Roda da Fortuna

A imagem clássica da Roda da Fortuna é a de uma roda, na qual estão desenhadas quatro figuras, ou animais, representando os quatro elementos (ar, água, fogo e terra) e os quatro pontos cardeais. O significado simplista da Roda da Fortuna é o do destino e, consequentemente, o da mudança constante, relacionada com a vida em sociedade.
A Roda da Fortuna representa o percurso entre os altos e baixos da vida, vivida como um jogo ou um teatro, em que é questionado o sentido da existência, sobretudo da existência material ou prosaica. Esta roda tem uma face negativa, a que, no seu significado material, castiga o luxo, as riquezas e o poder e, outra positiva, a que, no seu sentido místico, é purificadora enquanto experiência de conhecimento e de evolução. Num plano mais elevado, pode representar o Livre Arbítrio, o poder de decisão e também a capacidade de transformação e de evolução.
Na Antiguidade, o destino dos homens era ditado pela Fortuna, um conceito herdado da cultura greco-romana das deusas Fortuna e Fors, ligadas à fertilidade, às mulheres, à agricultura e à providência. A deusa Fortuna, respeitada na religião romana, identificava-se com a deusa grega Tique. Figurada com o corno da abundância, quase sempre vendada ou cega, a deusa da Fortuna está representada de pé sobre uma esfera ou roda, com uma vela ou com asas, que mudam de direção segundo o vento. Na Idade Média, a Roda da Fortuna significava, por um lado, a Roda da Vida, da ascensão e da queda do homem e, por outro, a Roda do Acaso, que nunca parava de rodar, indicava a constante mutação da natureza humana.
Na arte medieval, a Roda da Fortuna era representada nas rosáceas das catedrais francesas, como na de Amiens e de Beauvais, entre outras. De notar que a Roda da Fortuna de Amiens retoma o tema do famoso manuscrito do século XII, Hortus Deliciarum, de Herrade de Lansberg, onde, em miniaturas, se observam homens que caem da Roda da Fortuna e que simbolizam as atividades profanas e o mundo ilusório. O simbolismo da Roda da Fortuna desse manuscrito é explicado pela representação das quatro personagens que representam quatro fases ou estágios: no topo esquerdo, com o braço erguido, a personagem representa a fase regnabo - "eu devo reinar"; no topo direito da roda, a figura coroada simboliza a fase regno - "eu reino"; na figura do lado direito, em queda, a fase reganavi - "eu reinei"; e na figura, na base da roda, que perdeu os favores da Fortuna, está representada a fase sum sine regno - "eu não tenho reino".
A canção Fortuna da coleção germânica de canções profanas, Carmina Burana, de autor anónimo, é dominada também pelo tema da instabilidade da Fortuna responsável pela felicidade e infelicidade dos homens.
Das obras do filósofo e místico catalão Ramon Llull (1232-1316), das quais Ars Generalis Ultima é a mais conhecida, Llull utiliza a imagem da Roda da Fortuna, na sua Doctrina Pueril, para explicar às crianças como se interligam os homens, nos seus variados ofícios, e como a roda se move porque os que estão em baixo desejam sempre subir, obrigando ao perpétuo movimento. O autor Boécio, na sua A Consolação da Filosofia, a obra mais lida na Idade Média, depois da Bíblia e da Regra de S. Bento, aproveitou a metáfora da Fortuna para criticar a nova burguesia do século XIII. Boécio e Llull utilizaram a imagem da Roda da Fortuna para exaltar a importância do tempo divino, por oposição ao tempo terrestre de apego fugaz aos bens materiais.
Significando a instabilidade permanente e o eterno retorno no plano humano, a Roda da Fortuna é, num sentido mais cósmico, um símbolo solar, é a sucessão de nascimentos e mortes através do universo e da reencarnação das filosofias orientais.
No tarô, a carta da Roda da Fortuna corresponde ao décimo dos arcanos maiores, que indica o destino e as constantes alterações da vida, a inevitabilidade. A Roda da Fortuna está também simbolizada, no budismo, pela Roda do Samsara, que simboliza o eterno ciclo da morte e do renascimento, permitindo, assim, que o espírito evolua e alcance a perfeição.
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