semiótica

Semiótica e semiologia são, respetivamente, as designações de raiz anglófona e de raiz francófona da ciência dos signos e ainda hoje são empregues em função da linha (peirciana ou saussuriana) que se siga. É essa, inclusivamente, a razão que levou Umberto Eco a propor uma convenção, onde se designaria por "semiologia" uma teoria geral dos fenómenos comunicativos, perspetivados como elaboração de mensagens com base em códigos convencionados como sistemas de signos, e onde se classificariam como "semióticos" os sistemas isolados de signos, se estiverem formalizados ou forem formalizáveis.
Foi John Locke quem introduziu, em 1689, o termo semiótica, que o norte-americano Charles Peirce adotou para o estudo lógico dos signos. Por exemplo, com base na semiótica peirciana, podemos distinguir os indícios (signos que apresentam uma relação de contiguidade entre significante e significado, como as pegadas, que indicam a passagem de uma pessoa num local), dos ícones (signos que possuem relação de semelhança entre significante e significado, como a imagem de um automóvel) e dos símbolos (signos onde a relação entre significante e significado é socioculturalmente definida, como as palavras).
Na sequência dos trabalhos de Peirce, Morris propõe a sistematização da semiótica (lógica) em três grandes áreas: a sintaxe (relações dos signos entre si, independentemente do que designam ou identificam), a semântica (relações entre significante e significado, ou seja, relações entre signos e objetos designados) e a pragmática (relações entre os signos e o sujeito que os usa). O termo "semiologia" foi cunhado por Saussure. Este autor, ao contrário de Peirce, centra-se nos aspetos linguísticos e sociais dos signos. Ele pretendia que a semiologia estudasse aquilo em que consistem os signos e quais as leis que os regem. Saussure via na língua o mais importante dos sistemas de signos. Porém, tal como ele próprio advertiu, existiam outros sistemas de signos, elementos suscetíveis de ter significado no seio de um meio sociocultural, como o alfabeto dos surdos-mudos, os ritos simbólicos ou as formas de cortesia.
Roland Barthes inverte, de algum modo, a definição saussuriana, entendendo a semiologia como uma translinguística que estuda todos os sistemas de signos (imagens, gestos, sons melódicos, ritos, protocolos, etc.) reportando-os às leis, linguagem, até porque seria através da língua que esses sistemas de signos e, portanto, de significação, seriam acessíveis ao conhecimento. Assim, para ele, a linguística, mesmo que privilegiada, não seria uma parte da semiologia; a semiologia é que seria a parte da linguística que leva em linha de conta as significações discursivas.
A dificuldade em abordar os signos não verbais por outros meios, que não a linguagem verbal (por exemplo, não podemos formular uma semiologia da cor com base na cor), alargou o leque dos estudos semiológicos. Nessa linha, Todorov e Ducrot consideram que a língua é rica em processos simbólicos que não dependem dos mecanismos linguísticos (poderíamos exemplificar com o tom de voz).
No mesmo tom, Júlia Kristeva, distinguindo três estágios no desenvolvimento da semiologia (a proposição de Saussure, a antítese de Barthes e o estádio posterior), considera abolida a superioridade dos modelos linguísticos, preconizando que a lógica ou a matemática, por exemplo, contribuem ao mesmo nível da linguística para a construção de modelos semiológicos, atividade onde residiria o objetivo da semiologia. Com esta atitude, a semiologia parte para uma análise epistemológica e crítica dos discursos das demais ciências e do seu próprio discurso, atuando em níveis diversos e estudando os significados como sistema onde se permitem elementos significantes. A semiologia seria, nesta ótica, a "ciência das ideologias" e também "uma ideologia das ciências".
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