Roma: da Cidade ao Império

A formação do império romano foi bastante lenta, decorrendo entre os séculos V a. C. e o século II d. C., a partir da cidade de Roma. Em finais do século I a. C., o Mediterrâneo era já um "lago romano", e o Império Romano, urbano e esclavagista, alcançava o auge no século II da nossa era. No Império foram integrados povos de todo o Mundo, unidos pela ação do exército e das atividades comerciais, que transportavam consigo a língua e a cultura romanas.
A fundação de Roma diz-se ter ocorrido por volta de 753 a. C. Trata-se de uma das mais famosas lendas da história romana e será veiculada por figuras como o poeta Virgílio e o historiador Tito Lívio. Reis Silvia, filha de Numitor, rei de Alba Longa (cidade do Lácio), dera à luz dois filhos do deus da guerra, Marte: Rómulo e Remo. Amílio, irmão de Numitor e usurpador do trono, ordenou que os dois recém-nascidos fossem, no entanto, atirados ao rio Tibre. Quis o destino que fossem salvos por pastores e amamentados por uma loba, Rea, na colina do Palatino. Quando cresceram, resolveram fundar uma cidade no local onde foram encontrados, na planície na confluência das colinas de Roma. Foi Rómulo quem acabou por fundar a cidade ainda que, para isso, tenha morto o irmão, tornando-se o seu primeiro rei. Ainda de acordo com a lenda, a Rómulo sucederam: Numa Pompílio (715-673), Túlio Hostílio (673-641), que libertou Roma da dependência de Alba Longa; e Anco Márcio (641-616).
Esta cidade foi cobiçada pelos etruscos, um povo da Toscânia, que a conquistou e engrandeceu. Mais uma vez, é difícil distinguir a verdade histórica da tradição. De acordo com esta, Tarquínio, o Antigo (616-578), conquistou o Lácio e inaugurou a dinastia etrusca. A ele seguiram-se Sérvio Túlio (578-534) e Tarquínio, o Soberbo (534-510), que reinou como um tirano. De qualquer modo e ao que parece, é a ele que Roma deve a construção do templo de Júpiter, no Capitólio, e a conclusão de grandes obras públicas, como a Cloaca Máxima (rede de esgotos), junto à ilha Tiberina, no Tibre iniciadas pelos seus antecessores. O regime ditatorial deste monarca acarretaria o fim da Monarquia. Os cidadãos de Roma eram, exclusivamente, os patrícios, famílias nobres a quem o direito reconhecia todos os privilégios, civis, políticos e religiosos. Os Etruscos tudo fizeram para abater a preponderância dos patrícios; contudo, uma revolução liderada por estes e apoiada pelo exército, em 509 a. C., derrubou a Monarquia e implementou um regime republicano; o poder supremo passou para as mãos de dois cônsules e o Senado tornou-se a grande força do novo regime.
Com a República, Roma entrou numa fase de franca expansão, que conduziu à constituição de um descomunal império, espalhado por todos os cantos do Mundo por onde passaram os seus exércitos, as legiões.
A implementação da República de base patrícia acarretou a guerra com os etruscos a qual marca o início da expansão romana, que culminará com a construção do estado imperial.
No início do século IV a. C. Roma dominava o Lácio e conquistara cidades como Tusculum, Aricia e Lavinium. Em 387 vive-se um período sombrio: Roma é invadida e incendiada pelos gauleses, povo céltico, proveniente do Norte. Depois de afastado este perigo, retorna-se à expansão militar com a tomada da Campânia, da Etrúria e de outros territórios da Itália Central e Meridional. Em 290 a. C., numa altura em que o espaço romano já se estendia numa área superior a 130 mil km2, os romanos venceram as guerras Samnitas, batendo este povo de montanha, guerreiro, que cobiçava a Campânia e tinha como aliados os etruscos e os gauleses. Revelava-se, então, a organização e disciplina do exército romano que tantas vitórias lhe dariam no futuro. Em 272 cai Tarento, no Sul (na Magna Grécia), considerada a Atenas de Itália; depois dela, todas as colónias gregas do Sul da Península ficam na dependência de Roma. Completava-se, assim, a primeira fase de expansão. A cidade do Lácio dominava toda a Itália.
