Sentenças

Conhecido sobretudo pela sua colaboração no Cancioneiro Geral, D. Francisco de Portugal, primeiro conde de Vimioso, redigiu também as Sentenças, editadas pelo seu neto, D. Henrique de Portugal, em 1605. Trata-se de uma coleção pessoal de ditos aforísticos que resumem, de acordo com o prólogo "Ao Leytor" da edição setecentista, "com tam breves termos & tam eficazes", tudo "quanto convê para conhecer o mundo, & proceder nelle cõ alma & honra". Resultado da experiência de vida do seu autor, destilam, de forma não estruturada, uma sabedoria da convivência em sociedade que corresponde a um sentido de comedimento, de resignação sensata diante da irredutível relatividade de tudo, de conformação com uma certa mediania. A obra divide-se em duas partes: as "Sentenças", pequenos ditos lapidares, e "Outras sentenças em verso do mesmo conde", coletânea de quadras em redondilha maior. A distinção entre as duas parte é meramente formal pois em ambas se encontra a mesma concisão de pensamento; a mesma tendência para a estruturação antitética de cada pequeno texto autónomo, pela exploração dos opostos bem/mal, ignorância/sabedoria, verdade/mentira, virtuosos/fracos, etc.; a mesma atemporalidade de um discurso que se quer universal. O estilo, lacónico e contundente, explora reiteradamente a divisão bipartida da frase, o hipérbato e o zeugma, a atribuição da ação a um sujeito indeterminado e a função apelativa da linguagem. Formulando uma filosofia da relação do homem com o tempo, consigo mesmo e com os outros, as Sentenças traem por vezes uma crítica de valores que põe a nu o desconcerto do mundo: "Com isto tudo se abraça / Haver tal disolução / Que só ganha em cada casa / Quem mête & muda a rezão".
Como referenciar: Sentenças in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-10-21 06:22:38]. Disponível na Internet: