Situação Económica Difícil da I República

Para além da crise económica mundial, que se repercutiu em Portugal, o país conheceu as suas próprias crises.
A crise mundial de 1913-1914 foi sentida em Portugal de uma maneira moderada: dois bancos fecharam, o desemprego aumentou, surgiram greves e deu-se a queda do primeiro governo de Afonso Costa, em janeiro de 1914.
A Primeira Grande Guerra resolveu o problema da queda do governo, ao mesmo tempo que proporcionou uma expansão do comércio e da indústria, a partir de 1915. Porém, também foi geradora de muitos problemas económicos e sociais, devido à falta de alimentos, à inflação, à atividade revolucionária, às tentativas do Estado em dirigir a economia, etc. Quando acabou a guerra, entre 1919-1920, a economia nacional sofreu um boom, tal como aconteceu no resto do Mundo. O comércio do vinho, da cortiça e da sardinha expandiu-se. Aumentaram os gastos em artigos de luxo e as importações. Devido à afluência de capitais, assistiu-se à abertura de novos bancos entre 1918-1920.
Contudo, este boom foi seguido por uma nova crise internacional, entre 1920-1922, que se refletiu também em Portugal. Esta crise prolongou-se até 1925. Caracterizou-se por uma grande subida da inflação e da especulação. A taxa de juro e desconto aumentou grandemente.
O problema financeiro seria um dos mais graves problemas da primeira República Portuguesa (1910-1926), que esteve por detrás de toda a agitação social e política que iria levar à queda da República, em 1926.
O equilíbrio orçamental, a dívida pública e a desvalorização da moeda constituíram a base das discussões entre monárquicos e republicanos, conduzindo a graves crises ministeriais.
Desde o início do século XIX que era impossível equilibrar as contas públicas, já que o défice aumentava constantemente, à medida que a economia portuguesa se ia expandindo.
Assim, um dos grandes objetivos do Partido Republicano era o equilíbrio orçamental, com o objetivo de se alcançar um superavit, tarefa esta falhada pelos primeiros-ministros das Finanças e só alcançada com Afonso Costa, quando este subiu ao poder, em janeiro de 1913, conseguindo alcançar um superavit nos orçamentos de 1913-1914 e 1914-1915, embora em 1914 tivesse deixado o Ministério das Finanças. No campo das reformas fiscais, Afonso Costa falhou, já que as receitas do Estado diminuíram entre 1913-1914 e 1917-1918, devido à desvalorização da moeda.
Os sucessores de Afonso Costa não conseguiram continuar a sua política. Assim, tendo em conta o condicionalismo da Primeira Guerra, após 1914 registou-se um novo défice no orçamento, com o governo de Pimenta de Castro, e um agravamento da situação.
A Primeira Guerra acarretou despesas com a organização dos corpos expedicionários, ou seja, antes de 1916, antes de intervir na guerra ao lado dos Aliados, Portugal teve de custear os corpos expedicionários para as colónias (África) e reorganizar o exército. Para além destas despesas, registou-se ainda a desvalorização monetária, devido à extinção das reservas de ouro, acompanhada da inflação e do desemprego que no pós-guerra se registou face a uma instabilidade política que acabava por se refletir no equilíbrio financeiro.
Em novembro de 1915, Afonso Costa regressou ao Ministério das Finanças, mas nem por isso conseguiu obter um saldo positivo.
As despesas com a guerra subiam cada vez mais e a essas juntavam-se entretanto outras.
Entre 1917 e 1919 registaram-se grandes défices, embora nas receitas públicas se verificasse uma subida, devido aos impostos que surgiram com a guerra.
A agravar a situação estavam a instabilidade governativa e a falta de preparação dos responsáveis pelas Finanças, dificuldades estas acentuadas com o governo de Sidónio Pais. Os orçamentos de 1920-1921, 1921-1922 e 1922-1923 mostraram que as receitas do Estado sofreram uma diminuição causada, sobretudo, pela desvalorização da moeda.