O próximo passo era o domínio do Mediterrâneo. A tarefa não se adivinhava fácil; havia que defrontar Cartago, poderosa cidade norte-africana de origem fenícia, detentora de um numeroso exército com cavalaria, elefantes de combate e a mais poderosa frota de guerra do seu tempo. Depois da ocupação da Sicília, os romanos lançaram-se ao assalto de Cartago, em 261 a. C. Começava a Primeira Guerra Púnica. E começava bem para o agressor: os Cartagineses são batidos no cabo Milas (260 a. C.) e nas ilhas Égatas (241 a. C). Em 241 pedem a paz. Dois anos depois, Roma anexa as ilhas da Sardenha e da Córsega. Em 218 a. C. os Cartagineses reagem. Iniciava-se a Segunda Guerra Púnica. A "dinastia" Barca, Amílcar e, sobretudo, o seu filho Aníbal instalam-se na Península Ibérica e, apesar de se terem comprometido com Roma (226) a não ultrapassar o Ebro, atacam Sagunto, aliada desta. Os exércitos romanos são clamorosamente derrotados em Canas (216) pelo génio militar de Aníbal mas, em contrapartida, uma força naval comandada por Cipião, dito o Africano, atravessa o Mediterrâneo e bate os Cartagineses em Zama (202). Acabava a Segunda Guerra Púnica, da qual ficou para a História a célebre travessia dos Alpes pelos elefantes de Cartago e pelo génio guerreiro de dois grandes rivais: Aníbal e Cipião.
O destino de Cartago estava traçado. Em 149, com o pretexto de auxiliar os seus aliados númidas, as legiões romanas de Cipião Emiliano desembarcaram em África, ocuparam e arrasaram Cartago. Cumpria-se o discurso de Catão que exortava à destruição da antiga metrópole fenícia com as palavras "Delenda Cartago", "é preciso destruir Cartago".
Por essa altura, as legiões de Roma instalavam-se na Península Ibérica, dando início a um processo de conquista que se concluiria em 133 a. C. e durante o qual se destacou a resistência dos Lusitanos, comandados, primeiro, por Viriato e, depois, por Sertório, um general romano dissidente.
Entrava-se num período de guerra civil em Roma que, no entanto, não impediu a continuidade das conquistas. Em 120 a. C., após a submissão dos Lígures, do golfo de Génova, os romanos penetram na Gália transalpina e conquistam os Alpes e o Languedoque, junto ao Mediterrâneo.
Entre 107 e 48 a. C., em termos de expansão, destacam-se as campanhas de Mário em Jugarta (África); em Aix (Cabália Oriental, hoje Aachen), contra os Teutões (102) e na Cisalpina contra os Cimbros (101); as campanhas de Sila ou Sula no Ponto Euxino, submetendo territórios do oriente até aí nas mãos de Mitridates VI (88) e submetendo a Grécia; por sua vez, Júlio César conquistou a Gália (campanha que descreve na obra De Bello Gelico - ''A Guerra das Gálias'') derrotando os Helvéticos e os irredutíveis Belgas (58-57); os Germanos (55) e os Bretões. Antes da subjugação de toda a Gália, César defrontou a insurreição do chefe gaulês Vercingetórix, que derrotou em Alésia (52 a. C.). A Gália tornava-se mais uma região romana, depois dividida em províncias.
Eentretanto, a oriente, na sequência da perseguição a Pompeu, seu rival em Roma, que se acolhera no Egito, César conquista a "terra dos faraós" e substitui a dinastia dos Ptolomeus por Cleópatra.
No ano 85 da nossa era os Romanos concluíram a conquista da Bretanha, a atual Grã-Bretanha. Na Europa estabelecia-se o Limes que se estendia de Ratisbona aos arredores de Coblença, na atual Alemanha e não muito longe da linha Reno-Danúbio. Estavam praticamente concluídas as conquistas. Com Trajano (53-117) Roma atingia o auge territorial: a fronteira do império estendia-se às montanhas limítrofes do Irão (Zagros), depois de uma série de conquistas que levaram os seus exércitos ao Danúbio (vitória sobre os Dácios entre 101 e 107 na atual Roménia); os Partos foram derrotados (114-116) e, consequentemente, a Arménia (114), Mesopotâmia (115) e Assíria (116) foram anexadas.
O povo de Roma e a sua cultura foram muito influenciados pela tradição grega, mas, ao contrário dos Gregos, os Romanos ultrapassaram o seu ideal de beleza, adotando uma mentalidade prática, empregue na vida quotidiana, na cultura e na arte.
A administração de um tão vasto império era extremamente eficiente, pois regia-se pela aplicação de um código de leis universais (Direito Romano). Não é por acaso que muitos dos códigos de leis europeus tiveram por base o direito romano. Por exemplo, a lei ou édito de Caracala, de 212, teve uma grande repercussão por todo o império romano, uma vez que concedia o direito de cidadania a todos os habitantes livres. Era a forma hábil de identificar todas as pessoas com a cidade de Roma e garantir, com isso, a unidade imperial.
