Tendenza

O movimento arquitetónico neo-racionalista que surgiu em Itália nos anos sessenta constituiu uma das correntes que procuraram rever as premissas do movimento moderno, cruzando-as com referências culturais de sentido regional, numa tentativa de fugir ao universalismo nivelador determinado pelo sistema económico social, pela força do desenvolvimento tecnológico e funcionalista e pelo consumismo superficial e básico.
De entre os neo-racionalistas italianos evidenciaram-se, pela originalidade e profundidade das suas posições teóricas e de alguns projetos, os arquitetos Aldo Rossi e Giorgio Grassi. Para eles o processo criativo devia partir de uma leitura crítica do passado, a partir de premissas tipológicas e não tanto morfológicas, destilando essas referências na busca de arquétipos e de formas primárias. Procuravam desta forma ligar a linguagem e os valores expressivos da arquitetura clássica e do iluminismo com o rigor das propostas das vanguardas e dos pioneiros da arquitetura moderna, como Ledoux, Schinkel, Adolf Loos, Heinrich Tessenow, Terragni ou Louis Kahn. Recusavam assim a vertente mais tecnológica de alguns dos movimentos surgidos no pós-guerra.
Esta escola regionalista encontrou fundamento em dois textos teóricos de especial importância, publicados respetivamente em 1966 e 1967: L'Architettura della Cittá (a arquitetura da cidade) de Aldo Rossi e La Costruzione Logica dell'Architettura (a construção lógica da arquitetura) de Giorgio Grassi.
Os projetos desenvolvidos por Rossi nestes anos, como o conjunto de habitações Gallaratese, construído em Milão, apresentavam soluções volumétricas simples, com tendência para o uso de geometrias e formas primárias (prismas, cones e cilindros) e composições simétricas, de grande rigidez expressiva e despidas de ornamentos. Os trabalhos de Grassi, como a Residência de Estudantes de Chieti (1979) retomavam o modelo das ruas neoclássicas rodeadas por com galerias, numa solução formal de grande rigidez e abstração mas de acentuada capacidade evocativa.
Outros arquitetos destacaram-se no interior deste movimento regional como Carlo Aymonino, Vittorio Gregotti, Franco Purini, Massimo Scolari e Enzo Bonfanti, estes dois últimos editores da revista oficial do movimento, a Controspazio, de 1969.
Os arquitetos italianos da Tendenza construíram pouco, reduzindo a sua ação aos limites geográficos do país, embora os seus trabalhos teóricos e os estudos de morfologia urbana e planificação territorial tenham conhecido ampla divulgação. Desenvolveram um urbanismo baseado em tipologias tradicionais como a rua, a parede, a fachada, a janela, a ideia do lugar, do monumento, do tipo. A recuperação da ideia de monumento enquanto gerador da paisagem urbana e a reafirmação da continuidade do domínio público através do monumento, acompanhada da insistência sobre a importância do quarteirão e da rua.
Fora de Itália, a Tendenza assumiu particular influência na arquitetura de países com raiz cultural clássica que servisse de referência formal ou tipológica para uma nova expressão estética. Foi, de facto, no Ticino, no sul da Suíça, que se desenvolveu uma das escolas neo-racionalistas mais interessantes, por um lado derivada da Tendenza italiana mas, por outro, cruzada e amenizada com referências à obra de Le Corbusier, de Louis Kahn ou à arte conceptual americana. Protagonizado inicialmente pelos arquitetos Bruno Reichlin e Fabio Reinhardt, discípulos de Rossi, encontrou os seus expoentes nos projetos de Mario Botta, Aurelio Galfetti, Livio Vacchini e Luigi Snozzi. Em França destacou-se a personalidade e o trabalho pedagógico de Bernard Huet, na Alemanha os trabalhos de Oswald Mathias Ungers e Josef Paul Kleihues que procuravam reestabelecer a continuidade com as tipologias tradicionais da rua e do pátio. Numa região periférica, como a Península Ibérica, tiveram papel fundamental alguns trabalhos do espanhol José Ignácio Linazazoro ou do português Álvaro Siza Vieira, como o projeto do Bairro da Malagueira em Évora, iniciado em 1977.
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