Salomé

Protagonista de O Milagre Segundo Salomé, romance estruturado a partir da coincidência entre uma suposta aparição de Nossa Senhora das Dores aos pastorinhos, na aldeia de Meca, e a visita, no mesmo momento e ao mesmo local, de uma prostituta vestida com luxo, Salomé. A personagem de Salomé foge porém a todo o esquematismo que a matéria polémica do romance poderia conter. Pelo contrário, a definição de Salomé recebe, mais do que no seu nome, na sobreposição com a figura arquetípica da santa pecadora Maria Madalena, um investimento semântico fundado, a nível construtivo, na possibilidade de inversão dos opostos. É a assim que a sua queda - desde a chegada de Dores a Lisboa, até ser seduzida por um velho, o Tesouras, que a abandona depois de a engravidar; até ao início de uma vida de prostituição onde toma o nome de Salomé; e até à vida de concubinato que lhe é proposta pelo capitalista Severino Zambujeira - integra uma progressiva ascese, já que ao longo das ignomínias que a sociedade lhe impõe, Dores-Salomé conserva a sua pureza, a ingenuidade, o pudor e uma certa dignidade e bondade naturais, condensando-se nela inclusivamente um discurso de aspiração à mediania e à justiça social ("Falo da modéstia, honrada e decente. Se houvesse trabalho para todos, e mais... justiça, ou lá o que é, ninguém precisava de viver na miséria. Alguém devia velar por isso." (p. 203)). A viagem de Salomé à sua terra, situada no culminar de um itinerário que a vinha dotando, nos comentários de personagens secundárias, de uma aura de santidade; a doença e a mortificação que se lhe sucederam; a rutura com Severino e a promessa de voltar a ser "meretriz das ruas" como forma de humilhação e de martírio, que a tornassem digna da misericórdia divina, vêm, no início do segundo volume, adensar a suspeita de que Salomé, ao ser colocada no mais baixo da escala social e moral, que recebe, primeiro involuntariamente e depois por vontade própria, o aviltamento humano, poderia ser santa e de que a confusão entre ela e Nossa Senhora das Dores não teria, ao nível da construção narrativa, uma intenção sarcástica, mas desempenharia uma função ideológica. Numa última parte do romance, na relação com o escritor Gabriel Arcanjo, o amor divino de Salomé converte-se em amor humano, preparando-se a consumação do verdadeiro milagre humano, o da vida.
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