Outro dos fatores originais desta civilização, que lhe conferira grande eficiência, foi uma preocupação especial com o urbanismo. Este aspeto não foi descurado, pois constituía um ponto importante na organização do império.
As cidades fundadas pelos Romanos durante o período imperial respondiam a um plano regular preconcebido, orientado racionalmente, segundo dois eixos: o cardo (N/S) e o decumanus (E/O) recebendo a influência dos acampamentos militares, que estão na origem das povoações do império. Estas eram servidas por cerca de 100 mil quilómetros de vias, lajeadas, que ligavam todo o império e eram completadas pelas rotas marítimas do Mediterrâneo. As novas cidades foram também dotadas de edifícios públicos, monumentais mas ao mesmo tempo funcionais, como pontes, aquedutos, anfiteatros, teatros, circos, bibliotecas, circos, banhos públicos, etc., O urbanismo representava outra forma de unidade, pois todas as cidades do império obedeciam, em princípio, a um modelo: a cidade de Roma.
A arquitetura urbana era funcional e sólida. Assentava na utilização de dois elementos inovadores: o arco de volta perfeita e a abóbada. A escultura e a pintura eram caracterizadas pelo naturalismo, embora deixassem entrever a influência grega na idealização patente em algumas das figuras representadas.
A literatura, a arte e a filosofia partilhavam igualmente de uma herança helenística, presente na obra de escritores como Catão e Cícero, na dos poetas Ovídio, Horácio e Virgílio, cujos poemas falam de amor e dos deuses. A Eneida, de Virgílio, escrita à imagem dos poemas de Homero, é a epopeia nacional romana que serviu de instrumento de fundamentação e propaganda do império. Este poema épico juntamente com os de Homero inspirarão, no século XVI, os Lusíadas, onde Luís de Camões canta os feitos dos Lusitanos.
Tito Lívio representa o expoente máximo da literatura histórica romana. A sua obra, a História Romana, desempenhou inclusivamente um papel importante na exaltação das conquistas. É a chamada história do tipo apologético.
Na expressão teatral, os Romanos preferiam a comédia à tragédia, e na filosofia refletiam sobre o combate das paixões, o desprezo pela riqueza e a luta pela honra. Os movimentos filosóficos de raiz moralista mais destacados foram o estoicismo e o epicurismo, muito mais consentâneos com o espírito lutador e pragmático dos Romanos.
Para além da influência grega, de longe a mais expressiva, a cultura romana integrou alguns elementos assimilados das culturas etruscas e orientais (como os cultos solares ou de divindades do Próximo Oriente). Todas as manifestações da cultura romana serviam ao mesmo tempo a glorificação individual dos seus promotores, mas serviam também a ordem imperial romana.
A religião politeísta tradicional, disseminada pelo império, integrava os ritos públicos e cívicos, onde estava presente o culto ao imperador. No tempo de Octávio Augusto surgiu o Cristianismo, uma religião monoteísta que desafiou a autoridade romana, nomeadamente recusando a deificação e adoração do imperador, rejeitada perante a fidelidade a um deus único. Após um longo e violento período de perseguição aos Cristãos, Constantino adotou o Cristianismo como religião do império, pelo édito de Milão (313), restituía aos Cristãos os bens confiscados e protegia o Concílio de Niceia (325) e as suas linhas de orientação teológica, o dogma da Santíssima Trindade, por ele instituído. Com Constantino, a capital do império passou de Roma para Constantinopla.
A mudança para o estado imperial ou Principado aconteceu dentro do regime republicano. Esta evolução, lenta e progressiva, decorreu em parte da impossibilidade do Senado manter a ordem, à medida que as conquistas aumentavam. Octávio César Augusto instituiu a autoridade imperial, absoluta e dinástica, de origem quase divina. O culto ao imperador funcionou como um dos fatores de coesão política do império.
O governo imperial permitiu o restabelecimento da paz, através da utilização de um aparelho administrativo centralizado e de um código de leis universais, justas e racionais. A administração local, no caso das províncias mais antigas, era entregue ao Senado, enquanto as províncias mais recentes e menos integradas eram controladas pelo imperador, na pessoa do legado, e pelos funcionários imperiais.
O ano 476 da nossa era marca o fim do Império Romano, com a conquista de Roma pelos Hérulos.
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