A partir de 1919-1920, as despesas foram constantemente reduzidas, numa tentativa de se alcançar um equilíbrio orçamental, despesas estas resultantes, essencialmente, da dívida pública e das despesas militares. Estas últimas só desapareceriam em 1923-1924. Quanto à dívida pública, esta já estava patente nos tempos da monarquia, baixando com as medidas de Afonso Costa e com a desvalorização da moeda, subindo, novamente, com o pós-guerra.
Entre 1923-1924 e até 1925-1926, o equilíbrio orçamental registou algumas melhorias, atingindo-se, em 1924-1925, com o governo de António Maria da Silva, um aumento das receitas para o nível registado antes da guerra. Tal facto, foi originado pelo aumento dos impostos que em 1923-1924 viria a atingir, principalmente, a indústria, que teve de pagar ao Estado avultadas quantias.
Contribuiu também, em 1924, a paragem da desvalorização da moeda.
Em 1926 já quase que não havia défice, pois em 1923-1924 houve uma contenção das despesas para além do aumento das receitas já mencionado.
Também a dívida pública registou uma diminuição. Após uma baixa conseguida pelos primeiros governos da República, a guerra fê-la aumentar, mas em 1924 a desvalorização da moeda fê-la reduzir novamente, subindo outra vez nos dois anos seguintes para um valor inferior ao de 1910.
Convém também referir que os primeiros governos republicanos procederam à espoliação de bens imobiliários dos cidadãos estrangeiros, o que levou à constituição de um tribunal de arbitragem instituído em Haia para resolver estes problemas, levando Portugal a pagar muitas indemnizações em moeda estrangeira, o que agravou as dificuldades do tesouro público nacional após 1914.
No que respeita à moeda, Portugal tentou, durante a I República, fazer uma reforma nominal com o intuito de equiparar a moeda nacional com as congéneres europeias.
Em 1911, o real foi substituído pelo escudo, surgindo uma grande instabilidade.
As desvalorizações foram constantes a partir do início da guerra. As moedas eram raras, devido ao rarear dos metais, e foram frequentemente substituídas por papel, o que levou à emissão de moedas com ligas mais pobres. A partir de 1916, o papel-moeda assumiu a sua importância. Porém, os governos da República tentaram criar novas moedas de pequeno valor, com liga de bronze e níquel, com o objetivo de acabar com as notas.
Em 1924, Álvaro de Castro, através de uma inteligente política financeira, conseguiu pôr um travão à queda do escudo, em parte devido à conjuntura do pós-guerra, que permitia uma estabilização da moeda. Conseguiu também aumentar a liga metálica do escudo e diminuir o valor real das moedas, o que originou a diminuição gradual do papel-moeda.
Quanto à inflação, esta subiu durante a Primeira República, porque uma grande quantidade de capitais saiu de Portugal, já que a partir de 1910 muitos membros da aristocracia e da alta burguesia emigraram por motivos políticos, o que levou a que estes continuassem a receber no estrangeiro as suas rendas avultadas ou depositassem nos bancos estrangeiros os seus réditos. Esta situação agravou-se depois da guerra. Para além disto, grande quantidade de ouro e prata encontrava-se entesourada por particulares, devido à desvalorização da moeda e à instabilidade política, isto é, a República nunca conseguiu atrair a confiança dos mais abastados e evitar a fuga de capitais até 1924. Apesar de todo o seu liberalismo económico, por um lado, a República sempre respeitou a liberdade de cada um e o direito de propriedade, o que denota o seu conservadorismo, por outro lado, contribuindo desta forma para que as reservas de ouro do Banco de Portugal fossem das mais baixas da Europa no fim da I República.
No plano social, a instabilidade financeira que se viveu durante a Primeira República refletiu-se no eclodir de numerosas greves, com a finalidade de haver uma diminuição do horário de trabalho e dos salários serem aumentados, pois o custo de vida subia e a moeda era constantemente desvalorizada.
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