Revolução Cubana

Conquistada a independência em relação ao domínio colonial espanhol, em 1898, Cuba depressa entra na esfera de influência económica e política dos Estados Unidos. Cada vez mais um espaço de monocultura do açúcar, a ilha assiste à americanização crescente da sua economia: quase metade das terras de cultivo da cana e todo o complexo de refinação a elas adjacentes pertencem a empresas dos Estados Unidos. A quase totalidade do açúcar cubano era exportada para os EUA, que forneciam também mais de dois terços das importações da ilha.
Agitação política constante, miséria no campesinato e profundos atrasos estruturais afetavam a jovem república das Antilhas, nas mãos de regimes ditatoriais apoiados pelos americanos, que pela força e repressão brutal procuravam constantemente repor a ordem no país. Em 1952, regressa ao poder Fulgencio Batista, ditador cruel sustentado por grandes investidores americanos. O povo, os operários e os desempregados são gradualmente contra esta opressão tirânica, manifestando cada vez mais uma tendência anti-americana.
Aparece então em cena um jovem advogado de nome Fidel Castro, que se levanta contra o ditador, arrastando consigo movimentos estudantis, depressa tornados clandestinos. Em 26 de julho de 1953, juntamente com 120 homens, Castro ataca a caserna militar de La Moncada, em Santiago de Cuba. Fracassa e é preso. Defende-se ele próprio no julgamento, pronunciando a certa altura: A História me absolverá. Em 1955, ele e outros sobreviventes do denominado Movimento 24 de julho são amnistiados, exilando-se no México. Ali Fidel conhece um jovem médico argentino que para sempre ficará ligado ao seu projeto revolucionário: Ernesto Guevara, dito Che. Esta dupla, com muitos outros exilados cubanos, treina-se para a guerrilha sob a orientação de um antigo combatente da Guerra Civil de Espanha. Em 26 de novembro de 1956, Castro e 81 homens, a bordo do Granma, navegam rumo a Cuba. São, contudo, intercetados e poucos chegam a Cuba (apenas 13, incluindo Castro). Refugiam-se entretanto na Sierra Maestra (montanhas no sudeste da ilha), de onde lançam a partir de 1958 ataques a Batista e aos interesses americanos. Vários eram, porém, desde 1956, os atentados contra estes. Aproveitando este clima, Castro depressa ganha o apoio das massas populares e enceta uma luta de guerrilha, a par de ações de resistência urbana. O descrédito e a impopularidade de Batista aumentam, originando um afastamento prudente dos EUA ao seu regime totalitário, ainda que o seu embaixador, Earl Smith, apoiasse o ditador, talvez sob pressão de interesses americanos. Os intelectuais e a classe média enfileiram cada vez mais no exército guerrilheiro de Castro. Apesar da contraofensiva de Batista na Sierra Maestra contra a guerrilha, em finais de 1958 Castro está já às portas de Havana, encetando, no Natal, uma grande ação militar contra o regime. A 1 de janeiro de 59, entram os guerrilheiros vitoriosos na capital. A 2 de janeiro, Urrútia, camarada de Castro, é por ele proclamado presidente da República, enquanto o grande líder percorre a ilha triunfalmente difundindo a Revolución, entrando mais tarde em Havana, já depois do reconhecimento americano. Sucedem-se prisões, execuções e exílios em massa.
Nos primeiros tempos da Revolução Cubana, esta afigura-se como "humanista", englobando marxistas, nacionalistas de esquerda, liberais e muitos outros quadrantes políticos. Castro era, contudo, um radical reformista, nacionalista, com objetivos ambiciosos, talvez imprecisos. Ainda que tenha lutado pela unidade da Revolução, Castro, por sua mão ou não, vê prestigiadas figuras da Revolução afastarem-se (Urrútia, Matos, Diaz Lanz...), ainda no primeiro ano no poder, antes mesmo do episódio da Baía dos Porcos. No prosseguimento das suas medidas revolucionárias, Castro, nomeado primeiro-ministro em fevereiro de 59, tenta elaborar um programa capaz de levantar as energias cubanas e apela mesmo ao sacrifício.
Depois dos choques com os EUA, também relativamente às cotas de açúcar, Castro, para além de uma revisão das relações com aquele país, opta por superar a monocultura açucareira e tenta diversificar a economia cubana. Entretanto, a URSS torna-se a principal compradora do açúcar da ilha, iniciando-se então uma progressiva aproximação política entre os dois países, que levou à prestação de auxílio económico e tecnológico por parte dos soviéticos. Castro explorará esta conjuntura com algum sucesso, provocando a crescente ira dos EUA, à qual responde com uma solidariedade de todo o povo cubano contra aquele país.
O antiamericanismo, perigoso para os interesses económicos dos EUA na ilha, a par de uma evolução socialista da Revolução, levará os americanos a tentar enfraquecer o regime castrista, através de sanções económicas e da diminuição das importações de açúcar. Cuba responde com as nacionalizações de 368 empresas americanas, entre as quais numerosas plantações e refinarias de açúcar e até a companhia de telefones: em valores da época, o prejuízo ascende a mais de 800 milhões de dólares. Está-se em 1960 quando começa o embargo americano à ilha. Em 1961 dá-se a rutura diplomática. O carácter socialista da Revolução Cubana começara a desenhar-se desde a Reforma Agrária (com a expropriação dos grandes proprietários e a constituição de herdades estatizadas e cooperativas) à luta contra o desemprego, para além do antiamericanismo crescente.
Após o fracassado desembarque de exilados cubanos nos EUA, treinados pela CIA, na Baía dos Porcos, bem como de alguns bombardeamentos americanos em Cuba, Castro, nesse ano de 1961, proclamará o carácter socialista da Revolução, apelando mesmo aos trabalhadores para se levantarem "contra o inimigo da classe", o capital "aliado ao imperialismo yankee". Declarar-se-á mesmo marxista-leninista desde sempre, o que é falso. A sua popularidade é cada vez maior, sendo mesmo considerado um Messias em Cuba. A transformação nacional segundo o modelo soviético avança, entretanto, com Castro a procurar cada vez mais no Partido Comunista Cubano, seu aliado na Revolução, apoio organizativo e político para a socialização e a planificação da economia cubana, então já liberta da influência dos EUA. Radicaliza-se a Revolução, através de nacionalizações, da coletivização, para além da industrialização e alfabetização da sociedade.
Em 1962, no fervor da aliança com a URSS, Cuba lança o pânico nos EUA e está iminente um conflito entre as superpotências atómicas, o que conduz a uma alteração da paz mundial, cimentando-se o clima de Guerra Fria: trata-se da instalação dos mísseis soviéticos na ilha, a 150 km da costa americana, que causa profunda indignação e alarme em Washington. Retirados os mísseis, o mundo respirou de alívio.
Os EUA consideravam Cuba "perdida" para a URSS. Por seu lado, a Revolução Cubana perderá todo o seu romantismo, originalidade e proselitismo, ganhando, porém, em capacidade de resistência e permanência na condução do povo de Cuba. Com a entrada definitiva na órbita soviética e perante o domínio dos comunistas do governo de Castro, este entra lentamente na célebre "batalha da produção", endurecendo o regime de forma a evitar fugas e esboroamentos no seu projeto, mesmo com miséria, isolamento e crises. Che Guevara partirá em 1969, na mira de criar mais "Cubas" noutros pontos do mundo, sempre fiel a Castro e à Revolución. Tornar-se-á, para a juventude, um símbolo da luta pela liberdade e do heroísmo, incarnando o romantismo inicial da Revolução Cubana.
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