Sofistas

Termo sob o qual é habitual reunir um conjunto de pensadores que, embora não constituam nem uma corrente doutrinal homogénea nem uma escola com orientações definidas, se encontram unidos por uma certa prática do saber.
O desenvolvimento da sofística ocorreu durante o séc. V a. C., altura em que, após as guerras médicas, se consolidou o regime democrático em Atenas. Aspirando a uma formação voltada para a intervenção ativa no governo da Pólis, grande parte dos cidadãos começou a recorrer ao ensino de mestres que lhes propiciavam o domínio de técnicas apuradas nas áreas da retórica e da erística. Proclamando um saber enciclopédico e a aptidão para o colocar ao serviço dos interessados, os sofistas dedicaram-se a suprir esse ensejo, lecionando em troca de uma remuneração.
Do ponto de vista teórico, voltaram a atenção para a análise da estrutura do real, mas segundo uma ótica mais preocupada com as respetivas consequências antropológicas e gnosiológicas, nomeadamente com o estatuto do discurso, o fundamento da justiça e a oposição entre a lei natural (physis) e a lei por convenção (nomos). De entre os sofistas mais conhecidos contam-se Protágoras, Górgias, Trasímaco, Hípias e Crítias:
Protágoras, que teria sido o primeiro a usar o título de sofista e a reclamar um pagamento por responder aos problemas que lhe apresentavam, proclamava que todo o conhecimento provinha da sensibilidade e defendeu a «teoria das antinomias», segundo a qual para cada coisa existem simultaneamente dois discursos coerentes (válidos) mas mutuamente exclusivos (porque contraditórios), afastando dessa forma a possibilidade de acesso a qualquer tipo de conhecimento absoluto. No entanto, o relativismo que usualmente dela se deriva é mitigado pela tese complementar, segundo a qual existem dois tipos de discurso: «o discurso fraco», estritamente subjetivo, e o «discurso forte» que, procurando a adesão da comunidade de sujeitos, permitiria, pelo menos, atingir uma «verdade consensual» (embora igualmente esta seja destituida de carácter absoluto). Adepto do agnosticismo ao afirmar que sobre os deuses invisíveis nenhuma asserção fidedigna pode ser produzida, foi também o autor da célebre máxima «o homem é a medida de todas as coisas». As doutrinas que professava levaram a que fosse considerado como apologista de um humanismo radical de índole subjetivista e relativista.
Górgias, reputado mestre de retórica, discípulo de Empédocles e feroz opositor dos seguidores de Parménides, caracterizou-se por um pensamento marcadamente antimetafísico e antiontológico que cristalizou nas seguintes proposições: «o ser não existe; mesmo que o ser existisse, seria incognoscível; mesmo que fosse cognoscível, seria inexprimível». Segundo esta perspetiva, análoga à de Protágoras, o real é o domínio dos contrários e das aparências, cabendo ao discurso persuasivo congregar as opiniões divergentes, consagrando a legitimidade de uma visão do mundo, a ter, no entanto, sempre como provisória e relativa.
Trasímaco, adversário de Protágoras, propôs a tese segundo a qual todas as contradições são meramente aparentes, existindo um fundo comum a todos os discursos. Como consequência desta posição, defendia na política a homonoia, ou seja, a «reconciliação» dos adversários, visto que os diferentes partidos teriam, no fundo, objetivos comuns. No entanto, foi um acérrimo crítico da justiça e das leis, que acreditava estarem de tal modo pervertidas que apenas serviam o interesse dos poderosos, transformando a força em norma.
Para Hípias, o universo seria constituído por uma infinidade de entes particulares, existindo independentemente do conhecimento que o ser humano deles possa ter. O conhecimento verdadeiro consistiria, por isso, em decalcar os nomes das coisas, reproduzindo dessa forma a estrutura do real. Acreditando que a natureza impõe ao homem uma sociabilidade e solidariedade universais, afirmava que a lei refletia apenas interesses particulares e era uma violência contra o filantropismo natural.
Crítias, de ascendência aristocrática e partidário da oligarquia, envolveu-se ativamente nas disputas políticas da época, tendo sido mais um homem de ação que um teórico. Contrariamente à maior parte dos outros sofistas, defendeu que as leis deviam ser impostas pelos aristocratas, cujo carácter inflexível lhes garantiria estabilidade. Daí decorre que a vontade é colocada numa instância superior à do discurso, que visa apenas dirigir a multidão volúvel. Afirmou ainda que a lei pode ser mais forte que a própria natureza, dando como exemplo que a invenção do temor pelos deuses permitiu no ser humano dominar os instintos naturais.
Sábios itinerantes que proclamavam sem falso pudor o fundamento pragmático das análises que expunham, os objetivos funcionalistas dos seus ensinamentos e a contingência de qualquer discurso, os sofistas acabaram por ficar associados a uma imagem extremamente negativa em virtude da animosidade de Sócrates, Platão e Aristóteles que, entendendo a filosofia como uma atividade «desinteressada» (i. é, afastada dos jogos de interesses concretos e de todo o utilitarismo) visando apenas o «saber verdadeiro» (logo, abstrato, unívoco e absoluto), acabaram por interpretar a sofística de forma caricatural, não vendo nela mais do que a preocupação com o sucesso individual e o lucro, o apelo a argumentações especiosas (os sofismas) e a sujeição dos valores éticos aos interesses do momento.
«Malditos» da história da filosofia ao ficarem para a tradição como partidários obstinados de um relativismo gnosiológico e axiológico absoluto - sobretudo devido às distorções que as suas teses sofreram nas obras de Platão -, os sofistas começaram, porém, a merecer alguma atenção a partir do séc XIX, altura em que se reconheceu a contemporaneidade de algumas das suas doutrinas.
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