», o «Fedro» e o «Banquete». Foi redigido provavelmente ao longo de muitos anos, abarcando o período que vai de 384 a 410 a. C. Tem a forma costumada de diálogo, forma essa que Platão, influenciado pelo seu mestre Sócrates, privilegiava para a aquisição do conhecimento inteligível e verdadeiro.
Esta obra divide-se em dez livros, dos quais se considera o primeiro um "proémio", conforme é dito no livro segundo, e o décimo um apêndice. Sócrates é o condutor deste diálogo que decorre no Pireu em casa de Polemarco, filho e herdeiro de Céfalo e irmão de Lísias, estudante de retórica, e Eutidemo. Também estão presentes Carmantidas e Clitofonte, Adimanto e Gláucon, estes dois últimos irmãos mais velhos de Platão, Nicérato e Trasímaco da Calcedónia, sofista.
Antes de tudo a «República», que habitualmente leva o subtítulo «Da Justiça», trata do homem e da sociedade, das relações entre eles, e da cidade justa, ideal e perfeita. Como se pode observar desde logo pelo título, a vastidão dos assuntos tratados é imensa, porque embora Platão ambicione refletir sobre tudo o que está relacionado com a vida pública, depressa terá de passar a refletir sobre o homem em si mesmo, base das relações sociais pelas quais se estabelecem as diferentes cidades com seus sistemas políticos.
A cidade é aqui tratada como um "organismo espiritual" (assim lhe chama Alexandre Koyré num livro intitulado Introdução à Leitura de Platão) em grande escala e analógico ao homem. A cidade e o homem são tratados na mesma relação que o macrocosmos tem com o microcosmos. Mas a «República» abarca uma vastíssima área de temáticas: as origens da cidade, a teoria política e as origens de cada forma de governo, a psicologia, a teoria das ideias e a teoria da educação (e a listagem não é completa?). Em qualquer destes assuntos é sempre de filosofia que se trata, é sempre aquela busca impulsionada pelo amor ao saber.
Breve resumo dos livros:
- O livro I serve de "proémio" e procura apresentar as personagens intervenientes e definir o que é a justiça, indo Sócrates sucessivamente refutando as definições propostas pelos seus interlocutores.
- No livro II prossegue a tentativa de definição da justiça que tinha ficado em aberto no livro anterior. Para melhor analisar esse conceito generaliza-se do indíviduo em particular para a cidade em geral, iniciando-se aqui a descrição do seu nascimento e evolução. Começa, então, uma crítica à educação ateniense que ensinava através dos maus exemplos dos deuses do Olimpo (como sejam a sua forma de relacionamento interceira, mesquinha e caprichosa) e uma apologia da educação pela música e pela ginástica.
- No livro III continua a teoria da educação.
- O livro IV trata sobretudo de psicologia, através de uma analogia entre as classes sociais da cidade perfeita e os elementos de que se compõe a alma humana. Começa-se por demonstrar como na cidade perfeita as quatros virtudes fundamentais estão presentes: os guardiões são a expressão da sabedoria, os guerreiros da coragem, a temperança está presente na relação harmónica que se estabelece entre as diferentes classes e a justiça está patente no facto de cada um cumprir a sua função e de essa função ser aquela para a qual a sua natureza se inclina espontânea e livremente. Na cidade, diz-se, deve haver três classes: guardiões, guerreiros e artífices. Desta análise em grande escala passa-se, então, por analogia, à análise do indivíduo, cuja alma se reparte também em três elementos: a razão (que deve presidir), as emoções (que devem assistir) e os apetites (que devem obedecer).
- O livro V explica uma referência no livro anterior às mulheres que, segundo Platão, sendo geralmente mais fracas do que os homens, tanto física como intelectualmente, podem ocupar cargos elevados de governo e até de guerreiras. Neste livro argumenta-se que o governo deve estar nas mãos do sábio, e o sábio por excelência é o filósofo, partindo então à procura da definição de filósofo (amigo do saber), que se opõe a filódoxo (amigo da opinião).
- No livro VI expõe-se a Teoria das Ideias para fundamentar a afirmação de que é o filósofo que deve ser o rei da cidade perfeita, pois ele é o único que contempla e conhece o imutável, ao passo que todos os outros não conhecem senão o mundo transitório das aparências. Trata-se de delinear a educação do filósofo. Aqui se relata o mito do Sol (como metáfora da ideia suprema de Bem) e o da Linha Dividida, expondo através de uma imagem geométrica a hierarquia entre o mundo sensível e o inteligível.
- O livro VII trata da teoria da educação relacionada com a Teoria das Ideias através do mito ou alegoria da Caverna, que explica o papel da educação e da Filosofia na condução das almas desde o mundo de trevas em que vivem prisioneiras até à luz do mundo inteligível.
- O livro VIII explica a origem das diferentes forma de governo.
- O livro IX continua o anterior e demonstra como o filósofo se deverá guiar sempre pelo arquétipo da cidade ideal, quer ela seja ou não possível de realizar no mundo sensível pois o que lhe serve sempre de modelo é o mundo inteligível, para o qual todo o seu comportamento se deve a todo o momento orientar.
- Finalmente, o livro X aparece como uma espécie de apêndice em que se trata da poesia e da sua condenação para fora da cidade perfeita. Conta-se também o mito de Er, um soldado que morrera em batalha, mas que regressa ao seu corpo após doze dias de uma viagem em que percorre o outro mundo e vê o modo como a justiça aí se realiza.
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