Serra-Mãe

O primeiro livro publicado por Sebastião da Gama, Serra-Mãe, reúne uma série de composições que tendem para a regularidade métrica, inspiradas pela permanência no Portinho da Arrábida, local propiciador do recolhimento poético e da celebração mística da Natureza. O próprio título sugere, como chave de leitura, a fusão do humano com a Natureza, a fraternidade de todos os seres franciscanamente abrigados pela Natureza-mãe, e aponta a serra como regaço maternal onde o poeta se refugia para recobrar tranquilidade e confiança. A par dessa linha de leitura composta pela exaltação da religiosidade da Natureza, desenvolvem-se composições onde a temática da morte iminente é sentida não sob o signo da desesperança, mas como o desfecho precoce de uma vida plenamente vivida ("Que a Morte, quando vier,/ não venha matar um morto./ Quero morrer em pujança./ Quero que todos lamentem / a ceifa de uma esperança", de "Cortina"; "De minha vida não sei/ senão que sou feliz", de "Claridade"). Reformulando a tradição lírica de Régio e de Sá-Carneiro, esta obra inaugural acolhe ainda poemas marcados pelo diálogo com Deus, onde a inquietação religiosa exprime, por vezes, a revolta e o pânico de perder a dádiva da presença divina ("não me roubes a Tua Mão, Senhor," de "Oração de Todas as Horas") e versos que reformulam, sobretudo na secção "Presença" de Serra-Mãe, o tema modernista de desdobramento do sujeito poético, num conflito entre o eu que se evade, confundido com a vida da massa vulgar e distraída, e o eu imbuído do sentimento de cumprir uma missão ideal.
Como referenciar: Serra-Mãe in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-12-12 06:37:51]. Disponível na Internet: