Românico

Introdução
O Românico é o primeiro estilo artístico internacional da Cristandade Ocidental, um estilo original com diversas escolas regionais, congregando elementos romanos, germânicos, bizantinos, islâmicos e arménios.
No início da Idade Média, a Europa Ocidental fortaleceu-se e definiu uma civilização muito própria, numa época de grandes transformações motivadas por três fatores: a estabilização dos povos Bárbaros, a sua admissão e miscigenação nas comunidades cristãs, possíveis devido à diminuição das incursões guerreiras e a fixação dos Húngaros na região Leste da Alemanha; o recuo dos Árabes, com a fragmentação do califado de Córdova depois da morte de Almançor; e o crescimento de uma civilização urbana e mercantil, a par da permanência de uma civilização feudal e monástica. A renovação material, proporcionada pelo renascimento do comércio e do artesanato, do uso da moeda, e pelo desenvolvimento da agricultura para responder às necessidades de uma população em crescimento, refletiu-se numa renovação material, cultural e religiosa. Esta época é mais favorável à produção artística. Dado o papel preponderante da Igreja, é privilegiada a construção de edifícios religiosos. Nesta sociedade, predominantemente cristã, assumem-se como grandes encomendadores os institutos religiosos, particularmente no âmbito do monaquismo. Os mosteiros rurais beneditinos de Cluny e dos monges brancos de Cister assumem um papel importante num período em que o domínio do homem sobre a natureza era ainda pouco expressivo. Para além de se afirmarem como os intermediários entre Deus e o Homem, tornaram-se importantes unidades em termos económicos, intelectuais e religiosos.
Este é o tempo das grande peregrinações e das Cruzadas, da reorganização dos bispados e da expansão das ordens monacais no Ocidente.

Arquitetura
O primeiro momento da evolução da arquitetura românica regista-se na Itália (de onde irradia para toda a Cristandade), onde mestres canteiros, organizados em corpos itinerantes, erigem igrejas caracterizadas por uma grande simplicidade, com paredes em aparelho pequeno que dão a ilusão de serem feitas de tijolo, cobertas de tetos de madeira (que posteriormente darão lugar a abóbadas de berço) e cujas naves se apresentam divididas por colunas ou pilares, despidas de ornamentação plástica e com campanários no flanco do edifício.
Em França irá surgir uma outra manifestação da mesma corrente arquitetónica, na qual são mais notórias as influências germânicas (da Alemanha dos Otões, especialmente).
A abadia-mãe de Cluny é o exemplo paradigmático de um tipo de arquitetura monástica, muito expressiva, que traz uma nova estrutura e uma nova estética. Cluny, o paradigma da arquitetura monástica do século XII, foi iniciada em 1088 pelo abade D. Hugo e dedicada a S. Pedro, "O Pescador de Almas". Note-se que a abadia existia já desde o século X, mas sucederam ampliações e reconstruções. Em 1088, parte-se para a tipologia românica própria de Cluny.
No nosso país, a arquitetura românica de Cluny chegou a pequenas igrejas de mosteiros do Norte de Portugal, normalmente de uma só nave e de acentuado carácter defensivo. É que, para além da função religiosa, a Igreja era, por vezes, usada como fortaleza numa região sujeita às razias do adversário árabe, localizado no Sul da Península. Os contrafortes e as janelas em forma de seteiras atestam essa função defensiva.
A arquitetura cisterciense, por seu turno, foi muito marcada pela espiritualidade do rigor e da simplicidade professadas pelo seu maior mentor, S. Bernardo, quarto abade geral. Os seus edifícios estão filiados na casa-mãe, a qual enviava, por norma, um abade e doze monges para cada nova fundação. A primeira fundação documentada em território português é a abadia de S. João de Tarouca em 1140-1144, filiada em Claraval, seguida pela abadia de Santa Maria de Salzedas, também na região de Tarouca.
Os edifícios deste estilo românico denotam uma adaptação à liturgia romana, mais simples, mas ao mesmo tempo mais encenada, e são vestidos de esculturas concentradas nas portas, símbolo das portas do céu, e nas janelas, por onde entra a luz divina, e muitas vezes embelezadas por pinturas a fresco nos seus panos.
Em Portugal, este estilo coincidiu com a reorganização do território, dividido em paróquias, e com o nascimento e afirmação da nossa identidade nacional.
O estilo românico apresenta algumas características básicas comuns a todos os núcleos de produção deste tipo de arte. No entanto, este fio condutor não impede que se formem escolas nacionais e até regionais, que lhe conferem uma das suas especificidades.
Em França, as igrejas, normalmente de dupla torre, apresentam abóbadas de berço e capelas radiantes. Podemos distinguir as seguintes escolas: da Provença; do Languedoc; da Aquitânia; da Borgonha (que teve grande influência em Portugal) e da Normandia. Na Itália, o românico é diverso e original, e nele coexistem as escolas da Lombardia, de influência germânica, a de Pisa, simbolizada pela sua catedral, e a da Toscânia, cheia de cor devido aos jogos de mármores. Na Alemanha, as igrejas são monumentais e de planta romana como a catedral de Spire. O românico da Grã-Bretanha está, nitidamente, relacionado com o da Normandia, depois da conquista de Guilherme em 1066; o da Escandinávia está sintetizado, por exemplo, na catedral sueca de Lund com alguma influência germânica.
A planta-padrão de uma igreja românica é uma planta do tipo basilical, composta, no entanto, por três ou cinco naves para servir a nova liturgia. Apresenta um coro entre o transepto e a abside e uma charola ou deambulatório, isto é, uma galeria de formato semicircular em volta da capela-mor. Este elemento arquitetónico foi adicionado para integrar as igrejas de peregrinação, nas quais os crentes podiam visitar as capelas absidiais sem interromper o serviço religioso. Em alternativa podiam-se construir, em volta da ousia ou do transepto, pequenas absides ou absidíolos.
A igreja típica seria abobadada, dotada de tribunas ou trifórios, ritmada por vãos e janelas estreitos para criar uma atmosfera mística, e as suas paredes seriam suportadas por contrafortes.
Em Portugal, a arquitetura românica é rica em formas ou influência local, apesar de se notar uma forte influência francesa e um baixo nível técnico, predominando os edifícios de apenas uma nave, de aspeto maciço e compacto. No país podem distinguir-se as escolas do Alto Minho, da área de Braga, da região do Porto e de Coimbra. Nos exemplos mais significativos da arte românica encontram-se a Sé de Braga, de todas a mais antiga (finais do século XI), a Sé do Porto e a de Coimbra.
No Norte do país, o estilo românico teve uma longa permanência, prolongando-se até aos séculos XIII e, por vezes, XIV, numa altura em que na Europa já se construía ao estilo gótico. Aqui, o material utilizado foi basicamente o granito. Esta longa permanência tem a ver com a própria história desta região. No Centro e no Sul do país este fenómeno foi mais efémero. Aí, a conjuntura política e económica era distinta, e a confluência de influências, nomeadamente a muçulmana e a moçárabe, ditava uma arte bastante diferente da nortenha. Usava-se predominantemente a rocha calcária.

