Ronald Biggs

O mais célebre assaltante inglês do século XX, Ronald Arthur Biggs nasceu a 8 de agosto de 1929, em Londres. É, acima de tudo, uma lenda viva desse século, uma proeza ao alcance de poucos. O seu nome ficará para sempre ligado à história dos grandes assaltos - ou dos maiores assaltantes, se se preferir. Acolitado num auto-exílio orgulhoso e provocador, Ronald Biggs desafiou constantemente o seu destino desde os anos 60, quando foi um dos que perpetraram o "Grande Assalto ao Comboio", o mais ousado dos crimes na história da Velha Albion. Nunca ninguém humilhou tanto a polícia e o sistema judicial britânico, e nunca durante tanto tempo e de forma tão desafiadora: nunca ninguém fintara tanto a Scotland Yard ou iludira dezenas de caçadores de prémios como fez este súbdito de Sua Majestade.
O seu primeiro ato público foi aos quinze anos, quando pela primeira vez foi a tribunal por ter roubado lápis. Com 18 anos, em 1947, alistou-se como voluntário na Royal Air Force (RAF), a força aérea britânica. Todavia, em 1949, foi expulso, devido a uma assalto que perpetrou a uma farmácia, que o conduziu novamente à barra do tribunal, que o sentenciou a cumprir seis meses na prisão. Os catorze anos seguintes foram passados dessa forma, entrando e saindo sucessivamente de uma série de prisões devido a inúmeros delitos cometidos, quase sempre por roubo e extorsão. Ainda assim, arranjou algum tempo para desposar Charmian Powell e ter dois filhos desse matrimónio, Nicholas e Christopher.
Em 1963 tudo indicava, entretanto, que Biggs se rendesse à estabilidade da vida familiar e do trabalho honesto, ligado à construção civil, fixando residência em Reigate, no Surrey. Mas, o seu passado voltou então a misturar-se com o seu "novo" presente, acabando por determinar irreversivelmente o seu futuro. Um dia, nesse ano de 1963, um antigo amigo, Bruce Reynolds, convidou-o a participar num "trabalhinho" que acabaria por redundar no célebre assalto ao comboio, que ocorreu precisamente no dia do seu 34.º aniversário - 8 de agosto de 1963. Pouco depois das três da manhã do dia 8 de agosto, num troço de linha férrea em Buckinghamshire, dezasseis homens emboscaram o comboio postal Glasgow-Londres. Conseguiram roubar 2 631 784 libras, que ao câmbio do ano 2000 equivaliam a mais de 26 000 000 de libras.
Biggs e seus companheiros de quadrilha conseguiram então fugir com êxito do local do furto. Mas, apesar do sucesso da operação, Biggs foi mais tarde capturado pela polícia. Foi condenado a cumprir 30 anos de prisão. Acabou por fugir da cadeia, em 1965, ao fim de quinze meses encarcerado na Prisão de Wandsworth. Seguiram-se cinco anos a fugir da perseguição que a Scotland Yard lhe moveu por onde quer que ele andasse. Por entre essas fugas, nasceu o seu terceiro filho, Farley. Em 1970, porém, fixou-se no Brasil, onde permaneceu até 2001. Biggs viveu no Rio de Janeiro como bom cidadão cumpridor da lei, ainda que, ironicamente, fosse um fugitivo da justiça britânica. Apesar dos apelos britânicos para a sua extradição, Ronald Biggs pôde continuar a residir no Brasil pelo simples facto de ter um filho brasileiro, Michael. Apesar disso, o advogado brasileiro Jorge Beja tentou, durante doze anos, expulsar Biggs do Brasil, tendo-lhe movido, no outono de 1999, mais uma ação popular na Justiça Federal. Esta campanha deveu-se em parte ao facto de Ronald Biggs ter planeado lançar um site na Internet sobre a sua figura, relatando ao pormenor a noite de 8 de agosto de 1963, data do grande assalto. O causídico brasileiro considera que Biggs ofende o Estatuto do Estrangeiro no Brasil; porém, o pedido de extradição de Biggs pelo Reino Unido foi arquivado pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro a 4 de novembro de 1997.
De saúde muito debilitada, Ronald Biggs decide regressar a Londres a 6 de maio de 2001, pondo fim a um exílio de 35 anos. Foi imediatamente preso à chegada ao aeroporto.
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