Tocata para Dois Clarins

Construída a partir das vozes alternadas de António e de Maria, Tocata para Dois Clarins conta a história sentimental de um jovem casal burguês desde o namoro até ao casamento e ao nascimento do primeiro filho, tendo como pano de fundo histórico a década de 40, num Portugal salazarista e colonial, onde eventos como a organização da Exposição do Mundo Português se oferecem como contraponto confrangedor de uma Europa devastada pela guerra. A distância temporal entre os eventos narrados, situados entre 1936 e 1941, e o tempo do discurso, num Portugal pós-25 de abril, oferece a distância necessária para que seja o leitor a encontrar, pela comparação dos dados que lhe são oferecidos e pelo confronto entre um antes e um depois, um sentido tragicamente irónico para um relato que, numa linguagem quase neutral, capta a ideologia oficial da época. Quando, no fim do romance, é revelado, durante a cerimónia lustral do batismo, o nome próprio do filho do casal, "Rui Manuel", que é também o nome do autor que usa o pseudónimo Mário Cláudio, nascido em 1941, compreende-se que a narrativa funcionara como inquirição (e não é de somenos importância o rigor documental que nutre este romance, que também é histórico) sobre as origens, tentativa de compreensão sobre o tempo e os seres que fundaram a existência presente. Avulta, então, a dimensão de um romancista, que, depois de romances como Amadeo, Guilhermina, Rosa ou A Quinta das Virtudes, procura, ao ficcionar o Portugal passado, os travejamentos presentes da sua e nossa identidade.
Como referenciar: Tocata para Dois Clarins in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-08-10 20:07:31]. Disponível na Internet: