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teoria da ação social
Tal como é referido a propósito do conceito de ação social, também se pode sustentar que a teoria da ação social, embora não exclusiva de Weber, é, em primeira instância, um legado teórico de Weber. Se Durkheim se orienta no sentido de afirmar prioritariamente a sociedade, enquanto entidade quase ontológica e modeladora da ação dos atores sociais, quer individuais, quer coletivos, e se Marx, embora apelando à importância da ação, designadamente coletiva, na luta de classes, como condição de transformação sócio-histórica, Weber parte de um outro pressuposto e de uma outra metodologia. Para Weber, não há sociedade sem indivíduos e, por isso, estes e as suas ações, os acontecimentos singulares, são o objeto primeiro da Sociologia. Daí a insistência de Weber no individualismo metodológico, enquanto método de abordagem da realidade social, método que tem levado alguns adversários de Weber a acusá-lo de nominalismo sociológico, segundo o qual a sociedade seria apenas um nome sem correspondente realidade. Convém, entretanto, notar que o individualismo metodológico de Weber não se confunde nem com qualquer conceção de individualismo atomista em termos substantivos, nem com pressupostos intuicionistas, irracionalistas ou absolutos em torno de um eventual livre arbítrio, nem tão-pouco sequer com radicais premissas existencialistas do homem individual, enquanto ser livre. Segundo Weber, o sociólogo deverá, basicamente, num primeiro momento, colocar-se no lugar do outro, dar-se conta e compreender (verstehen) a ação, aliás, não só individual como, eventualmente, coletiva do respetivo ator social e, num segundo momento e articulado com o primeiro, explicá-la (erklaren), não só em termos de uma adequação subjetiva na captação das motivações e dos significados, conscientes ou não, mas também de uma interpretação teoricamente válida e consistente com os dados recolhidos e observados. Ou seja, Weber não se limita a que a Sociologia reconstrua, de modo empático, o sentido subjetivo atribuído pelo ator social às suas ações, mas pretende que, a partir dos estudos de caso ideal típicos, se induza uma interpretação racional que dê conta dos fatores e dos mecanismos de agregação, de modo a obter uma adequada explicação (pluri)causal e, assim, possibilitar a inferência de regularidades sociais em termos probabilísticos.
Entre outros sociólogos que deram especial relevo teórico à ação social, sobressaem Pareto e Simmel: o primeiro, relativamente à importância das 'ações não lógicas' (sentimentos, instintos) que, sendo objeto da Sociologia, explicariam as mais diversas e combinadas 'derivações' (justificações, ideologias); o segundo, quanto à importância das formas de sociabilidade, proximidade e distância social e, em particular, a relativa liberdade do ator social, enquanto forasteiro. Será, porém, a bioecológico-cultural Escola de Chicago e, na sua sequência, o interacionismo simbólico, a principal corrente sociológica que, na esteira de Weber, concederá à (inter)ação social a prioridade teórica e metodológica sobre o conceito de estrutura, sendo de relevar, num primeiro momento, Mead e Blumer e, sobretudo, num segundo momento, Goffman e Becker. Com alguma inspiração no pragmatismo filosófico de James, que defendia como critério de verdade a utilidade das ideias e via o pensamento como instrumento criativo da ação/adaptação do Homem -, os teóricos fundadores do interacionismo simbólico consideravam a (auto)consciência reflexiva (self) como um processo resultante das interações entre o 'I' (o eu individual, idiossincrático e expressivo) e o 'me' (o eu social, ou melhor, a influência dos outros ou do generalized other em mim). E é neste processo de interações, definições e representações entre os indivíduos que estes atribuem significados às suas ações e criam ou, como referem Berger e Luckman, (re)constroem a própria sociedade, suas regras, normas e símbolos sociais. Embora tais regras e símbolos, segundo Goffman, suscitem, nomeadamente nas instituições totais, certas formas de constrangimento para com os indivíduos, são sempre suscetíveis de serem redefinidas, renegociadas, contestadas e, eventualmente, alteradas na interação social. Além disso, as organizações devem ser vistas não em função das necessidades sistémicas da sociedade, mas para realizar as intenções, estratégias e objetivos dos indivíduos, cujos papéis são vistos não como funções preestabelecidas e derivadas de padrões normativo-culturais nem conformes às prescrições do sistema social, tal como o entende o (estrutural-)funcionalismo, desde Durkheim a Parsons, mas como resultados de processos de interação e confirmação, ora partilhados, na sociabilidade quotidiana, pela adaptação mútua e pela renegociação pacífica, ora conquistados pela via do confronto ou (micro)conflito. Por sua vez, são os significados partilhados nas interações rituais (olhares, gestos, posturas, enunciados verbais) que desembocam em instituições, as quais são vividas pelas gerações posteriores como factos sociais, que podem ser reproduzidos, reinterpretados ou transformados em posteriores interações sociais.
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