Artes Plásticas e Decorativas
Arte fundamentalmente religiosa, indissociável da religião cristã, o Românico alarga-se igualmente à pintura e à escultura, que em comum têm a subordinação a um propósito edificante e se colocam ao serviço de uma visão ortodoxa do transcendente. Arte sem a pretensão de figurar a realidade de forma objetiva, antes se pretendendo simbólica, procura levar o crente a meditar sobre o seu lugar e o seu destino.
A pintura românica é antes de mais pedagógica, encontrando-se ao serviço da religião, transmitindo os ensinamentos e os princípios fundamentais da doutrina cristã, visíveis na decoração arquitetónica articulada com a componente escultórica. Tenta transmitir uma mensagem mais amena do que a transmitida nas esculturas dos portais que representam a salvação ou a condenação das almas. Os fiéis são advertidos, pelas esculturas, das punições a que estarão sujeitos se não se redimirem dos seus pecados.
Muito provavelmente, as paredes das igrejas estariam revestidas de cores vivas (ao contrário do que muitos restauros enganadores poderiam levar a pensar), a fim de suavizar a pesada atmosfera destes templos. Infelizmente, no nosso país, são muito escassos os exemplares que apresentam pintura.
Os temas mais comuns nas pinturas a fresco, concentrados nas absides e nas paredes superiores da nave central, pretendem representar os princípios da religião Cristã: a Trindade, a Virgem Maria, a vida dos santos e temas apocalípticos, como o Juízo Final, normalmente colocados junto das saídas. Há também alguns elementos iconográficos simbólicos, que acompanham estes temas. É usual encontrarmos a representação da Jerusalém celeste, dos trabalhos, bem como a simbólica dos temas da tradição clássica como a sereia, o pavão real ou a árvore da vida.
Trata-se de uma pintura mental ou intelectualizada, com figuras lineares e sem perspetiva, que comungam com elementos da estética paleocristã, da bizantina e da pré-românica.
A iluminura, a arte de decorar textos sagrados utilizando a pena ou o pincel sobre um suporte de papel ou de papiro recorrendo a miniaturas e à utilização de prata, ouro e cores, surgiu no Egito no tempo dos faraós. Foi depois transmitida aos Gregos e Romanos, que por sua vez legaram esta técnica aos Bizantinos, estendendo-se a toda a Cristandade no século IV. Na Idade Média, a técnica da iluminura foi muito utilizada na decoração dos livros de teologia e dos livros de culto produzidos nas comunidades monásticas.
A escultura românica é arquitetónica porque, tal como a pintura, está subordinada à arquitetura, resumindo-se a apontamentos decorativos concentrados nos tímpanos, nas arcadas e nos capitéis dos portais e noutros vazamentos. Ela transmite as novas conceções do corpo e da estética da representação. A sua iconografia é pedagógica, pretendendo transmitir a mensagem cristã a uma população maioritariamente analfabeta. Os motivos glosados são essencialmente vegetalistas, geométricos, antropomórficos e zoomórficos. Nas representações esculpidas abundam cenas e passagens das Escrituras Sagradas como o Juízo Final, o Deus Castigador, o Tetramorfo e Cristo em Majestade.
Tanto a escultura como a pintura do período românico nascem de esquemas mentais, mas a escultura parte daí para transfigurar o real, provocando simultaneamente sentimentos de admiração e de familiaridade.
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