sociedades socialistas

Filiado nas reflexões empreendidas pelos diversos teóricos do socialismo e nos movimentos operários e camponeses anticapitalistas, o conceito de sociedades socialistas, à semelhança do que acontece com as origens históricas do socialismo e das suas diversas correntes, é plural. Numa caracterização simples e, certamente, redutora, os meios de produção nas sociedades socialistas - capitais, terras, matérias-primas, ferramentas e equipamentos - são alvo de uma apropriação coletiva, abolindo-se a sua posse privada e extinguindo-se as relações de classes exploradoras. Em paralelo, dá-se uma democratização geral da sociedade e da economia, nomeadamente com o controlo do processo da produção por parte dos trabalhadores e o acesso de todos os cidadãos, através da planificação e da distribuição democráticas, aos bens económicos e culturais existentes.
Em termos históricos, são de relevar a influência de diversas correntes para esta grande ideia emancipadora da modernidade, como o socialismo utópico de Saint-Simon, Fourier e Owen, o socialismo anarquista de Proudhon e o socialismo científico, baseado nas propostas de Marx, Lenine e outros teóricos e revolucionários de filiação marxista. Sustentado numa análise detalhada das condições económicas e sociais, o socialismo científico reflete sobre o conflito que opõe a burguesia, como classe dominante, ao proletariado, propondo uma estratégia de ação tendo por objetivo a construção da sociedade socialista.
É no socialismo científico que todas as experiências não capitalistas levadas a cabo ao longo do século XX, nomeadamente na União Soviética, encontram os seus fundamentos teórico-ideológicos. Hoje, perante o colapso destas experiências, discute-se a natureza socialista da União Soviética e dos países do Leste da Europa, entre outros. Certamente não capitalistas, estas sociedades possuíam alguns elementos socialistas, como a posse coletiva, através do Estado, dos meios de produção, a planificação económica e a subalternização do papel do mercado na economia. Por realizar ficou o controlo efetivo dos meios de produção por parte dos trabalhadores - a experiência dos sovietes, na União Soviética, foi um bom exemplo - e um alargamento da democracia a outros níveis da sociedade. Este insucesso está relacionado com as condições difíceis da construção do socialismo nestes países - ameaça externa e atraso económico-social e cultural das massas trabalhadoras - e com os desvios políticos provocados, em boa medida, pela aplicação deformada do princípio do centralismo democrático.
O quase total desaparecimento das experiências socialistas remete-nos para a grande dúvida: será admissível, económica e socialmente sustentável, a ideia de uma sociedade socialista? Não existindo consenso em torno desta questão, Giddens descrê desta possibilidade, argumentando que os sistemas económicos modernos, altamente complexos, não podem ser controlados a partir de "cima", apesar de reconhecer, sem questionar o sistema capitalista, que já existem algumas formas de "organização económica" socializada envolvendo governos e empresas transnacionais. Outros autores, como Bahro, Gorz e Santos, continuam a considerar atinentes os valores emancipatórios do socialismo, sobretudo quando articulados com a ecologia e a preservação dos recursos naturais e as outras formas de vida que connosco partilham o planeta.
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