Terceiro Mundo e o Terceiro-Mundismo

O conceito de Terceiro Mundo, frequentemente confundido com a noção de subdesenvolvimento surgida com o fim dos impérios coloniais e que apresenta um carácter económico, tem uma conotação geopolítica que pretende identificar os países mais atrasados por oposição às nações industrializadas (capitalistas e socialistas). O Terceiro Mundo engloba o continente africano, com a exceção da África do Sul, a Ásia não-soviética, excetuando o Japão, a Oceânia sem a Austrália e a Nova Zelândia e a América Latina.
Podemos concluir, a partir desta distribuição geográfica, que o Terceiro Mundo se localiza no Hemisfério Sul e coincide com as antigas zonas coloniais. Portanto, a emergência do Terceiro Mundo, nas suas dimensões humana, económica e política, é um dos fatores determinantes da história contemporânea.
A expressão surgiu no contexto histórico da Guerra Fria, em que o mundo desenvolvido se encontrava claramente dividido em dois blocos antagónicos, o bloco dos países ocidentais capitalistas e o bloco comunista formado pela URSS e os seus países satélites. Um dos principais problemas do Terceiro Mundo é o crescente aumento populacional, que não é acompanhado por um proporcional aumento da produção. Os alimentos disponíveis não são suficientes para alimentar estas populações assoladas pelo flagelo da fome e por graves problemas de saúde como a sida.
As economias do Terceiro Mundo são muito heterogéneas, mas todas elas apresentam várias características comuns: o predomínio económico de uma agricultura com baixos índices de produtividade; o fraco desenvolvimento da indústria dependente do exterior; o peso excessivo do comércio e dos serviços e as altas taxas de desemprego e subemprego. Estas características comuns revelam um grande desequilíbrio provocado pela difícil convivência do mundo tradicional com o mundo industrializado.
O desequilíbrio destas economias é atestado por maiores dicotomias do que nos países industrializados; a produção industrializada está concentrada nas regiões mais urbanizadas, onde se verifica uma multiplicação do setor terciário, contrastando com amplas áreas ruralizadas muito pouco modernizadas, na maioria dos casos muito dependentes do exterior, onde se pratica uma agricultura de subsistência e mantém a exploração extensiva.
Estas dificuldades económicas refletem-se em fortes contrastes sociais e culturais. A distribuição da riqueza é muito desigual e só uma percentagem pouco expressiva da população tem acesso ao ensino, sobretudo ao ensino superior.
Na maioria dos territórios colonizados europeus, a descolonização não significou a perda total de laços de dependência, isto é, surgiu uma nova forma de colonialismo, o neocolonialismo.
Esta dependência é económica, comercial, tecnológica e militar e não está alheia a opções políticas e ideológicas.
No Terceiro Mundo podemos distinguir três níveis distintos: o geográfico, o económico e o político. Como é compreensível, coexistem diferenças em termos das condições naturais, da dimensão dos territórios e da população, dos indicadores económicos - como o Produto Nacional Bruto - e diferenciações nos sistemas políticos adotados.
Uma das formas encontradas para definir com mais profundidade o Terceiro Mundo foi a sua divisão em grandes conjuntos geográficos. A América Latina, uma área colonizada pela Península Ibérica, tornada independente na primeira metade do século XIX, procurou, na segunda metade de Oitocentos, empreender um plano de fomento económico. Apesar disso, estes países enfrentam graves problemas. A sua economia estava muito dependente do exterior, principalmente dos EUA; a dívida externa é muito elevada; a injusta distribuição da riqueza desencadeia conflitos sociais e os regimes políticos são muito instáveis. Veja-se o caso da Argentina, no início de 2002 a viver os efeitos de uma profunda crise político-económica, que leva à queda constante dos Governos.
O Mundo Muçulmano, que abrange a África do Norte e o Próximo e o Médio Oriente, têm em comum a alta taxa populacional e a obediência à religião muçulmana. Nesta área persiste um crescimento económico desnivelado, resultante, entre outras causas, dos recursos naturais disponíveis, como o petróleo. Os países da OPEP (Organização de Países Exportadores de Petróleo), atualmente OPEC, conseguiram, em 1973, impor as suas condições ao mundo industrializado, quando decretaram o aumento do preço do petróleo.
O fator que mais compromete o crescimento económico desta região é o seu envolvimento em conflitos armados. Este clima de tensão é causado pela coexistência não-pacífica com o país vizinho, Israel, e pelos conflitos entre as próprias nações islâmicas.
No Sudeste Asiático, os povos milenares recuperaram a sua independência no final da II Guerra Mundial, mas viram-se confrontados com uma explosão demográfica e com diferentes ritmos de crescimento económico. A par de países muito empobrecidos, existem países capitalistas que experimentaram um surto económico, como a Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Hong Kong.
Na África Negra vive-se, ainda hoje, uma situação dramática, pois aqui se concentram a maioria dos países mais pobres do mundo. A economia é atrasada e dependente, a agricultura retrógrada e ameaçada pelas devastadoras secas e intempéries. A política é dominada pela instabilidade gerada pela instauração de regimes ditatoriais e pela persistência de conflitos tribais. Muitos destes grupos populacionais não conseguem assegurar a sua subsistência, vivendo da ajuda internacional, que nem sempre é suficiente e eficiente. Moçambique é um dos casos mais dramáticos. Após a independência de Portugal (1975), o país mergulhou numa terrível guerra civil, travada entre os adeptos da FRELIMO e da RENAMO, que agravou a depauperização do país e arrastou para a miséria e para a morte milhares de moçambicanos. Outros, como o Zimbabwe, persistem em ditaduras com elementos agressores de interesses externos ainda instalados no país.
Com a descolonização, muitos povos do Terceiro Mundo procuraram afirmar-se politicamente no panorama internacional. Este esforço resultou na Conferência de Bandung, realizada perto da capital da Indonésia em abril de 1955, onde se reuniram 29 países da Ásia e da África. As figuras que mais se evidenciaram nesta conferência foram o anfitrião, Sukarno e Nehru, Primeiro-Ministro indiano. Deste encontro resultou o estabelecimento de princípios como o respeito pela soberania das nações, a não agressão, a não-ingerência nos assuntos internos destas nações, a igualdade racial e noções de coexistência pacífica.
Mais tarde, no território da antiga Jugoslávia, reuniu-se, em 1961, uma nova conferência sob o patrocínio de Tito, que contou com a participação de países do Terceiro Mundo, a maioria dos quais parecia apoiar a formação do Movimento dos Não-Alinhados, independente das grandes potências mundiais. Mas esta conferência ficou manchada por alguns desentendimentos políticos.
Atualmente, os problemas do Terceiro Mundo, como a fome, o subdesenvolvimento e a dívida externa, estão na ordem do dia. O nascimento de uma nova ordem mundial passa, obrigatoriamente, por um crescente diálogo entre Norte e Sul, sempre reclamado, mas nunca realizado.
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